Ciência

Colecionadores de conchas? Estudo revela hábito comum entre neandertais e humanos

Pesquisadores encontraram evidências de que as duas espécies mantiveram um mesmo comportamento por mais de 20 mil anos

Evolução humana: pesquisa amplia o debate sobre a convivência entre diferentes espécies humanas (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Evolução humana: pesquisa amplia o debate sobre a convivência entre diferentes espécies humanas (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 10 de julho de 2026 às 09h05.

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Pesquisadores encontraram novas evidências de que neandertais e humanos modernos podem ter compartilhado tradições culturais muito antes do surgimento das primeiras civilizações. A descoberta foi feita após a análise de centenas de conchas encontradas em uma caverna no sul da Turquia e sugere que as duas espécies mantiveram, por mais de 20 mil anos, o hábito de coletar o mesmo tipo de concha sem utilidade prática conhecida.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Turquia, do Japão e da França e publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Segundo os autores, o achado amplia as evidências de que neandertais (Homo neanderthalensis) e humanos modernos (Homo sapiens) apresentavam comportamentos mais semelhantes do que se imaginava, levantando novas questões sobre a evolução da cultura humana.

O que os pesquisadores descobriram na caverna da Turquia

A pesquisa foi realizada na caverna Üçağızlı II, no sul da Turquia, uma região considerada estratégica por conectar a África à Eurásia durante a expansão dos primeiros grupos humanos.

No local, os cientistas analisaram fósseis, ferramentas de pedra e 226 espécimes de conchas pertencentes a diferentes períodos de ocupação da caverna. Entre elas, chamou atenção a recorrência da espécie Columbella rustica, encontrada tanto em camadas associadas aos neandertais quanto às ocupadas posteriormente por humanos modernos.

Como essa pequena concha marinha não possui valor alimentar bem como função prática conhecida, os pesquisadores acreditam que ela provavelmente tinha importância simbólica ou cultural.

Por que as conchas chamaram a atenção dos cientistas

Segundo os autores, o aspecto mais surpreendente não foi apenas o uso das conchas, mas o fato de as duas espécies demonstrarem preferência pelo mesmo tipo de objeto durante milhares de anos.

Para o pesquisador Naoki Morimoto, da Universidade de Tóquio e autor correspondente do estudo, esse comportamento é especialmente significativo porque ocorreu em um período em que a sobrevivência dependia diretamente da obtenção de alimentos.

Diante disso, o pesquisador afirma que a escolha recorrente de uma concha sem utilidade prática sugere que tanto neandertais quanto humanos modernos atribuíam valor a comportamentos potencialmente simbólicos, mesmo vivendo sob intensas pressões para sobreviver.

Neandertais e Homo sapiens podem ter compartilhado tradições?

Os pesquisadores apontam duas possibilidades para explicar esse comportamento. A primeira é que neandertais e humanos modernos tenham desenvolvido, de forma independente, o hábito de coletar a mesma espécie de concha.

A segunda hipótese é que esse costume tenha sido transmitido entre os grupos por meio da convivência, da observação ou da aprendizagem social ao longo de milhares de anos.

Segundo Morimoto, a descoberta leva os cientistas a reavaliar as fronteiras culturais entre diferentes grupos humanos que viveram no Levante, região onde as duas espécies coexistiram em diferentes momentos.

Descoberta amplia o debate sobre a evolução humana

Até recentemente, muitos arqueólogos consideravam comportamentos simbólicos, como o uso de objetos sem função prática, uma característica exclusiva do Homo sapiens. O novo estudo, no entanto, reforça evidências de que os neandertais também realizavam esse tipo de prática.

Em 2018, outra pesquisa já havia encontrado na Espanha conchas marinhas, pigmentos e possíveis recipientes utilizados por neandertais entre 115 mil e 120 mil anos atrás. Agora, a descoberta feita na Turquia acrescenta um novo elemento ao debate ao mostrar esse comportamento em um local ocupado pelas duas espécies em diferentes períodos.

Se essa hipótese for confirmada por pesquisas futuras, ela poderá transformar a compreensão sobre a relação entre essas espécies, sugerindo que a troca entre elas envolvia não apenas genes, mas também costumes, preferências e formas de atribuir significado a objetos do cotidiano.

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