Esporinha: planta altamente tóxica produz moléculas naturais com potencial para inspirar novos medicamentos (Freepik)
Redatora
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 09h19.
Conhecidas por sua alta toxicidade, duas plantas capazes de provocar paralisia e danos ao sistema nervoso podem esconder um grande potencial para a medicina. Cientistas descobriram como o acônito e a esporinha produzem compostos naturais complexos que, no futuro, poderão servir de base para novos medicamentos contra dor, câncer, malária e outras doenças.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, em parceria com a Academia Tcheca de Ciências, e publicada na revista científica Molecular Plant.
Além de identificar parte do mecanismo químico dessas espécies, os pesquisadores conseguiram reproduzir esse processo em plantas de tabaco, abrindo caminho para uma produção mais sustentável dessas moléculas.
Apesar de serem conhecidas pelo risco que representam, tanto o acônito (Aconitum) quanto a esporinha (Delphinium) são utilizados há séculos em diferentes sistemas de medicina tradicional.
O interesse científico está nos chamados alcaloides diterpenoides, um grupo de moléculas produzidas naturalmente por essas plantas. Embora sejam extremamente tóxicas em determinadas doses, elas também apresentam propriedades farmacológicas promissoras.
Estudos anteriores já indicavam que compostos dessa família podem servir de inspiração para o desenvolvimento de medicamentos contra dores, alguns tipos de câncer, malária e até pesticidas mais eficientes para a agricultura.
Segundo os pesquisadores, compreender como essas moléculas são produzidas é essencial para explorar seu potencial terapêutico de forma segura.
O maior desafio era descobrir como essas plantas conseguem fabricar moléculas tão complexas. Para isso, a equipe analisou milhares de genes presentes no acônito e na esporinha em busca daqueles responsáveis pela produção dessas substâncias.
Os pesquisadores identificaram seis enzimas que atuam como uma espécie de linha de montagem biológica, conduzindo sucessivas reações químicas até formar uma molécula chamada atisínio, considerada um dos blocos fundamentais para a produção dessa família de compostos.
A descoberta representa um avanço importante porque, até hoje, cientistas ainda não conseguiram sintetizar completamente em laboratório alguns dos alcaloides mais conhecidos dessas plantas, como a aconitina, isolada pela primeira vez há quase 200 anos.
Após identificar os genes responsáveis pelo processo, os pesquisadores transferiram esse conjunto de instruções genéticas para plantas de tabaco. O objetivo era verificar se elas conseguiriam reproduzir o mesmo mecanismo químico.
Os testes mostraram que as plantas modificadas passaram a fabricar o atisínio utilizando exatamente as seis enzimas identificadas pelos pesquisadores. Na prática, o tabaco funcionou como uma biofábrica capaz de produzir uma molécula que normalmente existe apenas em pequenas quantidades nas plantas venenosas.
Segundo os autores, essa estratégia pode facilitar o estudo dessas substâncias e permitir sua produção em maior escala, sem depender da extração direta das plantas.
Os cientistas explicam que muitas moléculas produzidas naturalmente pelas plantas são extremamente difíceis de fabricar por métodos químicos convencionais.
Ao entender como elas são sintetizadas na natureza, torna-se possível reproduzir esse processo em organismos geneticamente modificados, como plantas, leveduras ou outros sistemas biológicos.
Além de reduzir custos, essa abordagem pode oferecer uma forma mais sustentável de produzir compostos raros para pesquisas e futuros medicamentos.
O próximo desafio será identificar as enzimas responsáveis pelas fases seguintes da produção desses alcaloides, ampliando as possibilidades de desenvolver novas moléculas com potencial terapêutico.