Ciência

Aos 110 anos, sistema imunológico passa por mudança surpreendente, mostra estudo

Pesquisa associa a imunidade de supercentenários à presença massiva de células T citotóxicas no sangue

Longevidade: estudo encontrou uma característica incomum no sistema imunológico de supercentenários (Freepik)

Longevidade: estudo encontrou uma característica incomum no sistema imunológico de supercentenários (Freepik)

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h06.

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O sistema imunológico não parece simplesmente perder força com o avanço da idade. Em pessoas que chegam aos 110 anos ou mais, algumas células de defesa podem, na verdade, se tornar mais numerosas e formar grandes grupos de células quase idênticas.

A descoberta foi descrita por pesquisadores da Universidade de Osaka, no Japão, em um estudo publicado na última quarta-feira, 19, na revista Cell Reports. Os cientistas analisaram amostras de sangue de 28 pessoas e encontraram uma concentração maior de linfócitos T citotóxicos CD4, um tipo raro de célula do sistema imunológico.

Essas células são capazes de destruir outras células e já foram associadas a respostas contra alguns tipos de câncer. Elas também podem se multiplicar rapidamente quando o organismo encontra uma ameaça, formando grupos de células com receptores semelhantes.

Células aumentam entre os mais velhos

Para investigar o fenômeno, os pesquisadores dividiram os participantes em três grupos: pessoas de 70 a 99 anos, de 100 a 109 anos e com 110 anos ou mais.

A proporção mediana de linfócitos T citotóxicos CD4 aumentou progressivamente entre as faixas etárias. Ela passou de 4% no grupo mais jovem para 9,6% entre os participantes de 100 a 109 anos. Entre os supercentenários, a proporção chegou a 17,6%.

O resultado indica que a expansão dessas células pode ganhar força a partir dos 100 anos. Ainda assim, o padrão não apareceu exclusivamente entre os participantes mais longevos. Uma pessoa com menos de 100 anos apresentou a maior proporção de células desse tipo observada no estudo.

Grandes grupos de células chamam atenção

Os pesquisadores também analisaram os receptores presentes nos linfócitos T para entender como essas células se tornaram tão numerosas. A análise apontou para um processo chamado expansão clonal. Quando uma célula T reconhece determinado alvo, ela pode se multiplicar e gerar células com características semelhantes.

Entre os participantes, o maior clone representava, em média, 33,3% de todos os linfócitos T citotóxicos CD4. Em uma das pessoas com mais de 100 anos, um único clone correspondia a 53,8% dessas células. Segundo os pesquisadores, essa concentração pode indicar que o sistema imunológico foi exposto repetidamente a determinados desafios ao longo da vida.

Relação com o câncer ainda não está comprovada

A equipe comparou ainda os receptores das células dominantes com sequências disponíveis em um banco de dados público. Quase 30 correspondências estavam associadas a pessoas diagnosticadas com câncer de pulmão, mama ou fígado.

Nenhum dos centenários e supercentenários analisados tinha histórico desses tipos de câncer. Os pesquisadores levantam, por isso, a possibilidade de que algumas dessas células estejam envolvidas em respostas contra alvos anormais no organismo.

No entanto, o estudo não demonstra que essas células previnam o câncer. Também não é possível afirmar que elas sejam responsáveis pela longevidade dos supercentenários. Os pesquisadores analisaram apenas os linfócitos presentes no sangue. Ainda não está claro como essas células atuam em diferentes tecidos do corpo.

O que isso pode revelar sobre o envelhecimento

Para Kosuke Hashimoto, primeiro autor do estudo, os resultados indicam que o envelhecimento do sistema imunológico pode ser mais complexo do que uma perda gradual de capacidade.

A expansão de determinados grupos de células T sugere que o sistema de defesa continua se adaptando mesmo em idades extremamente avançadas. Essa capacidade pode ajudar a explicar algumas características do chamado envelhecimento saudável.

Segundo os autores, o próximo passo será investigar como os linfócitos T citotóxicos CD4 se comportam dentro dos tecidos humanos. A expectativa é entender melhor quais alvos essas células reconhecem e qual papel desempenham no organismo.

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