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FOMO 3.0: criador do termo diz que IA fabricará ansiedades sobre realidades que não existem

Em entrevista à EXAME, Patrick McGinnis afirma que a IA inaugura uma nova fase do FOMO, com impactos para consumidores e empresas

Patrick McGinnis: "Nos próximos cinco ou dez anos, vamos passar muito tempo tentando entender a diferença entre a realidade e a simulação" (Divulgação)

Patrick McGinnis: "Nos próximos cinco ou dez anos, vamos passar muito tempo tentando entender a diferença entre a realidade e a simulação" (Divulgação)

Soraia Alves
Soraia Alves

Repórter de Marketing

Publicado em 22 de julho de 2026 às 08h00.

Última atualização em 5 de agosto de 2026 às 22h55.

Há pouco mais de 20 anos, Patrick McGinnis criou um termo que se tornaria um dos principais retratos da vida conectada: FOMO, sigla para Fear of Missing Out, que significa "medo de ficar de fora". Hoje, observando a aceleração frenética da inteligência artificial (IA) e o comportamento dos mercados, McGinnis identifica que estamos entrando em uma nova fase do FOMO, em que a fronteira entre o real e o simulado começa a desaparecer.

"Na era da simulação, a IA será o combustível de um FOMO fabricado, sobre coisas que, muitas vezes, nem existem na vida real. E isso é bem perigoso", diz o autor e investidor americano, em conversa com a EXAME.

McGinnis vem ao Brasil para participar de uma conversa durante o Rio Innovation Week, festival de inovação, tecnologia e criatividade que acontece em agosto, no Rio de Janeiro.

A terceira fase do FOMO

Para entender o presente, McGinnis revisita a própria trajetória do FOMO. Quando usou a sigla pela primeira vez em um artigo, em 2004, ele descrevia uma sensação bastante específica: a ansiedade por não conseguir participar de um evento ou atividade.

O FOMO, portanto, nasce enraizado às interações físicas e concretas. "Há 20 anos, eu me referia à ansiedade de perder uma festa com os amigos, uma reunião importante ou uma viagem especial. Tudo bem real", diz McGinnis.

Durante os anos 2010, o FOMO passou a ser moldado pelas redes sociais, que multiplicaram nossa exposição às experiências que outras pessoas vivem. Em poucos minutos, tornou-se possível acompanhar festas, viagens, shows, restaurantes e experiências acontecendo em tempo real, intensificando a sensação de que sempre há algo melhor acontecendo em outro lugar.

"Plataformas como o Instagram e o TikTok transformaram a comparação em um estado permanente. Além disso, filtros e conteúdos cuidadosamente produzidos criaram uma distorção do FOMO. Quando tudo é perfeito, a distância entre o que vivemos e o que o outro vive, ou aparenta viver, fica maior ainda", analisa o especialista.

Agora, essa distância tende a crescer ainda mais. Segundo McGinnis, o mundo está entrando na terceira era do FOMO, em que algoritmos e inteligência artificial deixam de apenas mostrar a realidade para começar a produzi-la.

"Nos próximos cinco ou dez anos, vamos passar muito tempo tentando entender a diferença entre a realidade e a simulação."

Quando a ansiedade chega às lideranças

De acordo com um estudo publicado no International Journal of Consumer Studies, o medo de ficar de fora influencia diretamente a intenção de compra nas redes sociais. A pesquisa concluiu que o FOMO funciona como um gatilho para decisões de consumo, especialmente quando combinado com o desejo de acompanhar tendências.

Para McGinnis, a terceira era do FOMO não afetará apenas consumidores, mas também empresas e lideranças. O especialista identifica o surgimento do FOMOAI, um comportamento em que organizações investem em IA mais por receio de parecerem atrasadas do que por uma estratégia claramente definida.

"Hoje, o medo de ficar de fora da era da IA já move decisões mais por medo do que por estratégia. É FOMO, mas com muito orçamento para ser investido", afirma.

Para ele, esse movimento lembra o início dos anos 2000, quando a euforia da internet levou investidores a despejarem bilhões de dólares em empresas que desapareceriam poucos anos depois. A diferença é que, agora, o volume de recursos é muito maior.

"O perigo é gastar tempo e dinheiro fazendo investimentos em coisas que não fazem sentido", afirma.

Em vez de tentar ser sempre o primeiro a adotar uma tecnologia, McGinnis defende que as empresas façam uma pausa para entender onde a IA realmente pode gerar retorno. Caso contrário, fica o alerta:

"O desperdício de hoje pode comprometer a capacidade de investir nas próximas ondas de inovação."
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