Fósseis: microfósseis encontrados em rochas antigas podem revelar quando surgiram os primeiros organismos complexos (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h16.
A Terra foi dominada por organismos microscópicos durante cerca de 90% de sua história. Como esse planeta habitado quase exclusivamente por micróbios deu origem a plantas, animais e fungos continua sendo uma das maiores questões da biologia evolutiva.
Segundo reportagem publicada pelo Universe Today, pesquisadores estão em busca de microfósseis com cerca de 1,7 bilhão de anos que podem ajudar a reconstruir essa transição. Além de esclarecer como surgiram as primeiras formas de vida complexa, os estudos podem orientar a busca por possíveis sinais de vida em outros planetas.
De acordo com o paleontólogo Ross Anderson, da Universidade de Oxford, a vida surgiu na Terra há mais de 3,5 bilhões de anos. As cianobactérias, responsáveis pela fotossíntese que libera oxigênio, já existiam há pelo menos 2,3 bilhões de anos.
Os primeiros eucariotos — organismos cujas células possuem núcleo e estruturas internas especializadas — apareceram há pelo menos 1,7 bilhão de anos. Eles são considerados os ancestrais de todos os animais, plantas e fungos atuais.
Para entender como ocorreu essa transformação, os cientistas buscam identificar os chamados eucariotos-coroa, grupo que reúne algumas das formas eucarióticas mais antigas conhecidas e que representa um passo decisivo rumo à evolução da vida multicelular.
Ao contrário das bactérias, as células eucarióticas possuem um núcleo que abriga o DNA e organelas responsáveis por funções específicas. Entre elas está a mitocôndria, estrutura que produz energia para a célula e permitiu o surgimento de organismos mais complexos.
Segundo Anderson, compreender a origem desses organismos ajuda a explicar como a vida evoluiu até formar a enorme diversidade de espécies existente atualmente.
Encontrar vestígios desses organismos antigos é um desafio porque eles viveram muito antes da evolução de conchas, esqueletos e outras estruturas rígidas que costumam ser preservadas no registro fóssil.
Por isso, os pesquisadores dependem de ambientes geológicos muito específicos, capazes de conservar células e tecidos moles durante bilhões de anos.
Além disso, o tempo degradou grande parte desses vestígios. Os microfósseis sofreram alterações químicas e geológicas ao longo de bilhões de anos, tornando sua identificação extremamente difícil.
Segundo a análise, uma das áreas mais promissoras fica em Svalbard, arquipélago localizado na Noruega, onde antigas rochas formadas em mares rasos permanecem bem preservadas.
A Austrália também tem fornecido pistas importantes. Em 2025, pesquisadores identificaram alguns dos microfósseis eucarióticos mais antigos conhecidos, com aproximadamente 1,75 bilhão de anos.
Os cientistas também concentram suas buscas em antigos ambientes costeiros ricos em argila, que aumentam as chances de preservação de organismos microscópicos. Desertos e regiões árticas são considerados locais estratégicos porque apresentam pouca vegetação, deixando rochas muito antigas expostas na superfície.
Além de reconstruir a história da evolução na Terra, a pesquisa pode contribuir para a astrobiologia. Segundo Anderson, boa parte de seus estudos sobre depósitos de argila foi motivada justamente pela busca por vida em outros planetas.
Ao identificar quais ambientes preservam melhor organismos microscópicos na Terra, os cientistas poderão reconhecer com maior precisão possíveis sinais biológicos em locais como Marte ou luas geladas, como Europa e Encélado.