Piscina ao ar livre cercada por pedras e estrutura de madeira no Gokurakuyu Spa Hotel, em estilo inspirado nos banhos termais (Reprodução/Trip.com)
Jonalista colaborador
Publicado em 26 de outubro de 2026 às 14h43.
Em Shenyang, capital da província de Liaoning, no nordeste da China, o imóvel que abrigou por quase 16 anos uma loja do Carrefour no bairro de Tawan passou a receber parte das operações da rede de casas de banho Xiyue depois do fechamento do hipermercado, em abril de 2023. Na mesma cidade, um shopping que já reuniu Louis Vuitton, Gucci, Dior e Prada anunciou em 2025 a conversão em um complexo de banhos de 40 mil metros quadrados, depois da saída das marcas de luxo.
As trocas acompanham o crescimento de um setor que deixou para trás a imagem do banho público de bairro. Os novos complexos funcionam 24 horas, ocupam prédios de vários andares e combinam piscinas aquecidas, saunas e esfoliação corporal com frutas e bebidas à vontade, salas de cinema, consoles de videogame, karaokê e cápsulas para dormir. De acordo com relatório do aplicativo de serviços Meituan, o mercado cresceu por quatro anos seguidos e passou de 110 bilhões de yuans (aproximadamente R$ 85 bilhões) em 2025, com alta superior a 20% na venda de ingressos sobre 2024.
Vista aérea do Qinghe Peninsula Resort Hotel, em Shenyang, que soma 180 mil metros quadrados de área de operação (Reprodução/Trip.com)
A tradição do banho coletivo é mais forte no Nordeste do país, onde os invernos rigorosos transformaram a esfoliação em hábito. Shenyang aparece em primeiro lugar no Meituan em volume de transações e número de clientes vindos de outras cidades, e o Qinghe Peninsula Resort Hotel, um dos maiores da região, soma 180 mil metros quadrados, dos quais 60 mil ficam no prédio principal de banhos. Para o último inverno, o complexo abriu uma piscina termal de 168 metros e um tobogã de gelo de 521 metros.
O gerente-geral, Zhang Weizhi, contou à agência China News Service que cerca de 60% do público é jovem e que os dois primeiros dias do feriado de Ano-Novo de 2026 reuniram 5.500 visitantes, contra 2.800 no mesmo feriado do ano anterior. Segundo o Meituan, na semana anterior à virada, as buscas por "casa de banho 24 horas" na plataforma ficaram mais de seis vezes acima do registrado um ano antes.
Sala de relaxamento com leitos forrados de folhas secas e ramos de ervas pendurados em espaço do grupo Xiangshanghui (Reprodução/Trip.com)
A geração Z responde hoje por 28% dos clientes, e as buscas por termos como "encontro de amigas" e "confraternização da empresa" associados a casas de banho subiram 230%. Zhao Xuewang, presidente do Xiangshanghui Hotel Group, dono das redes Qushui Lanting e Shuiguo Tangquan, afirmou ao site Sixth Tone que muitas companhias trocaram o hotel pela casa de banhos na festa de fim de ano. Universitários também passam a madrugada nesses espaços para escrever trabalhos de conclusão de curso, e há quem use os complexos como hospedagem em viagens, com pernoites que custam uma fração da diária de um hotel.
Os preços variam bastante. Em Chengdu, na província de Sichuan, o Tang Yue vende passes de 20 horas por 99 yuans (R$ 76), segundo a National Geographic Traveller. No outro extremo, o Shuixie Lanting, aberto em Xangai em 2025, cobra entre 1.200 e 1.500 yuans (R$ 920 a R$ 1.150) por pessoa e mira o público de 25 a 35 anos. Para o CEO, Xiang Guangyu, a experiência completa "substitui, em certa medida, albergues e hotéis tradicionais".
O fenômeno chegou aos turistas, segundo um levantamento da agência britânica SpaSeekers, que analisou mais de 40 milhões de buscas no Google feitas em 2025, quatro cidades chinesas estão entre as cinco com maior alta de interesse por spas para 2026, com Xangai à frente e crescimento de 67% nas pesquisas. A demanda acompanha a flexibilização de vistos. No primeiro semestre de 2026, 17,81 milhões de estrangeiros entraram na China sem visto, 30,6% a mais do que um ano antes, segundo a Administração Nacional de Imigração.
Na unidade de Wujiaochang da Shuiguo, em Xangai, com cerca de 13 mil metros quadrados, um ingresso de aproximadamente 300 yuans (R$ 230) dá direito a permanências de 8 a 16 horas, comida e bebida liberadas, áreas de descanso em barracas e cinema. A gerente-geral, Du Huihui, disse ao jornal Shanghai Observer que mais de 80% dos clientes estrangeiros escolhem tratamentos inspirados na medicina tradicional chinesa. Em Shenzhen, a Shuiguo+ ocupa 18 mil metros quadrados e guarda malas de graça, enquanto plataformas como Klook vendem os ingressos em inglês.
O Shuixie Lanting previa abrir a segunda unidade em Xangai antes do feriado do Dia Nacional, em outubro, e estuda chegar às províncias vizinhas de Jiangsu e Zhejiang.