Ciência

Núcleo 'derretido' da Terra inverte direção sob o Pacífico e intriga cientistas

Satélites da ESA identificaram uma mudança no fluxo de ferro líquido responsável por gerar o campo magnético terrestre

Núcleo da Terra: pesquisadores detectaram uma inversão no fluxo do núcleo externo usando dados de satélites da ESA (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Núcleo da Terra: pesquisadores detectaram uma inversão no fluxo do núcleo externo usando dados de satélites da ESA (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 8 de agosto de 2026 às 09h09.

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Pesquisadores identificaram uma mudança inesperada no comportamento do núcleo externo da Terra: um enorme fluxo de ferro líquido localizado sob o Oceano Pacífico inverteu sua direção em 2010. Em vez de continuar se deslocando lentamente para oeste, como vinha ocorrendo havia décadas, a massa de material fundido passou a fluir intensamente para leste, em um fenômeno cuja origem ainda permanece desconhecida.

A descoberta foi feita por uma equipe internacional a partir de observações de satélites da Agência Espacial Europeia (ESA) e de medições terrestres coletadas entre 1997 e 2025. Os resultados foram publicados na revista Journal of Studies of Earth's Deep Interior e oferecem uma nova perspectiva sobre o funcionamento do interior profundo do planeta.

Mudança inédita desafia modelos sobre o núcleo da Terra

O núcleo externo da Terra é formado principalmente por ferro líquido e fica a cerca de 2.200 quilômetros abaixo da superfície. O movimento constante desse material gera correntes elétricas que alimentam o chamado geodínamo, responsável pela criação do campo magnético terrestre.

Até então, os cientistas consideravam que os grandes padrões de circulação desse ferro líquido permaneciam relativamente estáveis ao longo das décadas.

A nova análise, porém, revelou que uma vasta região sob o Pacífico equatorial mudou rapidamente de comportamento em 2010, indicando que a dinâmica do núcleo pode variar muito mais depressa do que os modelos sugeriam.

Satélites permitiram observar o interior profundo do planeta

Para identificar essa transformação, os pesquisadores combinaram dados de diferentes missões espaciais, incluindo os satélites Swarm e CryoSat, da ESA, além das missões CHAMP e Ørsted.

Os satélites medem com alta precisão o campo magnético terrestre e conseguem separar os sinais produzidos pelo núcleo daqueles gerados pela crosta, pelos oceanos e pela atmosfera. Com essas informações, os cientistas reconstruíram a circulação do ferro líquido na fronteira entre o núcleo e o manto terrestre.

Segundo a ESA, esse monitoramento contínuo permitiu detectar a inversão do fluxo sob o Pacífico e acompanhar sua evolução ao longo dos anos.

O que pode ter causado a inversão?

Os pesquisadores ainda não sabem o que desencadeou a mudança. Uma das hipóteses levantadas pelo estudo é que o fenômeno possa estar relacionado a alterações no comportamento do núcleo interno sólido da Terra, identificadas por pesquisas em geodesia e sismologia durante o mesmo período.

Outra possibilidade é que a inversão represente apenas uma oscilação temporária na circulação do núcleo, em vez de uma mudança permanente.

Os modelos mais recentes indicam, inclusive, que o intenso fluxo para leste começou a perder força após 2020, sugerindo que o fenômeno pode fazer parte de um ciclo natural ainda pouco compreendido.

O que a mudança no núcleo pode revelar sobre o planeta

Embora essa mudança ocorra a milhares de quilômetros de profundidade e não represente risco imediato para a população nem esteja relacionada às mudanças climáticas, ela é considerada importante para compreender como funciona o interior do planeta.

O movimento do ferro líquido no núcleo externo gera o campo magnético terrestre, que protege a Terra das partículas carregadas emitidas pelo Sol. Esse escudo natural também contribui para o funcionamento de sistemas de navegação, satélites, espaçonaves e modelos utilizados no estudo do clima espacial.

Entender como o núcleo evolui ao longo do tempo pode ajudar os cientistas a aprimorar previsões sobre o comportamento futuro do campo magnético.

Descoberta abre novas perguntas sobre o interior da Terra

Os autores do estudo afirmam que a inversão observada sob o Pacífico desafia a ideia de que a circulação do núcleo externo permanece praticamente constante ao longo do tempo.

Segundo a equipe, as próximas observações dos satélites da missão Swarm serão fundamentais para determinar se o fluxo continuará enfraquecendo, retornará ao padrão anterior ou passará a integrar um novo comportamento de longo prazo do interior da Terra.

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