Animais: estudo analisou 4.581 mamíferos e aves para investigar os efeitos da presença humana (Imagem gerada por IA/EXAME)
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Publicado em 31 de agosto de 2026 às 19h11.
Cientistas descobriram que a presença física de humanos pode alterar a forma como animais usam o espaço. O efeito foi identificado em um estudo que analisou dados de GPS de 4.581 mamíferos e aves nos Estados Unidos.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB), do Smithsonian e da Universidade Yale. Os resultados foram publicados na revista Science.
Os pesquisadores combinaram registros de localização dos animais com dados anonimizados de celulares. A estratégia permitiu avaliar não apenas as mudanças provocadas por cidades, estradas e outras estruturas, mas também o efeito da presença das pessoas.
A análise comparou períodos equivalentes de 2019 e 2020, quando as restrições da pandemia de Covid-19 reduziram drasticamente a circulação humana em diferentes regiões.
Esse cenário criou uma oportunidade incomum para separar dois efeitos. Um deles é a transformação permanente da paisagem, como urbanização e agricultura. O outro é a presença temporária de pessoas em determinado local.
Para os resultados, os pesquisadores analisaram 37 espécies e observaram respostas diferentes entre mamíferos e aves. Em 57% das espécies, os efeitos da presença humana e da alteração da paisagem apareceram simultaneamente.
A presença de pessoas esteve associada a mudanças no território utilizado ou no nicho ecológico de 67% das espécies de mamíferos e 68% das aves.
De acordo com as análises, não houve uma reação única à presença humana. Os lobos, por exemplo, ampliaram o uso do habitat em resposta às pessoas.
Segundo os pesquisadores, o comportamento pode estar relacionado à longa história de conflito e convivência entre lobos e humanos. Uma possibilidade é que os animais estejam se dispersando ou evitando áreas de maior atividade humana.
Os cervos-de-cauda-branca apresentaram outro padrão. Seus nichos ecológicos aumentaram conforme as paisagens se tornaram mais modificadas, mas diminuíram quando a circulação de pessoas aumentaram. Já os grous-canadenses apresentaram uma resposta diferente da observada nos cervos.
As diferenças reforçam a necessidade de considerar as características de cada espécie ao elaborar medidas de conservação.
Os resultados indicam que observar apenas construções, estradas ou áreas urbanizadas pode não ser suficiente para medir o impacto humano sobre a fauna. Em aproximadamente 67% das espécies de mamíferos e 41% das aves, a combinação entre presença humana e alteração da paisagem esteve associada à redução do habitat utilizado.
O efeito da circulação de pessoas também foi mais evidente em áreas com menor desenvolvimento, como parques nacionais, do que em regiões urbanizadas.
Para os pesquisadores, isso sugere que animais que vivem em ambientes já muito modificados podem responder de maneira diferente aos mesmos níveis de atividade humana.
Uma das principais novidades do estudo foi o uso de dados de localização de celulares para medir diretamente a movimentação das pessoas.
Normalmente, pesquisas sobre a relação entre humanos e animais utilizam indicadores indiretos. Entre eles estão a densidade urbana, a agricultura e o nível de desenvolvimento de uma região.
Os dados de celulares permitiram observar com maior precisão onde e quando as pessoas estavam presentes. Segundo os pesquisadores, essa informação ajuda a separar os efeitos da infraestrutura daqueles provocados pela presença humana.
A abordagem faz parte da chamada “antropausa”, termo usado para descrever a redução excepcional da atividade humana durante a pandemia.
Para os autores, ainda não está claro se as mudanças observadas são positivas ou negativas para a sobrevivência das espécies. Os animais podem alterar o uso do espaço como uma forma de adaptação às atividades humanas. Mas a mudança também pode indicar que estão sendo obrigados a ocupar áreas menos adequadas.
Os pesquisadores agora investigam se essas alterações de comportamento aumentam ou reduzem a probabilidade de sobrevivência dos animais. A expectativa é que informações sobre a presença humana possam ajudar a criar estratégias de conservação mais específicas, indicando onde e quando determinadas espécies precisam de maior proteção.