Bactérias: microrganismos da microbiota intestinal produzem compostos que podem deixar uma memória protetora contra inflamações (Freepik)
Redatora
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 13h50.
As bactérias intestinais podem fazer mais do que ajudar na digestão dos alimentos. Um estudo da Northwestern Medicine sugere que um composto produzido quando esses microrganismos fermentam as fibras alimentares é capaz de "treinar" as células do intestino, criando uma memória biológica que mantém a proteção contra inflamações mesmo depois que a substância deixa de estar presente no organismo.
A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, identificou que o butirato — um ácido graxo de cadeia curta produzido pela microbiota intestinal — promove alterações duradouras nas células que revestem o intestino. Em experimentos com camundongos, esse efeito aumentou a produção da molécula anti-inflamatória IL-10 e reduziu a gravidade de quadros semelhantes à colite.
Segundo os pesquisadores, as descobertas reforçam a ideia de que metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais não apenas exercem efeitos temporários, mas também podem reprogramar o sistema imunológico intestinal.
O butirato é produzido quando bactérias do intestino fermentam fibras presentes em alimentos de origem vegetal. Estudos anteriores já mostravam que essa molécula possui propriedades anti-inflamatórias.
No entanto, havia uma dúvida importante: como grande parte do butirato é rapidamente absorvida e utilizada pelas células do revestimento intestinal, pouco dele chega diretamente às células do sistema imunológico. Para responder a essa questão, os pesquisadores investigaram se o composto poderia atuar indiretamente, por meio das próprias células que revestem o intestino.
Nos experimentos, camundongos receberam butirato dissolvido na água por um período determinado. Após o término do tratamento, os pesquisadores acompanharam os animais durante duas semanas.
Mesmo sem a presença do composto, as células T CD4+ continuaram produzindo níveis elevados de IL-10, uma citocina responsável por reduzir processos inflamatórios e ajudar a preservar o equilíbrio do sistema imunológico intestinal.
Os animais também apresentaram maior resistência à colite induzida em laboratório. Eles perderam menos peso, desenvolveram menos lesões no intestino e exibiram níveis menores de inflamação quando comparados aos camundongos que não receberam o tratamento.
Para verificar se essa proteção dependia da presença contínua das bactérias intestinais, os pesquisadores repetiram os experimentos em camundongos criados sem microbiota. Mesmo nesses animais, o butirato foi capaz de estabelecer um ambiente anti-inflamatório duradouro.
Segundo os autores, esse resultado indica que o composto deixa uma espécie de "memória" nas células do revestimento intestinal, permitindo que elas continuem estimulando respostas imunológicas protetoras mesmo após o desaparecimento do metabólito.
Os pesquisadores então concentraram a investigação nas células epiteliais intestinais, responsáveis por formar a barreira entre o organismo e o conteúdo presente no intestino.
Em experimentos realizados em laboratório, essas células, após serem expostas ao butirato, passaram a liberar sinais capazes de estimular tanto células T de camundongos quanto células T humanas a produzirem mais IL-10.
A equipe identificou ainda uma molécula chamada N1-acetilspermidina como um dos principais mediadores desse efeito. O composto parece ser produzido pelas células intestinais após a exposição ao butirato e contribui para manter a resposta imunológica anti-inflamatória.
Segundo os autores, as descobertas sugerem que as células intestinais não funcionam apenas como uma barreira física, mas também conseguem registrar sinais benéficos provenientes da microbiota e utilizá-los posteriormente para modular o sistema imunológico.
Embora os experimentos tenham sido realizados em camundongos, os pesquisadores acreditam que o mecanismo poderá ajudar a compreender melhor doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.
O próximo passo será investigar se essa mesma via biológica também está presente em células intestinais humanas e se ela se altera em pacientes com doença inflamatória intestinal.
Os autores também pretendem identificar outros metabólitos produzidos pela microbiota que possam participar desse processo, já que a N1-acetilspermidina não explicou completamente toda a resposta observada.
Segundo a equipe, compreender como a alimentação, os metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais e o revestimento do intestino interagem pode abrir caminho para novas estratégias voltadas ao restabelecimento da tolerância imunológica e ao tratamento de doenças inflamatórias intestinais.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que os resultados ainda são pré-clínicos e precisam ser confirmados em estudos com seres humanos antes de qualquer aplicação clínica.