Cérebro: cientistas mapearam 124 milhões de conexões neurais de uma mosca-das-frutas macho (MRC Laboratory of Molecular Biology)
Redatora
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 20h19.
Pequenas diferenças na estrutura do cérebro de moscas podem produzir mudanças expressivas de comportamento. Pesquisadores mapearam todas as 124 milhões de conexões neurais de uma mosca-da-fruta macho e compararam o resultado com o cérebro de uma fêmea.
O trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade de Cambridge, do Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica e de outras instituições. Os resultados foram publicados na última quinta-feira, 3, na revista científica Cell.
A comparação mostrou que cerca de 95% das células nervosas são compartilhadas entre machos e fêmeas. Os 5% restantes, porém, incluem circuitos associados a comportamentos como agressividade, cortejo e produção de sons.
O cérebro da mosca-da-fruta tem aproximadamente o tamanho da cabeça de um alfinete, mas reúne uma rede extremamente complexa de neurônios e conexões. Para construir o mapa, os cientistas dividiram o cérebro do macho em 66 partes e registraram imagens sucessivas de cada uma delas.
Depois, reconstruíram digitalmente cada célula nervosa, seus prolongamentos e as conexões formadas entre elas. O resultado foi um mapa tridimensional do cérebro e do cordão nervoso, que pôde ser comparado com o conectoma de uma mosca fêmea concluído dois anos antes.
Uma das mudanças encontradas está nos circuitos usados pelos machos durante o cortejo. Ao se aproximar de uma fêmea, o macho acompanha seus movimentos. Os pesquisadores identificaram estruturas adicionais em regiões relacionadas ao rastreamento visual, que podem melhorar essa capacidade.
Outra diferença aparece nos circuitos ligados à agressividade. Como os machos lutam com maior frequência, eles apresentam um número maior de conexões neurais associadas a esse comportamento em comparação com as fêmeas.
Os pesquisadores também identificaram um circuito neuronal exclusivo responsável pela produção do som usado no acasalamento. Durante o cortejo, o macho vibra as asas e produz uma sequência sonora específica. Esse comportamento influencia a resposta da fêmea.
Se o circuito não funcionar adequadamente, o padrão de som pode ser alterado e reduzir as chances de aproximação. As diferenças observadas nesses três comportamentos estão relacionadas a dois genes conhecidos pelos pesquisadores.
Até agora, porém, os cientistas sabiam que esses genes influenciavam o comportamento sem conseguir observar com detalhes as mudanças intermediárias no cérebro.
O novo mapeamento permitiu visualizar como diferenças genéticas podem modificar a estrutura cerebral e, consequentemente, alterar comportamentos. Segundo os pesquisadores, comparar dois cérebros muito semelhantes é especialmente útil porque reduz o número de variáveis envolvidas.
Nesse caso, pequenas diferenças entre machos e fêmeas puderam ser relacionadas a comportamentos já conhecidos. A equipe ressalta que os resultados não explicam diferenças de comportamento entre homens e mulheres.
O cérebro humano e o comportamento humano são muito mais complexos do que os observados em moscas-da-fruta.Apesar dessa limitação, o trabalho pode ajudar a estudar de maneira mais geral como genes influenciam a organização do cérebro.
Os pesquisadores destacam que diversas variantes genéticas estão associadas a condições como esquizofrenia e transtornos do espectro autista, mas ainda não se sabe exatamente como muitas delas alteram os circuitos cerebrais. O cérebro da mosca oferece um modelo mais simples para investigar essa relação entre genes, conexões neurais e comportamento.
Apesar disso, a pesquisa não indica que os mecanismos encontrados nas moscas sejam iguais aos humanos. A proposta é usar princípios básicos observados em sistemas menores para orientar investigações mais complexas.
Os pesquisadores apontam ainda possíveis aplicações em inteligência artificial e sistemas computacionais. Uma das ideias é usar diagramas reais de circuitos biológicos como inspiração para desenvolver redes artificiais mais eficientes.
Segundo Gregory Jefferis, que co-liderou o estudo, alcançar sistemas de IA tão eficientes quanto o cérebro pode exigir maior inspiração em estruturas biológicas. Alguns grupos já experimentam incorporar elementos do cérebro de moscas em redes artificiais para investigar se esses circuitos podem ajudar no aprendizado e no controle de sistemas computacionais.