C&A na Paulista: veja a entrevista completa do CEO da marca (Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h05.
Última atualização em 9 de setembro de 2026 às 12h11.
Quando inaugurou a primeira loja no Brasil, no Shopping Ibirapuera, em 20 de agosto de 1976, a holandesa C&A introduziu um conceito que transformou a forma como os brasileiros consumiam vestuário: o autosserviço. Era a primeira vez que o cliente tinha a liberdade de percorrer as araras, tocar os tecidos e escolher as próprias peças sem a intermediação obrigatória de um vendedor.
50 anos mais tarde, em 2026, muita coisa mudou. Escolher as peças sozinho hoje é o mínimo — desde a ascensão do e-commerce, inclusive, nem é preciso mais estar na loja física para fazê-lo. O autosserviço passou da seleção da peça para o pagamento autônomo das compras no guichê do caixa. Até o vendedor, outrora o elo de todo o varejo, agora pode ser um agente de inteligência artificial.
Esse conjunto de inovações é um pouco do que Paulo Correa, CEO da C&A no Brasil, quer trazer para a recém-aberta unidade da marca na Avenida Paulista. A loja-modelo é a primeira da companhia no endereço mais famoso de São Paulo. São mais de 2 mil metros quadrados de área, com espaços dedicados a coleções assinadas com estilistas, em um formato mais intuitivo (e tecnológico) para as compras físicas.
"Faltava uma loja no coração da Avenida Paulista que tivesse o nosso conceito de Energia. Ela é diferente das demais, é uma nova proposta de varejo físico. A ideia é facilitar as jornadas da consumidora, conectando o offline e o online de uma forma que nunca fizemos antes", disse o CEO em entrevista exclusiva à Casual EXAME.
Foi feita, à primeira vista, para celebrar as cinco décadas de história, mas vai além do aniversário. A nova unidade dá a largada no capítulo mais ambicioso do ciclo recente da C&A: um investimento massivo em tecnologia, logística, distribuição e abertura de pelo menos 100 novas unidades até 2030. É parte do Full Power, plano estratégico da companhia para o período de 2027 a 2030, apresentado pela companhia no último Investors Day.
Um capítulo especial para uma empresa que demorou, mas conseguiu nadar contra a maré para zerar as dívidas. E em um cenário no qual boa parte do varejo de moda brasileiro ainda tenta se equilibrar diante da taxa alta de juros e da retração do crédito.
O Full Power prevê a abertura de 60 a 80 novas lojas (com potencial de chegar a 100) até o fim da década. O retrofit é de até 120 unidades e um volume de investimentos anuais fixado entre 7% e 8% da receita líquida, um patamar significativamente acima da média histórica. A loja da Paulista é o primeiro passo do processo.
A movimentação ocorre em um momento em que a C&A esbanja saúde financeira. A empresa tem hoje o endividamento líquido zerado e uma geração de caixa operacional na casa dos R$ 3 bilhões, acumulados durante o ciclo estratégico anterior (Energia, 2024–2026). A margem bruta de vestuário, naquele período, cresceu por 20 trimestres consecutivos e atingiu 59,1%.
"Estamos acelerando os investimentos em lojas, logística, tecnologia e nas pessoas porque acreditamos no Brasil e na capacidade deste mercado. A C&A chega aos seus 50 anos inteirona, no melhor momento de sua história e com muito potencial a ser capturado", diz o CEO.
Para suportar a nova fase, a malha logística também ganhará musculatura. A rede vai erguer um novo centro de distribuição em Pernambuco, expandir a unidade de Santa Catarina e implementar hubs urbanos no Rio Grande do Sul e em Goiás. No braço digital, a meta é triplicar a base de clientes omnichannel e elevar as vendas integradas para 15% do faturamento total, amparadas por ferramentas proprietárias de inteligência artificial aplicadas ao desenvolvimento de coleções, precificação dinâmica e sortimento regionalizado.
Em entrevista exclusiva à Casual EXAME, o CEO da C&A Brasil, Paulo Correa, detalhou o momento financeiro da empresa e abordou os tópicos mais sensíveis e contemporâneos do setor. Detalhes sobre o impacto do endividamento das famílias nas vendas, a busca por tecidos mais duráveis, o emagrecimento populacional via canetas emagrecedoras (como Ozempic e Mounjaro), e a nova concorrência com a expansão de marcas europeias como Zara e H&M no mercado nacional podem ser conferidos na entrevista a seguir.
No plano do dia do investidor, o senhor disse que há uma estimativa de chegar a 421 pontos de venda em 2026. Na sua opinião, o e-commerce está caindo ou os canais vão se equilibrar?
Eu acredito cada vez mais no omnichannel, porque essas fronteiras já não existem mais. Muitas pessoas chegam à loja física com um print no celular, porque foram impactadas por redes sociais ou pelo site, mas não querem esperar a entrega, preferem retirar na loja ou querem provar os produtos. É uma conversa só e uma jornada integrada. O uso do celular e das redes sociais para fazer compras no varejo não vai diminuir. Está cada vez mais forte.
Ao mesmo tempo, a loja física traz prazer. No Brasil, ir ao shopping é entretenimento. Aqui na Paulista, então, a avenida fecha aos domingos, é mais um elemento de lazer. Nosso papel é integrar essas jornadas para que o cliente não precise recomeçar o processo ao mudar de canal.
Como o senhor vê o momento da C&A nos seus 50 anos?
Eu acho que a C&A chegou aos 50 anos, talvez, no melhor momento de sua história. É uma empresa com uma saúde financeira fantástica, que nos últimos anos reduziu a zero o nível de endividamento e apresentou resultados financeiros bem fortes. Foi algo muito importante, porque hoje temos uma capacidade de investir que está acelerando a empresa como um todo.
Esses investimentos são variados. Investimos em uma nova unidade na Paulista, com um novo conceito de loja. Investimos em tecnologia com maior nível de personalização e muita inteligência artificial em várias partes do negócio, além de aportes importantes em logística e distribuição, automação desses processos. E acabamos de apresentar no nosso Investor Day o plano "Full Power" para os próximos três anos.
Ainda há muito potencial a ser capturado. Eu vejo a C&A em um momento muito especial, chegando aos seus 50 anos toda "inteirona".
E sobre esta nova loja na Paulista, o que ela representa para a marca?
A marca é muito conectada com a mulher brasileira e queremos estar cada vez mais perto dela. Faltava uma loja aqui no coração da Avenida Paulista — nós já tínhamos uma na Rua Augusta, que é um endereço já reconhecido, mas sempre houve a vontade de estar na Paulista.
Com essa nova unidade, a ideia é facilitar as jornadas da consumidora e estar em um local por onde passa muita gente durante a semana e passeia também aos fins de semana. Até por isso, essa loja ficará aberta de domingo a domingo. Já tem uma atenção lá de fora, é um conceito novo da C&A no qual investimos muito. Os produtos ganham uma nova visibilidade, os espaços são todos separados — de moda básica a vestuário masculino, esportivo, íntimo e tudo mais.
Ela coroa um momento especial de força de marca, de coleção e de experiência de compra, conectando o offline e o online de forma inédita pela estratégia omnichannel.
Nos últimos anos, vimos a chegada de marcas europeias ao Brasil. A Zara ganhou mais espaço, a H&M está abrindo várias unidades no país, a Time Out inaugura nesta semana. Como você vê essa concorrência? É uma preocupação?
Eu acho ótimo para o consumidor ter mais opções. O varejo se faz no fluxo e na diversidade; acho ótimo que tenhamos mais marcas por aqui. Mas conhecer bem o cliente, algo que a C&A desenvolveu como ninguém desde que chegou ao Brasil, exige mais do que só chegar por aqui com boas recomendações. Nós conhecemos tanto a consumidora local que muita gente acha que a C&A é brasileira, ou que é a marca mais brasileira de todas. A gente morre de orgulho disso, porque, no final, é esse olhar humilde que a gente tenta dar para as preferências e hábitos da população, dos consumidores.
Esse conhecimento profundo é algo que leva tempo para entender, especialmente em um país continental como o Brasil. As preferências mudam muito de região para região, e uma coleção com um olhar puramente europeu tem um limite de expansão por aqui. Mas também entendo que cada marca que chega no Brasil tem sua trajetória. Nossa diferença é que já temos 50 anos aqui para desbravar esse olhar brasileiro.
Sobre a concorrência física, bem, o varejo é fluxo. Se um concorrente abre do meu lado e traz mais pessoas para o shopping, isso é excelente para mim também. Aumenta as vendas na nossa loja. Quando abriram uma concorrente europeia no nosso lado, em um shopping por aqui, tinha fila na porta. Me perguntaram o que eu achava e eu dizia: "vocês não têm ideia, mas a verdade é que a venda aumentou na nossa loja". Tem espaço para todo mundo.
O pensamento do consumidor em relação aos tecidos mudou. Antes não havia tanto critério, mas hoje as pessoas viram a peça de ponta-cabeça para checar antes de comprar. Como a C&A enxerga essa mudança e como trabalha seus tecidos?
É bom que a informação esteja mais democratizada. O que vemos hoje é que as pessoas pesquisam rápido, olham avaliações no e-commerce e leem a composição do tecido. Na loja física, por outro lado, elas têm a possibilidade não só de ver a composição, mas também de tocar no tecido, o que agrega muito valor ao produto. É algo que o online ainda não conseguiu proporcionar e que vemos que faz diferença na hora da compra.
Sobre os tecidos, pesquisamos bases de fornecimento no mundo inteiro e aplicamos a estratégia de test and learn (testar e aprender): produzimos quantidades pequenas, vemos a reação do consumidor e, com base nisso, escalamos ou descartamos a ideia. Mas há sempre a busca por algo que tenha um toque positivo. Após a pandemia, a busca por conforto mudou muito e virou prioridade. As pessoas querem ficar bonitas, mas também confortáveis, e o tecido e a modelagem têm um papel enorme nisso.
Um superexemplo que deu certo por aqui é o algodão peruano. Faz muito sucesso porque "abraça" o corpo, tem mais qualidade e dura mais.
Essa percepção de qualidade também tem a ver com o cenário econômico?
Com certeza. Vivemos em um país com o desafio de taxas de juros muito altas, o que gera um endividamento maior das famílias. Na hora de comprar, o consumidor quer fazer um investimento básico que traga retorno em durabilidade, conforto, bem-estar e versatilidade. Ele valoriza uma peça que possa ser usada em várias ocasiões — no cinema, no shopping, no trabalho ou em um almoço de família. Queremos estar nesse lugar.
Falando sobre modelagem, existe uma discussão no mercado de moda sobre o emagrecimento geral da população, impulsionado pelo uso de medicamentos (como as "canetas" emagrecedoras). Os modelos maiores (plus size) vão sumir? Como a C&A enxerga esse momento e se insere nele?
A moda responde aos desejos e ao perfil da sociedade. Se você andar pela nossa loja, verá que temos a parte de plus size (tamanhos maiores). Se no futuro todos usarem a "caneta" e não houver mais desejo ou necessidade de tamanhos maiores, nós vamos nos adaptar. Mas, neste momento, não é o caso. Estamos vendo uma mudança, mas ela não é radical na proporção de tamanhos; essa tecnologia não é barata. Vejo a discussão e, claro, entendemos a importância dela. Mas somos uma marca democrática que atende muita gente. Ainda é muito cedo para afirmar que os tamanhos maiores vão sumir.
A C&A passou por muitos altos e baixos ao longo desses 50 anos. Como CEO, qual aprendizado você tira dessa trajetória para compartilhar com o varejo?
A característica mais importante para qualquer varejista hoje, em um mundo tão veloz e cheio de transformações, é a capacidade de se reinventar continuamente. Não existe um modelo absoluto que dure muito tempo. É preciso olhar atentamente para as mudanças do consumidor e se adaptar ao mercado, e não esperar que o mercado se adapte a você.
O que funciona hoje certamente não funcionará daqui a algum tempo, e está tudo bem; basta renovar a proposta. Quem não consegue se reinventar terá muita dificuldade em um mundo que se transforma em altíssima velocidade.