Vinil de "Music, Fashion, Film" com a etiqueta de Side A, onde fica a faixa "No One Lasts Forever" sem o trecho falado de David Cronenberg, presente apenas na versão digital do álbum (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 07h03.
No encarte do vinil de Music, Fashion, Film, o nome de David Cronenberg aparece nos créditos da faixa No One Lasts Forever. Só que a voz dele, gravada numa conversa de uma hora em Toronto, não está na música. Quem compra a versão física do álbum mais recente de Charli xcx ouve uma faixa de pouco mais de três minutos, quase metade da duração da versão que toca no streaming.
O caso repete um padrão que se tornou comum nos últimos dois anos. Fãs que pré-compraram edições especiais de vinil descobriram, ao tirar o disco da embalagem, versões reduzidas dos álbuns que já conheciam pelo Spotify ou pela Apple Music. Faixas cortadas, mixagens que ainda não eram as definitivas e até músicas ausentes viraram assunto recorrente entre colecionadores, batizado nas redes de Vinylgate.
Edição "Spark in the Dark" de "you seem pretty sad for a girl so in love", uma das doze versões em vinil do álbum. Todas trazem faixas cortadas em relação à versão digital (Divulgação)
O terceiro álbum de Olivia Rodrigo, you seem pretty sad for a girl so in love, saiu em pelo menos doze versões diferentes de vinil, entre capas alternativas, disco com pop-up e edições assinadas. Em todas elas, a faixa u + me = <3 perde um trecho inteiro da ponte, e o álbum como um todo soma mais de dois minutos a menos que a versão digital. Compradores que pediram reembolso por acharem que tinham recebido um produto com defeito foram informados pela loja oficial da cantora de que o disco chegou exatamente como planejado.
This Music May Contain Hope, segundo álbum de Raye, teve problema parecido. O vinil trouxe uma mixagem que ainda não era a versão final das faixas, e a cantora pediu desculpas publicamente, pedindo que os fãs aceitassem as diferenças. A resposta, nos comentários, incluiu acusações de fraude.
A versão em vinil de Hurry Up Tomorrow, do The Weeknd, trazia 11 das 22 faixas do álbum digital e custava entre US$ 18 e US$ 20, o equivalente a R$ 92 e R$ 102. Meses depois, chegou às lojas a Complete Edition, em vinil duplo, com preços que passaram de US$ 40, mais de R$ 200. A primeira pressagem de Eternal Sunshine, de Ariana Grande, trouxe uma versão incompleta da faixa supernatural.
Parte da explicação está no processo de fabricação, bem diferente de subir um arquivo para uma plataforma. Cada vinil exige uma masterização própria, otimizada para o formato, que depois é gravada com uma agulha sobre um disco de laca revestido de alumínio. Esse material se degrada em poucos dias e precisa seguir para a fábrica de prensagem em até 48 horas após a gravação.
Qualquer mudança depois disso significa recomeçar o processo, porque o engenheiro responsável pelo corte tem apenas uma tentativa por lado do disco. As fábricas costumam pedir os masters com pelo menos seis semanas de antecedência, prazo que aumenta quando a embalagem é mais elaborada. Uma plataforma de streaming processa um arquivo de áudio em cinco dias.
Charli xcx contou, em entrevista ao podcast Tape Notes, que a contribuição de Cronenberg chegou depois do prazo de entrega do áudio para o vinil. Olivia Rodrigo passou por situação parecida e escreveu a faixa que fecha o álbum uma semana antes do prazo da fábrica. O calendário de produção física, nesses casos, acabou determinando o momento em que a canção foi finalizada, antes mesmo da versão para as plataformas.
Vinil incompleto tem precedentes antigos na indústria fonográfica. Por décadas, fãs do Fleetwood Mac notaram a ausência de Silver Springs nas prensagens de Rumours, de 1977. Blue Monday, maior single do New Order, nunca apareceu nas edições em vinil do álbum Power, Corruption & Lies. Nesses casos, o motivo era físico, a quantidade de minutos que cabia no sulco do disco.
O mercado, enquanto isso, segue em expansão. No Reino Unido, as vendas de vinil somaram 7,6 milhões de unidades em 2025, alta de 13,3% sobre o ano anterior, segundo a BPI, associação da indústria fonográfica britânica. Foi o décimo oitavo ano seguido de crescimento do formato no país, com receita de £ 174,7 milhões, mais de R$ 1,2 bilhão.
"The Tortured Poets Department: The Anthology" ganhou vinil em edição especial, com disco em tom marmorizado, um dos formatos usados pela cantora para multiplicar variantes e faixas exclusivas por versão (Divulgação)
Taylor Swift usou essa lógica de forma explícita no lançamento de The Tortured Poets Department, em 2024. O álbum saiu em quatro edições de vinil, cada uma com capa e cor diferentes, e cada uma com uma faixa bônus exclusiva, ausente nas outras versões e também do streaming. As quatro variantes foram anunciadas em momentos separados, ao longo de dois meses, muitas vezes direto do palco da Eras Tour.
O modelo de pré-venda sustenta esse funcionamento comercial. As variantes chegam às lojas meses antes do lançamento, e cada uma é anunciada como prensagem limitada, o que faz o comprador reservar o disco sem saber exatamente o que vai receber. O conteúdo real só aparece semanas ou meses depois, na entrega. No modelo antigo de loja de discos, a ordem era inversa, o álbum já existia pronto quando alguém decidia comprá-lo.
Seis dos dez discos mais vendidos em vinil no Reino Unido em 2025 foram lançados nos últimos dois anos, segundo a BPI, sinal de que o público segue comprando lançamentos recentes, não apenas relançamentos de catálogo antigo. A prática de vender uma versão do álbum e, meses depois, uma edição anunciada como completa, tornou-se parte do próprio calendário de lançamento desses discos.