Pergaminho medieval: pesquisadores encontraram material genético de antigas cepas do vírus da varíola ovina (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
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Publicado em 21 de setembro de 2026 às 06h02.
Um vírus que provoca varíola em ovelhas ficou preservado por séculos nas páginas de manuscritos medievais. A partir do DNA encontrado em pergaminhos, pesquisadores estimaram que o agente surgiu há cerca de 5 mil anos.
O estudo foi publicado na última quinta-feira, 2, na revista Science Advances. A pesquisa analisou dezenas de livros e documentos jurídicos escritos em pergaminho, material produzido a partir da pele de animais.
Os pesquisadores conseguiram identificar não apenas quais espécies foram usadas na fabricação das páginas, mas também vírus e outros patógenos que infectavam os animais. Entre as amostras estavam dezenas de linhagens extintas do vírus da varíola ovina.
O material analisado foi obtido a partir de manuscritos medievais produzidos entre aproximadamente 700 e 1450 d.C.. Para recuperar o DNA, os pesquisadores utilizaram borrachas para remover pequenas partículas da superfície das páginas.
O método fazia parte de uma investigação maior sobre a origem dos manuscritos medievais. O resultado revelou que o pergaminho pode funcionar como uma espécie de arquivo biológico, preservando informações genéticas dos animais usados em sua produção.
As peles passavam por um processo intenso antes de se transformarem em páginas. Eram mergulhadas durante dias em soluções de cal e depois raspadas e esticadas manualmente.
Mesmo após séculos de armazenamento e manuseio, parte do material genético permaneceu preservada. Isso permitiu identificar fragmentos de DNA pertencentes aos animais e aos agentes infecciosos que os afetavam.
A quantidade de peles necessária para produzir manuscritos ajuda a explicar a importância da descoberta. Grandes Bíblias medievais podiam exigir centenas de peles de animais. Dessa forma, um único livro pode representar geneticamente uma amostra de um rebanho ou de uma criação de animais existente naquela época.
Essa característica transforma os manuscritos em uma fonte potencial para investigar a evolução de doenças que afetavam animais no passado.
A varíola ovina é uma doença viral altamente contagiosa que afeta rebanhos de ovelhas. Em surtos graves, o vírus pode provocar a morte de 50% a 80% dos animais jovens.
Embora seja menos conhecida do que a varíola humana, a doença representa uma ameaça importante para a criação de ovinos. Grandes surtos podem causar perdas econômicas e se espalhar rapidamente entre rebanhos.
A análise das linhagens encontradas nos manuscritos permitiu aos pesquisadores reconstruir parte da história evolutiva do vírus.
Ao comparar as diferenças genéticas entre as amostras medievais, os pesquisadores estimaram que as linhagens analisadas descendem de um ancestral comum. Esse vírus teria se tornado especializado em ovelhas há cerca de 5 mil anos.
O período coincide com evidências arqueológicas de uma mudança na criação desses animais. Na época, populações das estepes da Eurásia passaram a administrar e reproduzir ovelhas de maneira mais intensiva para obter lã.
Rebanhos maiores e mantidos próximos poderiam facilitar a transmissão do vírus. A mobilidade dos pastores durante a Idade do Bronze também pode ter contribuído para a disseminação do agente.
Os pesquisadores consideram que a intensificação da criação de ovinos para produção de lã pode ter criado condições favoráveis para a evolução e a expansão do vírus.
A descoberta indica que pergaminhos podem guardar informações sobre a história de doenças que afetavam animais há centenas ou milhares de anos. Como os manuscritos foram produzidos a partir de grandes quantidades de peles, eles podem fornecer amostras de diferentes populações animais ao longo do tempo.
O método também pode ajudar pesquisadores a investigar a evolução de outros patógenos antigos. Com isso, documentos históricos passam a ser não apenas fontes de informação sobre sociedades do passado, mas também possíveis registros da história biológica dos animais.