Super El Niño: o fenômeno que pode reescrever o mapa climático de 2027
Autoridades meteorológicas da Europa, dos EUA e da Austrália, juntamente com análises de órgãos brasileiros, preveem um El Niño intenso, que possivelmente pode bater o atual recorde, e resultar em consequências climáticas devastadoras
A imagem ilustra a elevação de temperaturas médias nos oceanos na costa da América Latina, onde se concentra o fenômeno climático conhecido como El Niño (Imagem gerada por IA)
Última atualização em 5 de junho de 2026 às 08h12.
Fala-se hoje de um Super El Niño, e até de um "El Niño Godzilla". Mas, afinal, o que está em jogo para este e para o próximo à medida que se projeta oscilações na pressão atmosférica e nas temperaturas do oceano acima do que foi visto nos últimos 150 anos?
Um estudo recente do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) reuniu dados de agências meteorológicas pelo mundo, como o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e o Bureau de Meteorologia da Austrália (BOM), e sugere que o evento do El Niño de 2026/27 pode ser um dos mais intensos da história, devido, em grande parte, ao aquecimento global.
As consequências de um Super El Niño, como vem sendo chamado, podem ser devastadoras, com repercussões macroeconômicas que se alastram a baixas colheitas, problemas sociais decorrentes de enchentes e secas, e uma inevitável queda de produção que se reflete nas exportações.
Por trás da intensidade adicional projetada para o El Niño desse ano, aponta o estudo, está o aquecimento global.
"O sinal de aquecimento global pode contribuir para que os anos de 2026 e 2027 sejam mais quentes do que 2023 e 2024, o que pode aumentar o risco de incêndios na Amazônia e no Pantanal e impactos na população devido ao estresse térmico, particularmente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, caso o El Niño atinja a categoria de intenso, e mantidas as incertezas inerentes ao horizonte atual de previsão", diz o Cemaden, realçando que as consequências exatas não podem ser previstas nesse momento.
O Super El Niño não é um fenômeno novo, com registros desde o século XIX: o evento se intensifica quando a temperatura média dos oceanos sobe em mais de dois graus.
Todavia, o aquecimento global torna o fenômeno ainda mais intenso, elevando as temperaturas oceânicas em até 3 graus acima da média. Uma diferença de dois ou três graus pode parecer pequena, mas é extrema para o ecossistema como um todo — aquecer os oceanos nessa medida requer uma quantidade enorme de energia, e isso, por si só, já desequilibra totalmente o ecossistema frágil, levando à perda de elementos sensíveis à temperatura, como recifes de coral, o que faz com que muitos animais marinhos morram de fome, e mais uma cascata de consequências negativas.
Apesar das previsões preocupantes, o Cemaden reitera diversas vezes ao longo do estudo que um Super El Niño é apenas uma possibilidade - por mais que seja mais acentuada - e que o evento pode, afinal, ter proporções normais:
"A NOAA afirmou, em seu relatório de 14 de maio, que há 82% de chance de um El Niño chegar entre maio e julho, e 96% de chance de se desenvolver até dezembro. No entanto, com base nas observações atuais, a agência americana previu apenas 37% de chance de que ele se enquadre na categoria mais forte, a de "muito forte", na qual as temperaturas oceânicas no Pacífico Tropical Central e Oriental estão mais de 2,0°C acima da média. O último El Niño a atingir esse limiar ocorreu em 2015/2016." Na época, de acordo com as figuras do estudo, a temperatura chegou a beirar os 3 graus acima da média, superando significativamente a barreira extrema de 2 graus.
Veja as consequências tradicionais do El Niño, que podem ser amplificadas por um evento de maior magnitude:
Secas no Norte e Nordeste
Ribeirinhos caminham com galões de água nas margens secas do Rio Madeira em Humaitá, no Amazonas, em 7 de setembro de 2024, durante seca particularmente intensa. (AFP Photo)
O histórico climático brasileiro mostra que grandes secas, especialmente no Norte e Nordeste, costumam coincidir com episódios intensos de El Niño, como os registrados ao longo dos anos 80, 90 e durante a década de 2010, e, sobretudo, em 2023/2024, quando o país enfrentou a pior estiagem em 70 anos, segundo o Cemaden, afetando mais de 80% dos municípios brasileiros.
Ainda assim, especialistas ressaltam que o fenômeno não é o único fator determinante, já que secas severas também ocorreram em períodos sem El Niño, influenciadas pela temperatura do Atlântico Tropical Norte e por mudanças no uso da terra.
A comparação entre os eventos recentes revela ainda uma mudança no padrão espacial da seca: enquanto em 2015/2016 os impactos se concentraram principalmente no Nordeste, em 2023/2024 houve avanço expressivo para o Centro-Oeste, o Sudeste e a Amazônia, com expansão inclusive durante o inverno.
Diante da possibilidade de um novo El Niño em 2026/2027, cientistas alertam para riscos de redução das chuvas, aumento das temperaturas e pressão sobre os reservatórios hidrelétricos, embora enfatizem que os efeitos variam a cada episódio e dependem da interação entre diferentes fatores climáticos e ambientais.
Além de secas, o El Niño exerce forte pressão sobre os recursos hídricos ao combinar redução prolongada das chuvas e temperaturas elevadas, cenário que acelera a transição da seca meteorológica, causada por eventos climáticos, para a seca hidrológica — quando reservatórios, lagos, rios e aquíferos caem drasticamente abaixo da média — e compromete a disponibilidade de água.
Na Amazônia, especialistas observam que os efeitos persistem mesmo após o enfraquecimento do fenômeno, devido à lenta capacidade natural de recuperação das grandes bacias hidrográficas. Com isso, rios podem permanecer por meses abaixo da média histórica, afetando o abastecimento humano, a navegação, a geração de energia e os ecossistemas aquáticos.
Embora parte da região apresente atualmente condições próximas da normalidade, bacias como as dos rios Negro, Xingu e Tocantins-Araguaia ainda registram déficits severos, reflexo do acúmulo de impactos hídricos ao longo da última década e da recuperação gradual dos sistemas fluviais amazônicos.
Chuvas e enchentes no Centro-Sul
Vista das áreas inundadas ao redor do estádio Arena do Grêmio em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, tirada em 29 de maio de 2024. A água e a lama tornaram os estádios e sedes do Grêmio e do Internacional inoperáveis. Um El Niño particularmente forte pode levar a enchentes desse nível no sul do país. (SILVIO AVILA/AFP)
No Centro-sul do Brasil, análise de anos análogos a um possível cenário de El Niño forte em 2026 — com base nos episódios de 1982, 1991, 1997, 2009 e 2023 — aponta aumento da propensão a eventos extremos de chuva na região, especialmente na primavera.
Embora os pesquisadores ressaltem que o método não constitui uma previsão absoluta, o cruzamento entre os anos históricos e a climatologia de 1981 a 2025 revela sinais consistentes de chuvas mais intensas, volumosas e frequentes, sobretudo na Região Sul.
O alerta ganha relevância adicional porque essas áreas já apresentam elevados acumulados pluviométricos em condições normais, o que amplia o potencial de impactos sobre bacias hidrográficas, cidades e áreas vulneráveis.
O Rio Grande do Sul aparece como o estado com o sinal mais robusto da análise, indicando maior risco de enchentes, inundações graduais, enxurradas e deslizamentos de terra, principalmente em regiões como Ijuí, Santa Maria, Caxias do Sul e Pelotas. A área metropolitana de Porto Alegre permanece sob atenção especial devido à elevada densidade urbana e à vulnerabilidade da infraestrutura.
Em Santa Catarina, o cenário também sugere aumento relevante de eventos extremos, com maior risco de impactos combinados — como enchentes rápidas, alagamentos e movimentos de massa — em áreas do Vale do Itajaí, Grande Florianópolis e Oeste catarinense, agravados pelo relevo acidentado e pela ocupação urbana em encostas e fundos de vale.
No Paraná, os sinais aparecem de forma mais heterogênea, mas ainda indicam aumento de chuvas intensas em cidades como Curitiba, Maringá e Cascavel, elevando o risco de enxurradas, cheias e deslizamentos, sobretudo na Serra do Mar e no litoral.
Já no Mato Grosso do Sul, os indícios são mais moderados, concentrados no centro-sul e no sudoeste do estado, mas ainda apontam para a possibilidade de chuvas concentradas em poucos dias, capazes de provocar alagamentos e inundações localizadas.
Os pesquisadores destacam, contudo, que a ausência de sinais fortes em outras regiões não elimina a possibilidade de eventos extremos, que podem ocorrer em qualquer parte do país dependendo das condições meteorológicas e do grau de vulnerabilidade local.
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