Cigarro eletrônico: pesquisadores alertam para riscos além da dependência (Imagem gerada por IA/EXAME)
Redatora
Publicado em 5 de julho de 2026 às 07h36.
Os cigarros eletrônicos foram apresentados durante anos como uma alternativa menos nociva ao cigarro tradicional. Agora, uma das maiores revisões científicas já realizadas sobre o tema concluiu que o uso de vape provavelmente está associado ao desenvolvimento de câncer de pulmão e câncer de boca.
A análise reuniu evidências de pesquisas em humanos, animais e laboratório e reforça as preocupações sobre os efeitos do vaping na saúde. Os resultados foram publicados na revista científica Carcinogenesis por pesquisadores liderados pela Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW Sydney), na Austrália.
O trabalho reuniu especialistas das áreas de epidemiologia, saúde pública, cirurgia torácica e farmacologia para avaliar o potencial carcinogênico dos cigarros eletrônicos com nicotina.
Os pesquisadores analisaram estudos clínicos, experimentos laboratoriais e pesquisas com animais para investigar se o uso de cigarros eletrônicos pode contribuir diretamente para o desenvolvimento de câncer, independentemente do tabagismo convencional. Segundo os autores, as evidências disponíveis apontam de forma consistente para uma relação entre o vaping e processos biológicos associados à carcinogênese.
Para os resultados, a revisão identificou sinais de danos ao DNA, estresse oxidativo e inflamação em tecidos expostos aos aerossóis produzidos pelos dispositivos.
Além disso, estudos em animais incluídos na análise observaram o desenvolvimento de tumores pulmonares após a exposição a substâncias presentes nos cigarros eletrônicos.
A revisão também identificou compostos potencialmente cancerígenos nos aerossóis inalados pelos usuários. Entre eles estão compostos orgânicos voláteis e metais liberados pelas bobinas de aquecimento dos dispositivos.
Segundo os pesquisadores, essas substâncias podem provocar alterações celulares e moleculares associadas ao surgimento de tumores.
Os autores destacam que diferentes tipos de estudos chegaram a conclusões semelhantes, o que aumenta a consistência das evidências atualmente disponíveis sobre os efeitos do cigarro eletrônico na saúde.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é o chamado uso duplo, quando a pessoa utiliza cigarros eletrônicos e cigarros convencionais simultaneamente.
Segundo a revisão, muitos usuários não abandonam completamente o tabagismo ao começar a usar cigarros eletrônicos. Os autores citam evidências epidemiológicas recentes indicando que pessoas que fumam e vaporizam podem apresentar risco maior de câncer de pulmão em comparação com aquelas que utilizam apenas um dos produtos.Diante disso, os pesquisadores observam que a dependência de nicotina pode contribuir para a manutenção desse comportamento, dificultando a interrupção completa do consumo de produtos derivados do tabaco.
Apesar das conclusões da revisão, os pesquisadores ressaltam que ainda não é possível determinar com precisão o risco individual de desenvolver câncer em decorrência do uso de vapes. Isso ocorre porque esses dispositivos são relativamente recentes e ainda faltam estudos populacionais de longo prazo capazes de medir a incidência da doença entre usuários ao longo de décadas.
Por esse motivo, a análise não apresenta estimativas numéricas sobre quantos casos de câncer podem ser atribuídos ao vaping. Ainda assim, os autores afirmam que o conjunto de evidências disponível atualmente já aponta para uma provável associação entre o uso de cigarros eletrônicos e o desenvolvimento de câncer de pulmão e de cavidade oral.