Desfile da Hermès: a grife cresceu 8,8% nas Américas no terceiro trimestre, a câmbio constante (Reprodução/Instagram)
Jonalista colaborador
Publicado em 6 de novembro de 2026 às 10h16.
Dois dias depois da cerimônia do CFDA Awards, a principal premiação da moda americana, a indústria acordou na quarta-feira, 4 de novembro, com um novo cenário político em Washington. Os democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado nas eleições de meio de mandato, e o Dow Jones fechou o dia em alta de 1.569 pontos, cerca de 3%, o melhor pregão desde abril de 2025.
O tema entrou de última hora na programação do Vogue Business Global Summit, em Nova York, em uma conversa entre Nicole Phelps, diretora global da Vogue Runway e da Vogue Business, e Hildy Kuryk, CEO interina do Council of Fashion Designers of America (CFDA).
Para as marcas de moda, a principal pergunta é o que acontece com as tarifas de importação impostas em 2025, que bagunçaram cadeias de fornecimento e pressionaram margens de grifes e varejistas. Kuryk lembra que o presidente pode continuar a criar sobretaxas sem passar pelo Congresso, como já fez, e que nada muda de imediato nesse ponto. A diferença, segundo ela, deve aparecer na fiscalização, com mais audiências e questionamentos ao governo sobre a política comercial.
A executiva também acompanha as medidas de regulação de inteligência artificial aprovadas em diversos estados e os governadores eleitos que defendem uma moratória na construção de data centers. Como a tecnologia já tem peso no dia a dia de marcas de moda e beleza, ela diz que ainda é cedo para saber se essas decisões vão acelerar ou frear o setor, e se as empresas vão manter os investimentos em produção e varejo anunciados nos Estados Unidos antes da eleição.
Desfile da Gucci: a América do Norte foi o mercado mais resiliente da marca no terceiro trimestre (Reprodução/Instagram)
O voto, na avaliação de Kuryk, foi motivado em grande parte pelo custo de vida, com inflação e preço dos combustíveis pesando no bolso dos americanos. A confiança do consumidor está perto de mínimas históricas, mas os balanços recentes do luxo mostram o país como um dos mercados mais fortes do setor. A Hermès cresceu 8,8% nas Américas no terceiro trimestre, a câmbio constante, enquanto a Ásia, excluindo o Japão, ficou estável. O grupo Ermenegildo Zegna, dono também de Tom Ford Fashion e Thom Browne, registrou alta de 14% na região, seu melhor desempenho geográfico no período. Na Kering, a América do Norte foi o mercado mais resiliente da Gucci, que ainda enfrenta queda nas vendas, e ajudou a sustentar o crescimento da Saint Laurent.
Kuryk explica a distância entre o humor do consumidor e os números das grifes pela concentração do consumo. As pesquisas de confiança refletem a família de renda mediana, enquanto boa parte dos gastos vem dos 20% mais ricos, e a moda vende para os dois grupos. Por isso, ela recomenda que as marcas reforcem o contato direto com o cliente e deixem mais claro o valor do que oferecem, já que a preocupação com preços deve continuar mesmo com a bolsa em alta.
Na leitura da CEO, o consumidor chega ao fim do ano mais calmo e um pouco mais otimista, mas ainda em compasso de espera. A temporada de festas, que concentra boa parte das vendas do varejo americano, e a agenda que o novo Congresso apresentar a partir de janeiro devem indicar se essa disposição vai se traduzir em gastos.
Aos estilistas, o CFDA tem repetido a orientação de manter o foco no negócio, no cliente e no trabalho criativo. A entidade segue com programas de capacitação e parcerias em inteligência artificial voltados a ajudar as marcas a atravessar o momento. "Não deixem o barulho afetar vocês", disse Kuryk, que também vê a eleição como uma conversa tão local quanto nacional, algo que, segundo ela, vale para a relação das marcas com seus clientes em cada região.