Da esquerda para a direita: César H.S. Rezende, repórter da EXAME, Matheus Ferreira, diretor-executivo do Instituto CNA, e Carlos Goulart, secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, debatem os desafios da rastreabilidade no agro (Eduardo Frazão/Exame)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.
O produtor brasileiro entra na safra 2026/27 com menos espaço para errar. Margens comprimidas, crédito mais seletivo, tensões geopolíticas e um El Niño no radar aumentam a incerteza sobre a produção.
Ao mesmo tempo, uma nova fonte de demanda ganha escala: além de produzir alimentos, o campo brasileiro avança como fornecedor de energia. É entre essas duas forças que o agronegócio deve atravessar a nova temporada.
No SuperAgro 2026, evento da EXAME para o setor realizado em agosto, especialistas mostraram que a competitividade do agro dependerá cada vez menos de apenas produzir mais e cada vez mais da capacidade de administrar riscos, encontrar novas fontes de receita e atrair capital para financiar essa transformação.
Para Silvio Crestana, pesquisador da Embrapa e ex-presidente da instituição, a mudança começa justamente pela maneira de encarar as adversidades. “A palavra atual é ‘risco’, e não ‘crise’. Só chegamos a uma crise quando não soubemos identificar os riscos e nos antecipar a eles. A partir desse momento, é sobrevivência”, afirmou.
A distinção ajuda a explicar o momento. Clima, câmbio, preços internacionais, juros e geopolítica são variáveis sobre as quais o produtor tem pouco controle. Se não pode eliminá-las, precisa se preparar para seus efeitos. E o primeiro teste pode vir do céu, com o El Niño, que deve atingir as regiões produtoras de formas distintas.
“O Brasil tem essa característica [de diversidade nos efeitos climáticos] e, por isso, a perda total não costuma ser tão grande”, disse o economista Carlos Cogo, da Cogo Inteligência. Na soja, principal commodity agrícola do país, entre 45% e 50% da área plantada pode ficar sob influência do fenômeno.
Da esquerda para a direita: André Martins, repórter da EXAME, e Carlos Cogo, da Cogo Inteligência, em painel do EXAME SuperAgro 2026 sobre os efeitos do El Niño na nova safra (Eduardo Frazão/Exame)
A aposta na energia
Se o clima é uma das principais ameaças, a energia aparece como uma das maiores oportunidades, como o etanol de milho. A produção brasileira está em cerca de 10 bilhões de litros e pode alcançar 16,6 bilhões em 2033, segundo projeções da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).
A expansão das usinas, principalmente no Centro-Oeste, colocou um novo comprador na cadeia. Para Renato Zicardi, diretor de Trading Internacional da Inpasa, a principal indústria nesse setor, a próxima fronteira pode não estar nas estradas, mas no mar. Segundo ele, se apenas 10% do combustível utilizado pelo transporte marítimo fosse substituído por etanol, surgiria uma demanda adicional de cerca de 60 bilhões de litros. “Não conseguiríamos hoje atender. Teríamos que nos esforçar para produzir mais”, disse.
A aviação é outra promessa, com o uso de combustível de aviação sustentável, o SAF. O investimento para chegar lá, porém, é uma das principais barreiras: uma planta de SAF custa em média 1,5 bilhão de dólares, segundo cálculos da União Brasileira de Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio).
A oportunidade energética desemboca no mesmo desafio que atravessa o restante do agro: como financiar a próxima etapa de crescimento sem elevar excessivamente os riscos. E, para atrair capital de longo prazo, não basta ter bons projetos — o investidor precisa saber quais regras encontrará pela frente. É nesse ponto que entra a discussão sobre a compra de terras por estrangeiros.
Uma decisão do Supremo Tribunal Federal delimitou a aplicação das regras para estrangeiros e empresas brasileiras equiparadas a estrangeiras na aquisição de propriedades rurais. A legislação pode continuar impondo restrições, mas a definição reduz uma incerteza que dificultava a tomada de decisão. “Agora não há mais incerteza; há risco precificável”, disse Henrique Arake, sócio-fundador de Arake, Tomazette, Borges & Glicério Advogados.
Seja diante do clima, da construção de uma planta de biocombustível, seja da entrada de capital estrangeiro, o setor não precisa necessariamente eliminar o risco — precisa conseguir identificá-lo. Como resumiu Crestana, o desafio é reconhecer o risco enquanto ele ainda pode ser administrado — antes que se transforme em crise.
