Adoçantes: estudo com camundongos investigou os efeitos da sucralose e da estévia sobre o metabolismo (Freepik)
Redatora
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 20h01.
A sucralose e a estévia, dois adoçantes usados como alternativas ao açúcar, podem estar associadas a mudanças no metabolismo que permanecem entre gerações. Um experimento com camundongos encontrou alterações na microbiota intestinal, na regulação da glicose e na atividade de determinados genes dos animais e de seus descendentes.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade do Chile e publicado na revista científica Frontiers in Nutrition, acompanhou 47 camundongos machos e fêmeas. Os animais foram separados em três grupos: um recebeu apenas água, enquanto os outros consumiram água com sucralose ou estévia.
Os pesquisadores analisaram não apenas os animais expostos aos adoçantes, mas também as gerações seguintes. Foi nesse acompanhamento que surgiram diferenças que variaram conforme a substância e o sexo dos descendentes.
Os grupos que receberam sucralose ou estévia apresentaram maior diversidade no microbioma fecal em comparação com os animais que beberam somente água.
As diferenças não ficaram restritas à geração diretamente exposta. Entre os descendentes, somente os machos provenientes de animais que haviam consumido sucralose apresentaram sinais de intolerância à glicose na primeira geração.
Na segunda, por sua vez, os pesquisadores detectaram níveis elevados de glicose em jejum tanto nos descendentes machos do grupo da sucralose quanto nas fêmeas descendentes dos animais que receberam estévia.
Francisca Concha Celume, da Universidade do Chile e principal autora do artigo, afirma que os resultados levantam questões sobre efeitos metabólicos dos adoçantes que ainda não são completamente compreendidos. Isso não significa, segundo a pesquisadora, que essas substâncias sejam responsáveis pelo aumento da obesidade ou de distúrbios metabólicos, como a resistência à insulina.
Os efeitos observados também foram diferentes entre os dois adoçantes. No grupo que recebeu estévia, os cientistas identificaram mudanças na expressão de genes, mas elas ocorreram em menor escala e foram transmitidas somente por uma geração.
Com a sucralose, algumas alterações permaneceram por mais tempo. Os pesquisadores observaram mudanças no microbioma fecal, com aumento de espécies consideradas patogênicas e redução de bactérias benéficas.
A exposição à sucralose também foi associada a maior expressão de genes relacionados à inflamação e menor atividade de genes ligados ao metabolismo. Algumas dessas diferenças foram observadas por até duas gerações.
Apesar das mudanças identificadas, os animais do experimento não desenvolveram diabetes. Segundo Concha, os resultados apontaram alterações mais sutis na maneira como o organismo regula a glicose e na atividade de genes envolvidos em processos inflamatórios e metabólicos.
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que essas mudanças possam aumentar a suscetibilidade a distúrbios metabólicos quando combinadas a determinadas condições, como uma alimentação rica em gordura. Essa possibilidade, no entanto, ainda precisa ser investigada.
Apesar dos resultados, o estudo apresenta limitações importantes. Por ter sido realizado com camundongos, os resultados não mostram que sucralose e estévia provoquem os mesmos efeitos em pessoas.
Os próprios pesquisadores ressaltam que o trabalho identificou associações, mas não demonstrou uma relação de causa e efeito entre o consumo dos adoçantes e as alterações observadas.
Também não é possível concluir, a partir do experimento, que consumir essas substâncias provoque diabetes ou outros distúrbios metabólicos em gerações futuras de seres humanos.