Economia

Guerra no Irã pressiona inflação e eleva risco de crise global, diz FMI

Guerra no Irã reduz espaço fiscal, pressiona preços e pode elevar dívida global a níveis históricos, segundo relatório Monitor Fiscal

Guerra no Irã: Fundo estima que se conflito se prolongar, a dívida global em risco poderá registrar um aumento adicional de 4 pontos percentuais (KEN CEDENO/AFP)

Guerra no Irã: Fundo estima que se conflito se prolongar, a dívida global em risco poderá registrar um aumento adicional de 4 pontos percentuais (KEN CEDENO/AFP)

EFE
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Agência de Notícias

Publicado em 15 de abril de 2026 às 12h44.

Muitos países não sanearam seus balanços fiscais e encaram agora uma nova frente de pressão inflacionária gerada pela guerra no Irã com uma margem de manobra muito escassa, um panorama que ameaça gerar uma nova crise de dívida e prejudicar a economia das famílias, advertiu nesta quarta-feira o Fundo Monetário Internacional (FMI) em seu Monitor Fiscal.

O relatório, que aponta que a dinâmica da dívida mundial em 2025 continuou piorando, coloca as autoridades diante do dilema de "escolher entre proteger suas populações dos aumentos de preços e preservar seu espaço fiscal", devido à interrupção no fornecimento de energia e ao endurecimento das condições financeiras causados pelo conflito iniciado por Estados Unidos e Israel.

A isso soma-se o aumento adicional do déficit representado pelo incremento generalizado dos gastos com defesa em um contexto marcado por novas e insistentes tensões geopolíticas.

A dívida pública mundial atingiu aproximadamente 94% do PIB em 2025 e, se as políticas atuais não forem modificadas, superará a marca de 100% do PIB até 2029, um nível não visto desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

O órgão estima que, se o conflito em torno do Irã se prolongar, a dívida global em risco, parâmetro usado pelo FMI para medir a probabilidade de deterioração futura da relação dívida/PIB, poderá registrar um aumento adicional de 4 pontos percentuais.

"Exige esforço, mas é viável orientar a ajuda (estatal) de forma a evitar a utilização de recursos fiscais de modo excessivo, regressivo ou difícil de reverter posteriormente e, ao mesmo tempo, salvaguardar a saúde fiscal. Isso exige, em certos casos, basicamente realocar fundos, uma medida que às vezes é muito dolorosa, mas que constitui o único caminho viável se o espaço fiscal for muito limitado", explica em entrevista à Agência EFE Rodrigo Valdés, diretor de Assuntos Fiscais do FMI.

Valdés acredita que, caso se disponha de uma maior margem fiscal, convém ressaltar uma segunda mensagem de relevância: não é necessário cair em excessos.

"De fato, não é benéfico para a economia tentar aplicar um estímulo fiscal desmedido, dado que enfrentamos uma crise de oferta, e não de demanda. Por conseguinte, não é possível neutralizar a totalidade dos seus efeitos", acrescenta o ex-ministro da Fazenda chileno.

Desta forma, Valdés ressalta o perigo de que os governos acabem gerando maior demanda frente a uma oferta – neste caso, de hidrocarbonetos – temporariamente estrangulada pelo fechamento do estreito de Ormuz, o que poderia resultar em ainda mais inflação.

"Sendo assim, a intervenção fiscal deve se ater a esta lógica: ser seletiva, direcionada a grupos específicos e de caráter temporário e, sob uma perspectiva macroeconômica, adotar uma postura mais passiva, se assim preferir, dentro do ciclo econômico", acrescenta o economista, que aponta que, por mais duro que seja o choque de oferta, não se deve esquecer a necessidade de melhorar simultaneamente os balanços da dívida pública.

O Monitor Fiscal ressalta também que não apenas o nível de dívida é preocupante, mas também a sua trajetória. Com a alta global das taxas de juros, os financiamentos encareceram, enquanto os déficits primários tornaram-se "estruturalmente mais amplos" e os mercados ficaram mais sensíveis em relação à saúde fiscal dos Estados, de modo que a margem para reorganizar os balanços está diminuindo.

O relatório destaca que os EUA estão incorrendo em déficits extremamente elevados – 7% a 8% do PIB – em condições próximas ao pleno emprego, sem contar com um plano de consolidação crível no horizonte e com uma dívida que, segundo projeções do FMI, passará de 124% do PIB atual para 142% até 2031.

O órgão enfatiza que a grande lei de corte de impostos impulsionada por Donald Trump adicionará anualmente cerca de 0,75% do PIB ao déficit primário.

A China prossegue com a sua expansão fiscal, incorrendo em déficits de 8% para reavivar o consumo e combater a deflação, e sua dívida nos próximos cinco anos alcançará 127% de seu PIB.

O balanço do Japão – o país com a maior dívida do mundo desenvolvido, em torno de 230% de seu PIB – melhorou, mas os rendimentos que paga estão em níveis recordes, o que suscita temores de possíveis contágios, enquanto que a Europa se mantém no cenário de 2025, com menor disciplina em relação ao déficit devido ao aumento nos gastos com defesa, um espaço fiscal mais estreito e uma população envelhecida.

Por sua vez, as economias emergentes, muito mais expostas aos estragos da guerra contra o Irã, contam em geral com um colchão fiscal ainda menor, vencimentos de dívida mais curtos e prêmios de risco mais elevados.

Dentro deste grupo, os países de baixa renda sofrem uma pressão ainda maior com os rendimentos em níveis recordes e uma diminuição nas ajudas ao desenvolvimento.

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