Ciência

Andorinhas com tumores, sapo negro e fungos: como Chernobyl alterou as espécies

Estudos investigam como radiação, abandono humano e mutações afetaram espécies na região

Chernobyl: animais voltaram a ocupar região evacuada após desastre nuclear (Sean Gallup/Getty Images)

Chernobyl: animais voltaram a ocupar região evacuada após desastre nuclear (Sean Gallup/Getty Images)

Publicado em 17 de maio de 2026 às 07h53.

Quatro décadas após o desastre nuclear de Chernobyl, a região ao redor da usina se transformou em um dos maiores laboratórios naturais do mundo para o estudo da radiação. Cientistas investigam como a exposição radioativa afetou sapos, andorinhas, fungos, lobos, cães selvagens e outras espécies que permaneceram na zona de exclusão desde a explosão do reator em 1986.

Embora muitos animais tenham prosperado após a retirada dos humanos da área, pesquisadores afirmam que a vida selvagem de Chernobyl mudou de maneiras complexas — e nem sempre visíveis. Entre os exemplos mais estudados estão andorinhas-das-chaminés com tumores, sapos com coloração mais escura e fungos negros capazes de sobreviver em ambientes altamente radioativos.

Um dos estudos mais conhecidos foi conduzido pelo biólogo evolucionista Pablo Burraco, da Estação Biológica de Doñana, na Espanha. Em pesquisa publicada em 2022, cientistas analisaram mais de 250 rãs-arborícolas na região de Chernobyl e perceberam que muitos animais da zona contaminada apresentavam pele mais escura do que indivíduos da mesma espécie encontrados fora da área radioativa.

Segundo os autores, a coloração poderia estar ligada à melanina, pigmento que talvez ajude a reduzir os efeitos da radiação ionizante. A hipótese ainda gera debate entre especialistas ouvidos pela BBC, já que não existe comprovação definitiva de que a mudança tenha sido causada diretamente pela exposição radioativa.

Radiação não explica tudo

Pesquisadores afirmam que entender os efeitos de Chernobyl sobre os animais é um desafio complexo. Além da radiação, a região também sofreu alterações ambientais profundas ao longo das últimas décadas. Pinheiros morreram após a contaminação inicial, florestas mudaram de composição e áreas antes ocupadas por humanos foram tomadas pela vegetação.

Segundo especialistas, parte das mudanças observadas nos animais pode estar relacionada a esse novo ambiente e não apenas à radioatividade.

Animais prosperaram após saída dos humanos

Segundo a BBC, um dos fatores mais importantes para a recuperação da fauna foi a evacuação humana após o acidente nuclear. Com a redução da presença de pessoas, espécies como lobos, alces, javalis, linces e ursos-pardos passaram a circular livremente pela zona de exclusão.

Pesquisas estimam que a população de lobos seja até sete vezes maior em Chernobyl do que em reservas naturais vizinhas. Cães selvagens descendentes de animais abandonados após o desastre também se tornaram comuns na região.

Cientistas investigam mutações e adaptações

Ao longo dos anos, pesquisadores documentaram alterações genéticas em diferentes espécies que vivem perto da usina. Estudos identificaram maior diversidade genética em ratos-do-campo expostos à radiação, além de sinais de resistência maior a danos no DNA em alguns animais da região.

Pesquisas também registraram andorinhas-das-chaminés com tumores e alterações físicas em áreas contaminadas, embora cientistas ainda debatam quais mudanças estão ligadas diretamente à radiação e quais podem ter relação com outros fatores ambientais.

Uma pesquisa publicada em 2006 apontou ainda que certas alterações cromossômicas observadas em ratos-do-campo persistiram por gerações, mesmo após os animais serem retirados da área contaminada e reproduzidos em laboratório.

Fungos negros que crescem dentro das estruturas altamente radioativas do reator também chamaram a atenção dos cientistas. Estudos sugerem que a melanina desses organismos pode ajudar na proteção contra radiação ionizante. Experimentos realizados na International Space Station (ISS) observaram comportamento semelhante em fungos expostos à radiação.

Apesar disso, cientistas ressaltam que ainda existe debate sobre até que ponto essas características representam adaptações evolutivas reais.

Ecossistema continua mudando após 40 anos

Especialistas afirmam que a história ambiental de Chernobyl está longe de ser simples. De acordo com a BBC, embora muitas espécies tenham retornado à região, outras ainda sofrem impactos da radiação e das mudanças climáticas. Pesquisas recentes indicam que andorinhas-das-chaminés da área contaminada enfrentam dificuldades adicionais ligadas ao aumento das temperaturas globais.

Segundo pesquisadores, Chernobyl não pode ser descrita apenas como uma tragédia ambiental permanente nem como um “paraíso selvagem” recuperado. A região continua sendo um ecossistema marcado simultaneamente por destruição, adaptação e transformação contínua.

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