Nova diretriz muda critérios de diagnóstico do infarto (Magnific)
Colaboradora
Publicado em 30 de agosto de 2026 às 10h28.
Um exame de troponina alterado deixa de ser suficiente, isoladamente, para confirmar um infarto do miocárdio. É o que estabelece a nova diretriz internacional de cardiologia, publicada pelo European Heart Journal, que atualiza os critérios de diagnóstico e classificação da doença.
O documento, batizado de 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio, foi elaborado em conjunto pela European Society of Cardiology (ESC), pelo American College of Cardiology (ACC), pela American Heart Association (AHA) e pela World Heart Federation (WHF). Ele substitui a antiga classificação baseada em cinco tipos de infarto por um modelo organizado em torno dos mecanismos que causam a lesão cardíaca.
Segundo os especialistas responsáveis pela atualização, a classificação anterior misturava situações clínicas distintas, o que dificultava identificar a origem do problema em cada paciente.
Vale ressaltar que a diretriz foi elaborada por uma força-tarefa global formada por especialistas de 12 países em cinco continentes. O texto passou por revisão independente de um comitê com 18 membros indicados pelas sociedades envolvidas, além de um painel de pacientes e representantes da Associação Europeia de Cirurgia Cardiotorácica (EACTS), da Sociedade de Cirurgiões Torácicos (STS) e de comitês de diretrizes clínicas ligados à ESC.
A partir de agora, os casos de infarto passam a ser agrupados em três tipos clínicos:
Ocorre de forma espontânea, causado por uma patologia coronariana aguda, como ruptura de placa de aterosclerose com formação de coágulo, dissecção espontânea da coronária, embolia ou vasoespasmo.
Resulta do desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio pelo coração, provocado por outra condição aguda, como anemia grave, infecções severas, baixa oxigenação do sangue ou alterações importantes de pressão arterial.
Surge como complicação de uma intervenção cardíaca percutânea ou cirúrgica, como angioplastia com stent ou cirurgia de revascularização, em até 30 dias após o procedimento.
A diretriz busca, entre outros pontos, diferenciar elevações esperadas de marcadores cardíacos após esse tipo de intervenção de eventos que, de fato, indicam complicação.
Um dos pontos centrais do consenso é a distinção entre lesão cardíaca e infarto propriamente dito. A troponina segue sendo um marcador importante, mas seus níveis podem subir em diversas situações que não envolvem obstrução coronariana — casos de miocardite, insuficiência cardíaca, embolia pulmonar, sepse, AVC, crises convulsivas e até exercício físico intenso.
Por isso, o diagnóstico passa a exigir a análise conjunta de sintomas clínicos, alterações no eletrocardiograma, exames de imagem e outros indícios de isquemia cardíaca. Nenhum critério isolado é considerado suficiente para confirmar todos os casos.
A diretriz também reforça o uso de valores de referência de troponina diferentes para homens e mulheres, já que um limite único para os dois sexos pode contribuir para o subdiagnóstico de infarto em mulheres.
O documento revisa ainda o conceito de MINOCA — lesão cardíaca em pacientes sem obstruções significativas nas coronárias. Pela nova orientação, o quadro deve ser tratado como o início de uma investigação mais ampla, e não como um diagnóstico conclusivo.
Exames de imagem, como angiografia coronariana, ecocardiograma, tomografia e ressonância magnética cardíaca, ganham peso maior nesse processo, auxiliando na identificação do mecanismo exato por trás da lesão.
A nova definição também busca alinhamento com os códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e detalha as implicações da mudança para pacientes, sistemas de saúde e pesquisa científica.
A expectativa dos autores é que a adoção da nova classificação na prática clínica torne o diagnóstico de infarto mais preciso tanto para médicos quanto para pacientes, com reflexos em todos os níveis de atendimento.
A ruptura de placa aterosclerótica seguida de trombose continua sendo a principal causa de infarto do miocárdio. Mas o maior acesso a angiografia coronária, imagem intravascular e testes funcionais tem permitido identificar com mais frequência outras causas, como dissecção espontânea da artéria coronária, embolia coronária e vasoespasmo — cada uma exigindo uma abordagem terapêutica distinta.
A diretriz também reconhece uma limitação prática: nem todos os sistemas de saúde têm acesso às ferramentas de imagem necessárias para identificar o mecanismo exato e confirmar o diagnóstico com precisão.