Bactérias: pesquisa identificou algas e micro-organismos em fósseis de 540 milhões de anos (Getty Images)
Redatora
Publicado em 12 de maio de 2026 às 15h41.
Uma reanálise de fósseis encontrados no Brasil coloca em xeque uma das principais teorias sobre a origem da vida animal. Segundo um estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), estruturas interpretadas durante anos como rastros de pequenos organismos marinhos pertencem, na verdade, a comunidades de bactérias e algas com cerca de 540 milhões de anos.
A pesquisa foi publicada na revista Gondwana Research e sugere que formas animais complexas podem ter surgido mais tarde do que parte da comunidade científica acreditava.
Os vestígios analisados foram coletados em Mato Grosso do Sul e estavam associados ao período Ediacarano, fase anterior à explosão Cambriana — momento marcado pela rápida diversificação de seres vivos nos oceanos.
Durante décadas, especialistas acreditaram que as marcas teriam sido produzidas por criaturas semelhantes a vermes. A nova investigação, liderada por Bruno Becker-Kerber, identificou paredes celulares preservadas e matéria orgânica compatíveis com microrganismos, não com seres multicelulares.
A conclusão reforça a hipótese de que os mares daquele período possuíam pouco oxigênio para sustentar organismos mais sofisticados.
Para aprofundar a análise, a equipe utilizou técnicas avançadas no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), incluindo microtomografia e nanotomografia.
Os métodos permitiram observar estruturas internas sem danificar as amostras, revelando divisões celulares, filamentos e resíduos orgânicos incompatíveis com trilhas deixadas por animais em deslocamento.
Além disso, exames por espectroscopia Raman confirmaram a composição química do material, fortalecendo a interpretação de origem microbiana.
Os resultados indicam que o ambiente marinho era ocupado principalmente por colônias de bactérias e algas, algumas delas visíveis a olho nu. Entre os possíveis representantes identificados estão bactérias oxidantes de enxofre, conhecidas por alcançar tamanhos relativamente grandes.
As amostras também aparecem em diferentes dimensões, sugerindo a convivência de múltiplas espécies em ecossistemas marinhos rasos.
O período Ediacarano antecede uma das etapas mais importantes da história evolutiva do planeta: a explosão Cambriana, quando o aumento do oxigênio favoreceu o aparecimento de organismos mais complexos.
Com a nova interpretação, os autores indicam que a chamada meiofauna — grupo formado por pequenos invertebrados — pode não ter existido nessa época da maneira proposta anteriormente.
O trabalho integra um projeto mais amplo sobre o período em que os continentes estavam unidos no supercontinente Gondwana e pode ajudar cientistas a compreender como mudanças ambientais influenciaram o aparecimento da vida complexa na Terra.