Ciência

Cientistas encontram forma de reativar regeneração de nervos humanos

Experimentos com miniaturas de cérebro e medula espinhal revelaram um mecanismo capaz de restaurar o crescimento de fibras nervosas danificadas

Regeneração nervosa: pesquisadores identificaram um mecanismo capaz de restaurar o crescimento de fibras nervosas após lesões (Freepik)

Regeneração nervosa: pesquisadores identificaram um mecanismo capaz de restaurar o crescimento de fibras nervosas após lesões (Freepik)

Publicado em 31 de maio de 2026 às 09h07.

Priorizar nos meus resultados Google

Um estudo da Universidade de Cambridge revelou que neurônios humanos podem recuperar a capacidade de regenerar fibras nervosas após lesões. A descoberta, publicada na revista Cell Reports, foi feita com modelos em miniatura de cérebro e medula espinhal e pode contribuir para o desenvolvimento de futuras terapias para doenças neurológicas.

Os cientistas utilizaram organoides — estruturas cultivadas a partir de células-tronco humanas que reproduzem características de órgãos reais — para simular a comunicação entre cérebro, medula espinhal e músculos.

No laboratório, os axônios, fibras responsáveis por transmitir sinais nervosos, cresceram entre os tecidos e chegaram a provocar pequenas contrações musculares.

Como os cientistas reproduziram o sistema nervoso humano

A equipe manteve separados os organoides que representavam o cérebro e a medula espinhal, permitindo que as conexões se formassem de maneira semelhante ao que ocorre no organismo humano.

Ao acompanhar o desenvolvimento dessas estruturas por mais de um ano, os pesquisadores observaram que os neurônios mantinham elevada capacidade de regeneração até aproximadamente o equivalente ao meio da gestação humana. Depois desse período, essa habilidade diminuía de forma significativa.

Segundo os autores do estudo, o resultado sugere que a perda da capacidade de reparo faz parte do próprio processo de amadurecimento do sistema nervoso central.

O que bloqueia o reparo dos neurônios?

Para entender o que provocava essa mudança, os cientistas analisaram a atividade genética dos neurônios responsáveis por conectar o cérebro à medula espinhal.

A investigação identificou uma rede de genes que atua como um tipo de "interruptor biológico", limitando o crescimento dos axônios à medida que as células nervosas amadurecem e estabelecem conexões definitivas.

Quando os pesquisadores bloquearam reguladores centrais dessa rede genética, os neurônios recuperaram a capacidade de regenerar fibras nervosas após sofrerem lesões.

Medicamento estimulou o crescimento nervoso

A equipe também analisou bancos de dados de medicamentos em busca de substâncias capazes de interferir nesse mecanismo biológico. Entre os compostos identificados estava o linestrenol, um medicamento hormonal já utilizado para alguns distúrbios menstruais e como contraceptivo.

Nos experimentos realizados com neurônios lesionados, o fármaco aumentou significativamente o crescimento dos axônios, reforçando a hipótese de que a regeneração nervosa pode ser estimulada por intervenções direcionadas.

Os pesquisadores destacam, porém, que o medicamento não deve ser encarado como um tratamento pronto para lesões neurológicas. O resultado serve principalmente como prova de conceito de que o processo pode ser reativado.

O que a descoberta pode mudar?

Lesões no cérebro e na medula espinhal costumam provocar danos permanentes, uma vez que os neurônios do sistema nervoso central têm capacidade limitada de regeneração. Esse problema também está relacionado a doenças como esclerose múltipla e doença do neurônio motor.

Segundo os autores, compreender os mecanismos que bloqueiam a regeneração pode abrir caminho para futuras estratégias capazes de restaurar conexões nervosas perdidas.

A equipe afirma que os organoides humanos também ajudam a reduzir limitações dos modelos animais, já que neurônios humanos apresentam comportamentos diferentes dos observados em roedores frequentemente utilizados em pesquisas.

Acompanhe tudo sobre:NeurociênciaPesquisas científicas

Mais de Ciência

Baratas ciborgues podem virar ‘paramédicas’ em resgates após terremotos e desabamentos

Lito Sousa diz que pretende ser o 1º a controlar doença rara: 'Não perdi minha capacidade'

Nasa lança telescópio Roman, que deverá mapear mistérios do universo; assista

Nova diretriz global muda forma de diagnosticar infarto