Fóssil: espécimes de Spriggina encontrados no sul da Austrália ajudam a reconstruir a origem da lateralidade em animais (Scott Evans/Museu Americano de História Natural)
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Publicado em 22 de julho de 2026 às 06h16.
A maioria das pessoas é destra, mas essa característica pode ser muito mais antiga do que a própria espécie humana. Um estudo publicado na revista Scientific Reports encontrou evidências de que a preferência pelo lado direito já existia há cerca de 550 milhões de anos, em um organismo marinho que viveu muito antes dos primeiros vertebrados.
As conclusões são baseadas na análise de fósseis de Spriggina floundersi, um animal do tamanho de um polegar encontrado no sul da Austrália. Segundo os pesquisadores, o organismo apresentava uma tendência consistente de virar para a direita durante seus deslocamentos, representando a evidência mais antiga já registrada de lateralidade comportamental em animais.
A pesquisa foi liderada por cientistas do Museu Americano de História Natural, nos Estados Unidos, que analisaram mais de uma centena de fósseis encontrados no Parque Nacional Nilpena Ediacara, na Austrália do Sul.
A Spriggina viveu durante o período Ediacarano, aproximadamente 560 milhões de anos atrás, quando os oceanos eram habitados por formas de vida muito diferentes das atuais. Seu corpo era alongado, segmentado e terminava em uma estrutura semelhante a uma cabeça.
Para entender como esses organismos se movimentavam, os pesquisadores fotografaram os fósseis e realizaram reconstruções tridimensionais capazes de medir a curvatura preservada nas rochas. As análises mostraram que muitos indivíduos estavam arqueados, como se estivessem deslizando pelo fundo do mar no momento em que foram soterrados.
Ao comparar a orientação dos fósseis, os cientistas identificaram um padrão claro: aproximadamente o dobro dos exemplares representava animais que se curvavam para a direita em relação aos que viravam para a esquerda.
Segundo os autores, esse comportamento indica que a lateralidade, característica relacionada à preferência por um dos lados do corpo, surgiu muito antes do aparecimento de membros, mãos ou pés.
Embora os fósseis não permitam explicar por que a Spriggina favorecia esse lado, o estudo mostra que essa preferência já fazia parte da biologia de alguns dos primeiros animais complexos conhecidos.
A lateralidade não é exclusiva dos seres humanos. Diversos animais apresentam preferência por um dos lados do corpo para executar determinadas atividades, como caminhar, capturar alimentos ou escapar de predadores.
Os pesquisadores lembram que esse padrão também aparece em outros níveis da natureza. A molécula de DNA, por exemplo, possui uma estrutura em dupla hélice orientada para a direita, enquanto diferentes espécies de plantas e animais exibem assimetrias semelhantes durante o desenvolvimento.
Até então, uma das evidências mais antigas desse comportamento vinha de um Homo habilis que viveu há cerca de 1,8 milhão de anos e apresentava sinais de preferência pelo uso da mão direita.
Segundo os pesquisadores, adotar sempre a mesma direção durante um movimento pode trazer benefícios importantes para a sobrevivência.
Em situações de risco, por exemplo, escolher rapidamente para qual lado virar reduz o tempo necessário para reagir diante de um predador, aumentando as chances de escapar.
Especialistas que não participaram do estudo afirmam que os resultados também sugerem que a Spriggina possuía capacidades sensoriais e motoras mais sofisticadas do que se imaginava.