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A cadeira de plástico com passaporte europeu e alma latino-americana

Presente em quintais, praias e até na capa de um álbum de Bad Bunny, o modelo monobloco atravessa décadas sendo amado e rejeitado ao mesmo tempo

Sem inventor único e criada na Europa dos anos 1960, a cadeira monobloco virou parte da paisagem afetiva da América Latina (Teo Badini/Pexels)

Sem inventor único e criada na Europa dos anos 1960, a cadeira monobloco virou parte da paisagem afetiva da América Latina (Teo Badini/Pexels)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 21 de setembro de 2026 às 06h00.

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Numa tarde de sábado, o som mais comum em qualquer área externa brasileira é o arrasto de uma cadeira de plástico sendo puxada sobre o cimento. Ela aparece em festas de aniversário no quintal, em barracas de praia no litoral nordestino, em calçadas de bares de esquina e em rodas de conversa depois do futebol de várzea. Leve, empilhável e barata, a cadeira monobloco se tornou um dos objetos mais reproduzidos do planeta, e também um dos mais debatidos dentro do universo do design.

O termo monobloco descreve a principal característica técnica desse tipo de assento, já que a peça inteira, do encosto às pernas, sai de uma única injeção de plástico dentro de um molde, sem parafusos, encaixes ou soldas. Essa simplicidade de fabricação foi o que permitiu produção em escala industrial e preços acessíveis em praticamente todos os continentes.

Origem disputada entre designers

A Universale 4867, de Joe Colombo, empilhada em vermelho: a raiz de design que inspirou a família das cadeiras monobloco (Divulgação/MoMA)

A paternidade da cadeira monobloco não tem consenso entre historiadores do design. Alguns apontam o alemão Helmut Bätzner como pioneiro, com a cadeira Bofinger, lançada em 1964 e moldada em poucos minutos por prensagem industrial. Outros citam a Universale 4867, assinada pelo italiano Joe Colombo em 1965 para a Kartell, hoje parte do acervo permanente do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Há ainda quem credite ao também italiano Vico Magistretti o primeiro modelo sem qualquer parte metálica, apresentado em 1967.

Essas experiências aconteceram num período em que o plástico era tratado como material de vanguarda, capaz de romper com a lógica tradicional da marcenaria, baseada em encaixe e montagem de peças separadas. A produção em molde único surgia como novidade estética antes de se tornar sinônimo de praticidade doméstica.

Fabricação em série e presença no Brasil

Duas cadeiras brancas à beira-mar, cenário repetido em praias de norte a sul da América Latina (Gabriel Antão/Pexels)

Estima-se que mais de um bilhão de unidades desse tipo de cadeira já tenham sido fabricadas globalmente, segundo levantamentos citados por publicações internacionais de design como a britânica Wallpaper. No Brasil, marcas como Tramontina e Antares dominam esse mercado, com modelos vendidos com frequência em conjunto com mesas do mesmo material. Um conjunto composto por uma mesa e quatro cadeiras poltrona da linha Antares, por exemplo, é comercializado por R$ 345,90 em lojas como a Telhanorte, valor que ajuda a explicar por que o produto segue sendo item recorrente em residências e comércios pelo país.

A matéria-prima mais usada é o polipropileno, resina injetada em moldes aquecidos entre 220°C e 230°C. O processo garante resistência a sol, chuva e uso contínuo ao ar livre, características que explicam a presença maciça dessas cadeiras em bares, escolas, igrejas e quintais residenciais.

Símbolo cultural em meio ao debate ambiental

A dupla de cadeiras que ilustra a capa de
'DeBÍ TiRAR MáS FOToS', de Bad Bunny, lançado em janeiro de 2025 (Divulgação)

A cadeira monobloco ganhou um capítulo recente na cultura pop ao estampar a capa do álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS, do cantor porto-riquenho Bad Bunny, lançado em janeiro de 2025. A imagem mostra duas cadeiras plásticas brancas posicionadas diante de uma paisagem rural, remetendo às raízes agrícolas de Porto Rico, e reforçou a associação do objeto com memória afetiva em diferentes países da América Latina.

Em paralelo, a onipresença do modelo alimenta críticas ligadas ao consumo de plástico descartável. O material, antes celebrado por sua leveza e durabilidade, hoje também é associado a resíduos que se fragmentam em microplásticos e levam séculos para se decompor. A cidade de Basileia, na Suíça, chegou a restringir o uso da cadeira em espaços públicos entre 2008 e 2017, episódio citado recentemente pelo arquiteto italiano Carlo Ratti em uma coluna sobre objetos cotidianos do design italiano.

Mesmo em meio a esse debate, a cadeira monobloco segue sendo fabricada e comprada em grande escala em fábricas espalhadas por diferentes continentes. Ela continua presente em cenários tão distintos quanto uma praia carioca, um evento cultural em Milão ou uma prateleira de loja de departamento em qualquer cidade brasileira, cumprindo a mesma função original de oferecer um lugar simples para sentar.

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