Suplemento de ômega-3: ensaio clínico não encontrou melhora na memória ou na cognição (Getty Images)
Redatora
Publicado em 13 de julho de 2026 às 09h03.
Os suplementos de ômega-3 são amplamente utilizados por pessoas que buscam preservar a memória e reduzir o risco de demência. No entanto, um ensaio clínico recente mostrou que a suplementação não demonstrou benefícios para a cognição, tampouco para a estrutura cerebral dos participantes avaliados.
A conclusão é de um ensaio clínico publicado em junho na revista científica EBioMedicine. O estudo avaliou adultos mais velhos com baixo consumo de peixe, uma das principais fontes naturais de ômega-3.
Cerca de metade dos participantes também apresentava maior risco genético para a doença de Alzheimer. Mesmo assim, os pesquisadores não encontraram diferenças entre quem recebeu o suplemento e quem tomou placebo.
Em parte dos voluntários, os cientistas confirmaram que os níveis de ômega-3 aumentaram no cérebro. Apesar disso, o suplemento não resultou em melhora da memória, da cognição nem da estrutura cerebral.
O novo estudo contrasta com pesquisas observacionais realizadas nos últimos anos. Esses trabalhos mostraram que pessoas com níveis mais elevados de ômega-3 no sangue costumam apresentar melhor desempenho cognitivo, cérebros considerados mais saudáveis e menor risco de desenvolver demência.
Também foi observado que pacientes com doença de Alzheimer frequentemente apresentam concentrações mais baixas desse nutriente. Entretanto, quando essa hipótese é avaliada em ensaios clínicos com suplementação, a maior parte das pesquisas não encontra benefícios consistentes para a saúde cerebral.
Os pesquisadores e especialistas discutem várias explicações para essa diferença entre os estudos. Uma das hipóteses é que muitas pessoas já obtenham quantidades suficientes de ômega-3 por meio da alimentação.
Além do EPA e do DHA, encontrados principalmente em peixes, o organismo consegue produzir pequenas quantidades de DHA a partir do ALA, um tipo de ômega-3 presente em alimentos como nozes e sementes.
Outra possibilidade é que os benefícios observados em pessoas com níveis elevados de ômega-3 estejam relacionados ao conjunto de hábitos alimentares, e não apenas ao nutriente. Dietas ricas em peixes costumam incluir maior consumo de vegetais e menor ingestão de alimentos ultraprocessados, fatores que também estão associados à saúde do cérebro.
Outra linha de pesquisa sugere que o fator mais importante pode ser a forma como o cérebro metaboliza o ômega-3.
Segundo essa hipótese, existe uma molécula responsável por degradar esse nutriente no cérebro. Em pessoas com predisposição genética para a doença de Alzheimer, ela pode apresentar maior atividade, reduzindo a disponibilidade do ômega-3 nas células cerebrais.
Os pesquisadores também investigam se esse mecanismo pode ser influenciado pela microbiota intestinal e por uma alimentação rica em vegetais, fibras e alimentos fermentados. Se isso for confirmado, apenas elevar os níveis de ômega-3 por meio de suplementos talvez não seja suficiente para produzir benefícios.
Nem todos os especialistas descartam um possível papel dos suplementos. Uma das hipóteses é que os ensaios clínicos realizados até agora tenham acompanhado os participantes por um período relativamente curto para detectar mudanças que poderiam ocorrer ao longo de décadas.
Também existe a possibilidade de que o ômega-3 apresente melhores resultados quando associado a outros nutrientes presentes em uma alimentação equilibrada, principalmente em pessoas com deficiência nutricional.