Musculação: estudo da Unicamp investigou como o treinamento de força altera processos moleculares no fígado (Freepik)
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Publicado em 3 de julho de 2026 às 14h56.
Os benefícios da musculação podem ir muito além do aumento da massa muscular. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostrou que o treinamento de força é capaz de reprogramar o funcionamento de células do fígado, reduzindo danos provocados pela obesidade e restaurando a sensibilidade do órgão à insulina.
A pesquisa, apoiada pela FAPESP e publicada na revista Life Sciences, foi realizada com camundongos obesos. Os resultados sugerem que a musculação altera mecanismos epigenéticos — mudanças que regulam a atividade dos genes sem modificar o DNA — favorecendo a recuperação do fígado e reduzindo processos associados à doença hepática esteatótica, caracterizada pelo acúmulo de gordura no órgão.
Para entender como um exercício realizado pelos músculos pode beneficiar o fígado, os pesquisadores investigaram alterações epigenéticas, responsáveis por controlar quais genes ficam mais ou menos ativos.
O foco foi o gene MTCH2, envolvido no metabolismo energético das células do fígado. Após oito semanas de treinamento de força, os cientistas observaram mudanças na metilação desse gene, um mecanismo químico que regula sua atividade.
Segundo o coordenador da pesquisa, Leandro Pereira de Moura, a obesidade cria um ambiente tóxico para o fígado, favorecendo inflamação, acúmulo de gordura e alterações no funcionamento das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia das células. Esse cenário acelera a progressão da doença hepática e dificulta a regeneração do órgão.
Nos animais que praticaram musculação, porém, o quadro foi diferente. Embora as células continuassem produzindo o RNA mensageiro relacionado ao gene MTCH2, a quantidade final da proteína associada a esse gene diminuiu. Segundo os pesquisadores, isso indica que a melhora do ambiente celular reduziu o estado de estresse do fígado, tornando desnecessária a ativação desse mecanismo de resposta.
Outro resultado importante foi a recuperação da sensibilidade à insulina. Em condições normais, esse hormônio sinaliza ao fígado quando deve interromper a liberação de glicose na corrente sanguínea. Com a obesidade, porém, o órgão pode desenvolver resistência à insulina e continuar liberando açúcar mesmo quando o organismo já possui energia suficiente.
Nos camundongos submetidos ao treinamento de força, essa resposta voltou a funcionar de forma mais eficiente, indicando melhora no controle da glicemia.
Além disso, os pesquisadores observaram redução da atividade de enzimas relacionadas à fibrose hepática e aumento da produção da proteína ATP5, essencial para a geração de energia pelas mitocôndrias.
Os autores destacam que o estudo foi realizado apenas em camundongos e, portanto, os resultados não podem ser extrapolados diretamente para seres humanos.
Ainda assim, a pesquisa ajuda a explicar os mecanismos biológicos pelos quais a musculação protege o fígado e reforça o potencial do treinamento de força como aliado na prevenção e no tratamento de complicações associadas à obesidade, à doença hepática esteatótica e ao diabetes tipo 2.
Segundo os pesquisadores, compreender como a musculação modifica o funcionamento das células do fígado poderá contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção e tratamento de doenças metabólicas relacionadas à obesidade e à resistência à insulina.