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Ozempic, juros altos e invasão europeia: como a C&A quer liderar a moda no Brasil

Gigante da moda finca pé no coração da Avenida Paulista com uma megaloja de 2 mil m²; veja entrevista com o CEO

C&A na Paulista: veja a entrevista completa do CEO da marca  (Divulgação)

C&A na Paulista: veja a entrevista completa do CEO da marca (Divulgação)

Luiza Vilela
Luiza Vilela

Repórter de Casual

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h05.

Última atualização em 31 de agosto de 2026 às 19h18.

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Quando inaugurou a primeira loja no Brasil, no Shopping Ibirapuera, em 20 de agosto de 1976, a holandesa C&A introduziu um conceito que transformou a forma como os brasileiros consumiam vestuário: o autosserviço. Era a primeira vez que o cliente tinha a liberdade de percorrer as araras, tocar os tecidos e escolher as próprias peças sem a intermediação obrigatória de um vendedor.

50 anos mais tarde, em 2026, muita coisa mudou. Escolher as peças sozinho hoje é o mínimo — desde a ascensão do e-commerce, inclusive, nem é preciso mais estar na loja física para fazê-lo. O autosserviço passou da seleção da peça para o pagamento autônomo das compras no guichê do caixa. Até o vendedor, outrora o elo de todo o varejo, agora pode ser um agente de inteligência artificial.

Esse conjunto de inovações é um pouco do que Paulo Correa, CEO da C&A no Brasil, quer trazer para a recém-aberta unidade da marca na Avenida Paulista. A loja-modelo é a primeira da companhia no endereço mais famoso de São Paulo. São mais de 2 mil metros quadrados de área, com espaços dedicados a coleções assinadas com estilistas, em um formato mais intuitivo (e tecnológico) para as compras físicas.

"Faltava uma loja no coração da Avenida Paulista que tivesse o nosso conceito de Energia. Ela é diferente das demais, é uma nova proposta de varejo físico. A ideia é facilitar as jornadas da consumidora, conectando o offline e o online de uma forma que nunca fizemos antes", disse o CEO em entrevista exclusiva à Casual EXAME.

Foi feita, à primeira vista, para celebrar as cinco décadas de história, mas vai além do aniversário. A nova unidade dá a largada no capítulo mais ambicioso do ciclo recente da C&A: um investimento massivo em tecnologia, logística, distribuição e abertura de pelo menos 100 novas unidades até 2030. É parte do Full Power, plano estratégico da companhia para o período de 2027 a 2030, apresentado pela companhia no último Investors Day.

Um capítulo especial para uma empresa que demorou, mas conseguiu nadar contra a maré para zerar as dívidas. E em um cenário no qual boa parte do varejo de moda brasileiro ainda tenta se equilibrar diante da taxa alta de juros e da retração do crédito.

O novo capítulo da C&A no Brasil

O Full Power prevê a abertura de 60 a 80 novas lojas (com potencial de chegar a 100) até o fim da década. O retrofit é de até 120 unidades e um volume de investimentos anuais fixado entre 7% e 8% da receita líquida, um patamar significativamente acima da média histórica. A loja da Paulista é o primeiro passo do processo.

A movimentação ocorre em um momento em que a C&A esbanja saúde financeira. A empresa tem hoje o endividamento líquido zerado e uma geração de caixa operacional na casa dos R$ 3 bilhões, acumulados durante o ciclo estratégico anterior (Energia, 2024–2026). A margem bruta de vestuário, naquele período, cresceu por 20 trimestres consecutivos e atingiu 59,1%.

"Estamos acelerando os investimentos em lojas, logística, tecnologia e nas pessoas porque acreditamos no Brasil e na capacidade deste mercado. A C&A chega aos seus 50 anos inteirona, no melhor momento de sua história e com muito potencial a ser capturado", diz o CEO.

Para suportar a nova fase, a malha logística também ganhará musculatura. A rede vai erguer um novo centro de distribuição em Pernambuco, expandir a unidade de Santa Catarina e implementar hubs urbanos no Rio Grande do Sul e em Goiás. No braço digital, a meta é triplicar a base de clientes omnichannel e elevar as vendas integradas para 15% do faturamento total, amparadas por ferramentas proprietárias de inteligência artificial aplicadas ao desenvolvimento de coleções, precificação dinâmica e sortimento regionalizado.

Em entrevista exclusiva à Casual EXAME, o CEO da C&A Brasil, Paulo Correa, detalhou o momento financeiro da empresa e abordou os tópicos mais sensíveis e contemporâneos do setor. Detalhes sobre o impacto do endividamento das famílias nas vendas, a busca por tecidos mais duráveis, o emagrecimento populacional via canetas emagrecedoras (como Ozempic e Mounjaro), e a nova concorrência com a expansão de marcas europeias como Zara e H&M no mercado nacional podem ser conferidos na entrevista a seguir.

Confira a entrevista com Paulo Correa, CEO da C&A, na íntegra:

No plano do dia do investidor, o senhor disse que há uma estimativa de chegar a 421 pontos de venda em 2026. Na sua opinião, o e-commerce está caindo ou os canais vão se equilibrar?

Eu acredito cada vez mais no omnichannel, porque essas fronteiras já não existem mais. Muitas pessoas chegam à loja física com um print no celular, porque foram impactadas por redes sociais ou pelo site, mas não querem esperar a entrega, preferem retirar na loja ou querem provar os produtos. É uma conversa só e uma jornada integrada. O uso do celular e das redes sociais para fazer compras no varejo não vai diminuir. Está cada vez mais forte.

Ao mesmo tempo, a loja física traz prazer. No Brasil, ir ao shopping é entretenimento. Aqui na Paulista, então, a avenida fecha aos domingos, é mais um elemento de lazer. Nosso papel é integrar essas jornadas para que o cliente não precise recomeçar o processo ao mudar de canal.

Como o senhor vê o momento da C&A nos seus 50 anos?

Eu acho que a C&A chegou aos 50 anos, talvez, no melhor momento de sua história. É uma empresa com uma saúde financeira fantástica, que nos últimos anos reduziu a zero o nível de endividamento e apresentou resultados financeiros bem fortes. Foi algo muito importante, porque hoje temos uma capacidade de investir que está acelerando a empresa como um todo.

Esses investimentos são variados. Investimos em uma nova unidade na Paulista, com um novo conceito de loja. Investimos em tecnologia com maior nível de personalização e muita inteligência artificial em várias partes do negócio, além de aportes importantes em logística e distribuição, automação desses processos. E acabamos de apresentar no nosso Investor Day o plano "Full Power" para os próximos três anos.

Ainda há muito potencial a ser capturado. Eu vejo a C&A em um momento muito especial, chegando aos seus 50 anos toda "inteirona".

E sobre esta nova loja na Paulista, o que ela representa para a marca?

A marca é muito conectada com a mulher brasileira e queremos estar cada vez mais perto dela. Faltava uma loja aqui no coração da Avenida Paulista — nós já tínhamos uma na Rua Augusta, que é um endereço já reconhecido, mas sempre houve a vontade de estar na Paulista.

Com essa nova unidade, a ideia é facilitar as jornadas da consumidora e estar em um local por onde passa muita gente durante a semana e passeia também aos fins de semana. Até por isso, essa loja ficará aberta de domingo a domingo. Já tem uma atenção lá de fora, é um conceito novo da C&A no qual investimos muito. Os produtos ganham uma nova visibilidade, os espaços são todos separados — de moda básica a vestuário masculino, esportivo, íntimo e tudo mais.

Ela coroa um momento especial de força de marca, de coleção e de experiência de compra, conectando o offline e o online de forma inédita pela estratégia omnichannel.

Nos últimos anos, vimos a chegada de marcas europeias ao Brasil. A Zara ganhou mais espaço, a H&M está abrindo várias unidades no país, a Time Out inaugura nesta semana. Como você vê essa concorrência? É uma preocupação?

Eu acho ótimo para o consumidor ter mais opções. O varejo se faz no fluxo e na diversidade; acho ótimo que tenhamos mais marcas por aqui. Mas conhecer bem o cliente, algo que a C&A desenvolveu como ninguém desde que chegou ao Brasil, exige mais do que só chegar por aqui com boas recomendações. Nós conhecemos tanto a consumidora local que muita gente acha que a C&A é brasileira, ou que é a marca mais brasileira de todas. A gente morre de orgulho disso, porque, no final, é esse olhar humilde que a gente tenta dar para as preferências e hábitos da população, dos consumidores.

Esse conhecimento profundo é algo que leva tempo para entender, especialmente em um país continental como o Brasil. As preferências mudam muito de região para região, e uma coleção com um olhar puramente europeu tem um limite de expansão por aqui. Mas também entendo que cada marca que chega no Brasil tem sua trajetória. Nossa diferença é que já temos 50 anos aqui para desbravar esse olhar brasileiro.

Sobre a concorrência física, bem, o varejo é fluxo. Se um concorrente abre do meu lado e traz mais pessoas para o shopping, isso é excelente para mim também. Aumenta as vendas na nossa loja. Quando abriram uma concorrente europeia no nosso lado, em um shopping por aqui, tinha fila na porta. Me perguntaram o que eu achava e eu dizia: "vocês não têm ideia, mas a verdade é que a venda aumentou na nossa loja". Tem espaço para todo mundo.

O pensamento do consumidor em relação aos tecidos mudou. Antes não havia tanto critério, mas hoje as pessoas viram a peça de ponta-cabeça para checar antes de comprar. Como a C&A enxerga essa mudança e como trabalha seus tecidos?

É bom que a informação esteja mais democratizada. O que vemos hoje é que as pessoas pesquisam rápido, olham avaliações no e-commerce e leem a composição do tecido. Na loja física, por outro lado, elas têm a possibilidade não só de ver a composição, mas também de tocar no tecido, o que agrega muito valor ao produto. É algo que o online ainda não conseguiu proporcionar e que vemos que faz diferença na hora da compra.

Sobre os tecidos, pesquisamos bases de fornecimento no mundo inteiro e aplicamos a estratégia de test and learn (testar e aprender): produzimos quantidades pequenas, vemos a reação do consumidor e, com base nisso, escalamos ou descartamos a ideia. Mas há sempre a busca por algo que tenha um toque positivo. Após a pandemia, a busca por conforto mudou muito e virou prioridade. As pessoas querem ficar bonitas, mas também confortáveis, e o tecido e a modelagem têm um papel enorme nisso.

Um superexemplo que deu certo por aqui é o algodão peruano. Faz muito sucesso porque "abraça" o corpo, tem mais qualidade e dura mais.

Essa percepção de qualidade também tem a ver com o cenário econômico?

Com certeza. Vivemos em um país com o desafio de taxas de juros muito altas, o que gera um endividamento maior das famílias. Na hora de comprar, o consumidor quer fazer um investimento básico que traga retorno em durabilidade, conforto, bem-estar e versatilidade. Ele valoriza uma peça que possa ser usada em várias ocasiões — no cinema, no shopping, no trabalho ou em um almoço de família. Queremos estar nesse lugar.

Falando sobre modelagem, existe uma discussão no mercado de moda sobre o emagrecimento geral da população, impulsionado pelo uso de medicamentos (como as "canetas" emagrecedoras). Os modelos maiores (plus size) vão sumir? Como a C&A enxerga esse momento e se insere nele?

A moda responde aos desejos e ao perfil da sociedade. Se você andar pela nossa loja, verá que temos a parte de plus size (tamanhos maiores). Se no futuro todos usarem a "caneta" e não houver mais desejo ou necessidade de tamanhos maiores, nós vamos nos adaptar. Mas, neste momento, não é o caso. Estamos vendo uma mudança, mas ela não é radical na proporção de tamanhos; essa tecnologia não é barata. Vejo a discussão e, claro, entendemos a importância dela. Mas somos uma marca democrática que atende muita gente. Ainda é muito cedo para afirmar que os tamanhos maiores vão sumir.

A C&A passou por muitos altos e baixos ao longo desses 50 anos. Como CEO, qual aprendizado você tira dessa trajetória para compartilhar com o varejo?

A característica mais importante para qualquer varejista hoje, em um mundo tão veloz e cheio de transformações, é a capacidade de se reinventar continuamente. Não existe um modelo absoluto que dure muito tempo. É preciso olhar atentamente para as mudanças do consumidor e se adaptar ao mercado, e não esperar que o mercado se adapte a você.

O que funciona hoje certamente não funcionará daqui a algum tempo, e está tudo bem; basta renovar a proposta. Quem não consegue se reinventar terá muita dificuldade em um mundo que se transforma em altíssima velocidade.

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