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Expansão da agricultura, a drenagem de áreas úmidas e a retirada de água para irrigação ameaçam o Cerrado (Lucas Ninno/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 16 de março de 2026 às 11h30.
Quando se fala em estoques de carbono e regulação do clima, a Amazônia costuma roubar a cena. Mas um estudo publicado nesta semana na revista científica New Phytologist jogou luz sobre um reservatório até então ignorado: as áreas úmidas do Cerrado.
A pesquisa constatou que esses ambientes podem armazenar até 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare – volume até seis vezes superior à densidade média registrada na floresta amazônica.
Liderado pela pesquisadora Larissa Verona, o trabalho reuniu cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos), do Instituto Max Planck (Alemanha) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
É a primeira vez que os estoques de carbono dos solos de veredas e campos úmidos do Cerrado são avaliados em profundidade.
Enquanto estudos anteriores se limitavam a camadas superficiais de 20 centímetros a um metro – subestimando o carbono total em até 95% –, os pesquisadores foram além e coletaram amostras de até quatro metros de profundidade.
A análise também revelou a idade impressionante desse material. Testes de datação por radiocarbono indicaram que a matéria orgânica acumulada nesses solos tem, em média, cerca de 11 mil anos, com registros que ultrapassam 20 mil anos.
"Esse carbono levou muito tempo para se acumular. Se ele for perdido, não podemos reconstruí-lo rapidamente, como ocorre com uma floresta que pode ser replantada", afirma Larissa Verona.
Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado ocupa cerca de 26% do território brasileiro. Reconhecido como a savana mais biodiversa do mundo, abriga as nascentes de aproximadamente dois terços das grandes bacias hidrográficas do país, incluindo sistemas que alimentam o rio Amazonas.
"As condições úmidas dos campos e veredas criam falta de oxigênio, o que desacelera a decomposição de plantas e outros resíduos. Como resultado, a matéria orgânica se acumula ao longo do tempo e permite que esses ambientes armazenem grandes quantidades de carbono", explica a pesquisadora Amy Zanne, coautora do estudo.
Apesar da relevância, os pesquisadores alertam que o papel do Cerrado no equilíbrio climático global ainda é subestimado. "O enorme estoque de carbono do Cerrado não costuma ser incluído nos cálculos climáticos porque, até recentemente, não sabíamos que ele estava ali", afirma Zanne.
As ameaças, no entanto, são concretas. A expansão da agricultura, a drenagem de áreas úmidas e a retirada de água para irrigação estão entre os principais fatores de pressão. Quando o solo perde umidade, a matéria orgânica acumulada se decompõe rapidamente, liberando dióxido de carbono e metano – dois dos principais gases do efeito estufa.
"Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera. É uma quantidade de carbono orgânico até então desconhecida, em uma grande extensão e em um bioma improvável", alerta o professor da Unicamp, Rafael Oliveira.
As medições da equipe indicam ainda que cerca de 70% das emissões anuais de gases de efeito estufa nesses ambientes ocorrem durante a estação seca, período em que o solo perde umidade e a decomposição se acelera. Com o avanço das mudanças climáticas, temperaturas mais altas e secas prolongadas tendem a liberar parcelas ainda maiores do carbono estocado.
O Cerrado já enfrenta pressões crescentes. Grandes áreas vêm sendo convertidas para produção agrícola e pecuária, frequentemente com a drenagem de veredas e campos úmidos. Os pesquisadores defendem a ampliação da proteção desses ecossistemas e maior reconhecimento de seu papel climático.
Embora a legislação brasileira já preveja proteção para esses ambientes, estima-se que até metade deles já tenha sofrido algum tipo de degradação.
"Chamamos o Cerrado de bioma de sacrifício, porque o Brasil quer proteger a Amazônia, mas também quer manter a agricultura. Então, o agronegócio acaba convertendo o Cerrado para a produção de commodities", diz Larissa Verona. "O Cerrado também é fundamental por seus grandes estoques de carbono de longo prazo, e precisamos lutar para protegê-lo."