Ciência

Nem todo Alzheimer provoca demência — e esse pode ser o motivo

Estudo identifica que neurônios imaturos ativam mecanismos de proteção contra os danos da doença e podem abrir caminho para novas terapias

Alzheimer: estudo tenta descobrir porque humanos podem não desenvolver demência (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Alzheimer: estudo tenta descobrir porque humanos podem não desenvolver demência (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 9 de julho de 2026 às 20h43.

Nem todas as pessoas diagnosticadas com Alzheimer desenvolvem perda de memória ou demência. Segundo pesquisadores do Netherlands Institute for Neuroscience, cerca de 30% dos idosos com as alterações cerebrais típicas da doença permanecem cognitivamente preservados, um dos maiores mistérios da neurologia.

Agora, um estudo publicado na revista Cell Reports aponta uma possível explicação.

A pesquisa identificou que um grupo raro de neurônios imaturos consegue ativar mecanismos de proteção contra os danos provocados pelo Alzheimer, aumentando a sobrevivência dessas células e reduzindo processos ligados à inflamação e à morte celular.

O que muda nos cérebros resistentes

Os pesquisadores analisaram amostras de tecido cerebral do Netherlands Brain Bank, incluindo cérebros de pessoas saudáveis, pacientes com Alzheimer e indivíduos que apresentavam as alterações da doença, mas nunca desenvolveram demência.

A equipe concentrou a investigação em uma pequena região ligada à memória, uma das poucas áreas do cérebro onde ainda podem existir neurônios recém-formados durante a vida adulta.

Mesmo em pessoas com mais de 80 anos, os cientistas encontraram neurônios imaturos em todos os grupos avaliados. A principal diferença, porém, não estava na quantidade dessas células, mas na forma como elas reagiam à doença.

Nos cérebros considerados resilientes, os neurônios ativavam programas biológicos relacionados à sobrevivência celular e apresentavam menor atividade de mecanismos associados à inflamação e à morte das células.

Mais do que substituir neurônios

Segundo a autora sênior do estudo, Evgenia Salta, essas células podem desempenhar um papel diferente do que os cientistas imaginavam.

Em vez de apenas substituir neurônios perdidos, elas podem ajudar a preservar o tecido cerebral ao redor e manter o cérebro funcional por mais tempo.

"Talvez essas células atuem como um fertilizante em um jardim que começou a se deteriorar", afirmou a pesquisadora.

Descoberta pode orientar novos tratamentos

Os autores ressaltam que o estudo foi realizado em tecido cerebral doado após a morte e, por isso, ainda não é possível confirmar exatamente como esses neurônios funcionam em cérebros vivos.

Ainda assim, os resultados reforçam uma mudança de foco nas pesquisas sobre Alzheimer. Em vez de investigar apenas como a doença danifica o cérebro, cientistas buscam entender por que algumas pessoas conseguem resistir aos seus efeitos.

"Se entendermos o que protege esses cérebros, poderemos desenvolver novas estratégias terapêuticas", afirmou Salta.

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