Cratera de Uhackatik: imagem de satélite mostra a formação circular descoberta na região do Quebec (NASA Earth Observatory/Lauren Dauphin)
Redatora
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 16h02.
Uma busca por um lugar para acampar levou à identificação de uma cratera de impacto de 390 milhões de anos no Canadá. A descoberta começou quando um astrônomo amador percebeu uma formação circular incomum em imagens de satélite de uma região remota de Quebec.
Joël Lapointe analisava mapas em 2024 para planejar uma viagem à região de Côte-Nord. Uma depressão circular próxima ao Lago Marsal chamou sua atenção. Diante do formato, ele levantou a possibilidade de a estrutura ter sido criada pelo impacto de um objeto espacial e procurou especialistas.
A observação desencadeou uma investigação científica que levou pesquisadores até o local. As evidências encontradas nas rochas indicam que a estrutura tem cerca de 25 quilômetros de diâmetro e se formou há aproximadamente 390 milhões de anos. A descoberta foi apresentada pelo Observatório da Terra da Nasa divulgada na última terça-feira, 15.
Após o contato de Lapointe com pesquisadores, cientistas franceses apontaram a área como uma possível estrutura de impacto durante uma reunião da Sociedade Meteorítica, em 2024.
A hipótese chegou ao geólogo planetário Gordon Osinski, da Western University e diretor do banco de dados Impact Earth. Inicialmente cético, ele decidiu organizar uma expedição à região em outubro de 2025.
O acesso ao local exigiu uma viagem de hidroavião. Como a aeronave não conseguiu chegar até a costa, os pesquisadores atravessaram cerca de 50 metros de água carregando os equipamentos.
A área também apresentava terreno pantanoso, vegetação densa e poucos pontos de acesso. Estudos geológicos anteriores haviam interpretado as rochas fragmentadas da região como resultado de atividade vulcânica. A expedição encontrou evidências que mudaram essa interpretação.
No segundo dia de trabalho, os cientistas identificaram cones de fragmentação em diferentes afloramentos rochosos. Essas estruturas são produzidas pelas pressões extremas associadas a impactos. Segundo Osinski, trata-se da única evidência inequívoca de um evento desse tipo que pode ser identificada a olho nu no próprio local.
As características encontradas indicam uma cratera complexa, com aproximadamente 25 quilômetros de diâmetro. A região também apresenta uma elevação central e grandes paredões rochosos. Análises das amostras coletadas apontam que o impacto ocorreu há cerca de 390 milhões de anos.
Após conversas com o Conselho Innu de Ekuanitshit, os pesquisadores passaram a chamar a estrutura de Uhackatik. A equipe considera a origem por impacto essencialmente confirmada. O reconhecimento formal ainda deve passar por um comitê da Sociedade Meteorítica.
A Uhackatik pode se tornar a 11ª estrutura de impacto conhecida em Quebec. Segundo o material divulgado pela Nasa, ela também é a maior cratera desse tipo descoberta desde Hiawatha, estrutura de 31 quilômetros identificada em 2018.
Osinski afirmou que uma colisão de magnitude comparável no Quebec atual provocaria devastação regional capaz de destruir grandes cidades e poderia produzir efeitos sobre o clima global.
O geólogo integra a primeira Equipe de Geologia Artemis da Nasa e participa do treinamento geológico de astronautas. Apesar disso, a dificuldade de acesso deve impedir o uso da nova cratera para esse tipo de preparação.
Para Lapointe, a descoberta começou apenas com uma observação em mapas de satélite. O astrônomo amador afirmou que a experiência mostra a importância de não ignorar uma percepção incomum, mesmo quando ela está fora da área de especialização de quem a identifica.