Células NK: versão modificada mostrou maior capacidade de penetrar tumores (Freepik)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h10.
Pesquisadores desenvolveram uma forma de preparar células de defesa do organismo para penetrar em tumores sólidos e atacar estruturas cancerígenas. Em testes com camundongos, a estratégia ajudou a conter o crescimento de diferentes tipos de câncer.
O método utiliza as chamadas células natural killer (NK), que fazem parte do sistema imunológico e conseguem reconhecer e destruir células anormais.
A técnica foi desenvolvida por pesquisadores da Stanford Medicine e colaboradores. Os resultados foram publicados na revista Science Translational Medicine e ainda estão restritos a experimentos laboratoriais e em animais.
Os tumores sólidos são massas formadas pelo crescimento descontrolado de células. Eles podem surgir em diferentes partes do corpo, como pele, pulmão, mama, fígado e região da cabeça e pescoço.
Uma das dificuldades para o sistema imunológico é alcançar o interior dessas estruturas. Além de serem compactas, elas podem criar um ambiente que dificulta a ação das células de defesa.
Entre os componentes desse sistema estão as células natural killer (NK), um tipo de glóbulo branco capaz de reconhecer e destruir estruturas anormais. Elas também participam da defesa contra infecções causadas por vírus.
A equipe da Stanford Medicine buscou, então, desenvolver uma estratégia para fazer com que as NK alcançassem os tumores, permanecessem nos tecidos e mantivessem a capacidade de atacar estruturas malignas.
Os pesquisadores retiraram células NK do sangue de doadores humanos e as expuseram a diferentes combinações de sinais celulares.
Um dos principais foi o TGF-β, uma proteína envolvida na comunicação entre células e na regulação de seu comportamento. Os experimentos mostraram que o sinal poderia induzir as células NK a adquirir características de células residentes nos tecidos.
A quantidade e o tempo de exposição foram importantes. Quando o estímulo era prolongado, as células apresentavam menor capacidade de destruir células cancerígenas.
Os pesquisadores encontraram uma alternativa ao expor as células NK por um período curto a células tumorais epiteliais humanas. O contato direto produziu uma população com características de permanência nos tecidos e maior atividade contra células malignas.
As células mais eficientes apresentavam as proteínas CD49a, CD103 e CD39. Elas também tinham níveis elevados de perforina e granzima A, moléculas envolvidas na destruição das células-alvo.
Os primeiros testes foram realizados em organoides tumorais, estruturas produzidas em laboratório que reproduzem algumas características dos tumores humanos. As células preparadas conseguiram penetrar nesses modelos e atacar as células cancerígenas. Depois, os pesquisadores testaram a estratégia em camundongos.
Os experimentos mostraram redução do crescimento de diferentes tumores, incluindo modelos de melanoma e de carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço. O resultado foi mais expressivo quando as células NK foram combinadas com cetuximabe, um anticorpo monoclonal utilizado no tratamento de alguns tipos de câncer.
O medicamento pode se ligar a determinadas células cancerígenas e facilitar seu reconhecimento pelo sistema imunológico. Nos testes, a combinação controlou o crescimento dos tumores de maneira mais eficiente do que cada abordagem utilizada separadamente.
Apesar disso, os animais tratados com a combinação não apresentaram efeitos adversos aparentes durante o período analisado. Ainda assim, os resultados não permitem concluir que o mesmo efeito ocorrerá em seres humanos.
As células NK também despertam interesse por uma possível vantagem na produção de terapias celulares contra o câncer. Algumas terapias imunológicas precisam utilizar células retiradas do próprio paciente. Nesse modelo, cada tratamento precisa ser preparado individualmente.
As células NK podem permitir uma estratégia diferente. Como podem ser obtidas de doadores e utilizadas em outras pessoas em determinadas condições, existe a possibilidade de produzir grandes quantidades previamente.
Segundo os pesquisadores, células provenientes de um único doador poderiam gerar aproximadamente 20 doses em cerca de duas semanas. O material poderia ainda ser congelado e armazenado para uso posterior.
De acordo com os pesquisadores, a ideia é criar uma terapia celular que esteja disponível antes mesmo de o paciente precisar recebê-la. A equipe está preparando um ensaio clínico de fase 1 para avaliar a estratégia em pessoas com carcinoma espinocelular avançado.
O estudo ainda depende das aprovações regulatórias necessárias nos Estados Unidos, incluindo a autorização da Food and Drug Administration (FDA). Essa primeira fase terá como principal objetivo avaliar a segurança da abordagem e definir como ela poderá ser administrada.