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O luxo ficou caro. Agora, a Kering mira as peças usadas

Grupo francês, dono de Gucci, Balenciaga e Saint Laurent, discute internamente a criação de uma plataforma própria de revenda

Fachada da sede da Kering, grupo francês que estuda entrar diretamente no mercado de segunda mão para reconquistar o público que se afastou do luxo tradicional (Divulgação)

Fachada da sede da Kering, grupo francês que estuda entrar diretamente no mercado de segunda mão para reconquistar o público que se afastou do luxo tradicional (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 06h49.

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Nos últimos anos, os grandes grupos de luxo escolheram um caminho claro rumo à exclusividade, com aumento de preços e restrição de acesso aos seus principais códigos de marca. A Kering avalia agora uma entrada direta no mercado de produtos de segunda mão, setor que cresceu justamente como resposta ao afastamento do público mais jovem e menos abastado das grifes tradicionais.

A informação foi divulgada pelo site francês Glitz, que procurou a Kering para obter esclarecimentos sobre o projeto. O grupo confirmou conversas preliminares com operadores especializados do setor de revenda, mas esclareceu que Luca de Meo, CEO da companhia desde setembro do ano passado, não participa diretamente do grupo de trabalho dedicado ao tema. Ainda assim, a iniciativa dialoga com uma estratégia que De Meo já havia testado na Renault, onde transformou o mercado de carros seminovos em ativo relevante para a marca por meio do programa Renew.

Herança da Renault

Batizado de Renew, o programa criado sob a gestão de De Meo na montadora francesa oferece veículos usados recondicionados e certificados, com garantia estendida. Em vez de deixar o mercado de usados nas mãos de terceiros, a Renault passou a controlar diretamente a revenda de seus próprios carros, criando uma fonte adicional de receita, algo que a Kering estuda replicar agora no universo da moda de luxo.

Até aqui, o grupo francês havia se limitado a investir em plataformas independentes, como a Vestiaire Collective, na qual entrou como acionista em 2021. A ideia agora discutida assumiria diretamente processos como autenticação, distribuição e relacionamento com o consumidor, transformando o mercado de segunda mão em canal próprio das marcas.

Um setor que se distanciou do público médio

O movimento acontece em um momento particular para o setor. Nos últimos anos, as grandes marcas apostaram no que analistas chamam de estratégia de elevação, com foco em clientes de altíssimo poder aquisitivo, os chamados VICs, em detrimento do consumidor aspiracional que por décadas sustentou o crescimento do segmento. Aumentos sucessivos de preços e um discurso cada vez mais centrado em artesanato e exclusividade ajudaram a afastar a faixa de consumidores de gasto intermediário.

Esse público, sem acesso fácil ao luxo tradicional, passou a direcionar o consumo para outras frentes, parte dele absorvida pelo chamado fast fashion evoluído, categoria em processo de reposicionamento para ocupar o espaço antes reservado ao luxo acessível. A Zara é um dos exemplos mais citados desse movimento, com parcerias assinadas ao lado de nomes como o estilista John Galliano, entregando desejo, narrativa de marca e design a preços mais democráticos.

Gucci e Balenciaga entre os mais procurados

Nesse cenário, o mercado de segunda mão surge como alternativa para a Kering reconquistar parte desse público sem abrir mão do posicionamento premium das marcas. Gucci e Balenciaga estão entre as grifes mais procuradas no mercado de revenda, onde peças vintage seguem despertando interesse mesmo em períodos de retração do varejo tradicional.

Segundo o Glitz, a Kering avalia diferentes formatos para o projeto, entre eles a criação de uma plataforma própria dedicada à revenda ou o lançamento de uma marca voltada para peças vintage. Reabrir as portas para consumidores de gasto intermediário pode ajudar a recuperar parte da base que se afastou do grupo, mas também levanta questões sobre como manter a confiança construída junto aos clientes de altíssimo padrão, hoje responsáveis pela fatia mais relevante do faturamento das marcas.

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