Saturno: imagem do telescópio Hubble mostra a estrutura de dez lados próxima ao polo sul do planeta (NASA/ESA/A. Sánchez-Lavega (Universidade do País Basco, EHU))
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Publicado em 21 de setembro de 2026 às 05h02.
Uma onda atmosférica com dez lados foi identificada próximo ao polo sul de Saturno. A estrutura apareceu discretamente em imagens de 2023 e ganhou definição nos anos seguintes, até que seus dez vértices fossem reconhecidos em observações de 2025.
O fenômeno é parecido, em alguns aspectos, com o famoso hexágono de Saturno, localizado no polo norte. A diferença é que a formação do sul parece ser mais recente e apresenta um comportamento dinâmico que ainda não havia sido observado no planeta.
O estudo foi publicado na última quinta-feira, 2, na revista Science Advances e liderado por Agustín Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco. A pesquisa reúne cientistas de instituições como a Nasa, a Universidade da Califórnia em Berkeley e a Universidade de Leicester.
Apesar do formato geométrico, a estrutura não é uma formação sólida. O desenho é produzido por uma onda atmosférica associada aos ventos que circulam em altas latitudes de Saturno. A corrente de ar na região pode ultrapassar 400 km/h. Já o padrão formado pela onda se desloca muito mais lentamente, a aproximadamente 9 km/h.
Os dez vértices também apresentam um movimento de ida e volta. Segundo os pesquisadores, esse deslocamento ocorre em um ciclo de aproximadamente 32 dias. A diferença entre a velocidade dos ventos e a da estrutura indica que o decágono não é simplesmente um conjunto de nuvens sendo levado pela atmosfera.
O fenômeno também apresenta semelhanças com o hexágono do polo norte, identificado pelas sondas Voyager em 1980 e 1981. Com seis lados, a formação permanece praticamente estável há mais de quatro décadas.
O decágono do sul, por outro lado, ainda parece estar em evolução. O contorno já era perceptível nas imagens de 2023, mas os vértices ficaram progressivamente mais evidentes em 2024 e 2025.
Uma das principais pistas sobre a origem do fenômeno está em um grande redemoinho atmosférico observado próximo à estrutura. A formação tem cerca de 4 mil quilômetros de extensão e foi acompanhada entre 2023 e 2025. Os pesquisadores perceberam que alguns dos vértices mais definidos do decágono aparecem próximos a ela.
Uma das hipóteses é que o redemoinho tenha perturbado a corrente de ar e ajudado a desencadear a onda atmosférica. A relação, porém, ainda não foi comprovada. Para investigar a possibilidade, os cientistas fizeram simulações da atmosfera de Saturno.
Em alguns testes, perturbações nos ventos ou a presença de um grande redemoinho produziram padrões semelhantes ao observado. Nenhum dos cenários, porém, reproduziu exatamente a estrutura registrada nas imagens. Por isso, a origem do decágono ainda não está definida.
O Telescópio Espacial Hubble foi fundamental para acompanhar as mudanças no fenômeno. As primeiras imagens, feitas em 2023, mostravam a estrutura de maneira pouco definida.
Nas observações seguintes, os vértices ficaram mais evidentes. Em agosto e setembro de 2025, os pesquisadores conseguiram identificar os dez pontos que caracterizam a formação.
A sequência de imagens permitiu comparar a posição dos vértices e calcular a velocidade de deslocamento da onda. Os dados também ajudaram a identificar o movimento periódico de aproximadamente 32 dias.
Essa evolução diferencia o decágono do hexágono do norte. Enquanto a estrutura setentrional permanece estável há décadas, a formação do sul apresenta mudanças perceptíveis.
Ainda não é possível prever quanto tempo o decágono permanecerá na atmosfera de Saturno. Os pesquisadores consideram que a estrutura pode ser temporária, justamente por apresentar mudanças desde que foi identificada.
O contraste com o hexágono do norte é um dos principais pontos de interesse. Entender por que uma formação permanece estável por décadas enquanto outra pode desaparecer pode ajudar a explicar a dinâmica da atmosfera do planeta.
Novas observações serão necessárias para acompanhar a evolução do fenômeno. Os dados também poderão ajudar a esclarecer como ondas e correntes atmosféricas produzem padrões geométricos em Saturno. Segundo pesquisadores, os modelos atuais são apenas uma primeira aproximação. Ainda são necessárias mais observações para determinar com maior precisão o mecanismo responsável pela formação.