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Greg Peters: 'A Netflix quer ser o destino final dos grandes criadores do YouTube'

Em entrevista à Casual EXAME e outros dois veículos, o co-CEO da Netflix detalha a estratégia por trás da aquisição de US$ 82,7 bilhões e o futuro do streaming

Greg Peters em São Paulo: foco na expansão do mercado brasileiro (Foto: Maros Serra Lima/ Montagem: EXAME)

Greg Peters em São Paulo: foco na expansão do mercado brasileiro (Foto: Maros Serra Lima/ Montagem: EXAME)

Luiza Vilela
Luiza Vilela

Repórter de Casual

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 07h12.

Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 08h38.

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Aquisição da Warner Bros., 325 milhões de assinantes, crescimento em lucro e receita e 15 anos de mercado em solo brasileiro. A Netflix está mesmo sob os holofotes nos últimos meses — e o co-CEO da empresa, Greg Peters, está adorando a atenção. 

A compra do centenário estúdio, que ainda está em processo regulatório, foi o xeque-mate diante dos concorrentes em uma guerra de streamings que já estava basicamente dada por vencida. A essa altura, a Netflix já tem quase o dobro dos assinantes de seus principais concorrentes e, caso encerre a aquisição da Warner — que passa ainda pelo processo regulatório —, terá força para mirar em novos rivais. YouTube e big techs entre eles.

"Sempre que alguém declara que quer uma batalha ou uma guerra, você acorda e descobre que há outra batalha. Ainda temos concorrentes fortes em empresas como a Disney e a Amazon, não gostaria de descartá-las", disse Peters em uma roda de conversa com a Casual EXAME e outros dois veículos brasileiros na última segunda-feira, 26, durante a passagem do executivo por São Paulo. "Mas o YouTube é um concorrente formidável e está, sem dúvida, expandindo sua presença na TV. Vamos competir com eles com muita intensidade por um bom tempo."

Além dos rivais no plano digital, com a aquisição da concorrente, a companhia também parte em busca da guerra pelo cinema. No ano passado, a Warner respondeu por cerca de 25% da bilheteria de todo o mundo, guiada por sucessos como Minecraft, o FilmeSuperman e F1: O FilmeTambém se saiu soberana quando o assunto é prestígio: Pecadores bateu um recorde como o filme mais indicado da história do Oscar, com 16 nomeações em 2026.

Se a princípio o discurso da Netflix rechaçava as salas de cinema, após o pânico de Hollywood diante da aquisição da Warner, a fala da direção da gigante do streaming agora é outra. Ted Sarandos, também co-CEO ao lado, chegou a dizer no passado que diminuiria as janelas de exibição, mas já voltou atrás. Declarou que quer "ganhar a guerra da bilheteria", algo com que Peters corroborou na conversa com a imprensa brasileira.

"Debatemos bastante sobre lançamentos nos cinemas. Não era que achavamos que fosse um mau negócio. Era mais porque tínhamos outras áreas da empresa para desenvolver e decidimos priorizar. Agora, com este acordo com a Warner, já temos uma ótima equipe de lançamentos nos cinemas, bastante experiente", comentou ele. "Como o Ted disse, quando fazemos algo, tentamos fazer bem feito. Se você viu o histórico da equipe da Warner, sabe que quando eles ganharam, foi simplesmente fazendo ótimos filmes e vamos dar continuidade a isso".

Na entrevista abaixo, separamos os principais tópicos discutidos na conversa com Peters. Entre eles, o que esperar do futuro do cinema, da tecnologia, streaming e publicidade, e a importância do mercado brasileiro para a Netflix. Confira:

Na corrida com o YouTube

A plataforma de vídeos do Google, hoje uma das principais pedras no sapato não só dos streamings como também das redes sociais, atingiu valor de mercado de US$ 550 bilhões em 2025. Segue firme e forte nessa batalha, com 12,5% da audiência de TV nos EUA — contra 7,5% da Netflix, segundo dados da Nielsen. Mas ainda que sejam distintos na maneira de produzir e distribuir conteúdo, a maneira da Netflix para "vencer" os novos competidores é uma maratona de conquistas.

"É saber, em parte, em qual segmento do ecossistema você está competindo, porque ele é muito amplo atualmente, e acho que se você tentar fazer tudo, vai fracassar. Não buscamos competir com conteúdo gerado pelo usuário, porque não é nesse espaço que vamos ganhar. Existe o espaço que chamamos de conteúdo profissional", pontuou o co-CEO. "O que realmente queremos dizer é: quem é ótimo em contar uma história? Queremos competir por eles, mesmo que eles tenham começado no YouTube ou no TikTok."

No caminho até essas pessoas, Peters não descarta expandir para diferentes formatos, como podcasts em vídeo "que são um bom exemplo de podcasts em vídeo que tiramos do YouTube e colocamos exclusivamente na Netflix", complementou ele. A essência, no entanto, será o enfoque nos recursos para que a maneira de produzir esse tipo de conteúdo entre em escala profissional. "Se você tiver sucesso no YouTube e seu sonho for chegar à Netflix, isso é sucesso para nós. Queremos tornar a nossa plataforma no melhor lugar para esses criadores. É assim que competimos, é assim que vencemos."

Se for disputada nos detalhes técnicos, a guerra entre Netflix e YouTube entra em um patamar interessante. Ter o Google como aliado é uma baita vantagem para a rede social, já que o YouTube se sobressai no uso de dados e inteligência artificial para personalização extrema, o que acaba mantendo o usuário conectado por mais tempo. As recomendações de vídeos são cirúrgicas, e a possibilidade de um mar de conteúdos diário também acaba sendo mais apetitosa.

Mas a Netflix não está tão atrás, não. A plataforma tem apostado grande no aperfeiçoamento de sua IA para melhorar o sistema de recomendações, além dos investimentos pesados em infraestrutura para transmissões ao vivo — superando falhas técnicas do passado.

Hollywood: mudanças no consumo e no poder dos estúdios devem marcar o próximo ciclo (Divulgação/ Montagem EXAME)

A 'guerra pela bilheteria'

2025 foi um ano difícil para os estúdios de Los Angeles. As projeções previam uma arrecadação de US$ 33 bilhões para os cinemas, crescimento modesto de 8% acima de 2024, ainda insipiente para cobrir os números do setor antes da pandemia. Mesmo com o absoluto sucesso de Avatar: Fogo e Cinzas em dezembro, faltou tempo (e interesse do público) para atingir a meta.

A companhia do Mickey amargou estreias “boicotadas” pelo público, como Branca de Neve (US$ 204 milhões), Elio (US$ 175 milhões) e Quarteto Fantástico (US$ 522 milhões). E puxou, com isso, boa parte da indústria para baixo: em outubro, Hollywood fez em torno de US$ 425 milhões em bilheteria doméstica, o pior dos últimos 27 anos, excluindo os dois anos da pandemia. 

A aquisição da Warner, no meio dessa onda de pessimismo, deixou Los Angeles em pânico. A companhia correspondeu por cerca de 25% da bilheteria de todo o mundo no ano passado e passou para as mãos de uma empresa que já havia declarado que o cinema era algo ultrapassado. “Minha resistência tem sido principalmente em relação às longas janelas exclusivas, que não achamos muito amigáveis para o consumidor”, disse o co-CEO da Netflix, Ted Sarandos, pouco depois que anunciou a compra do estúdio centenário. Semanas depois, ele voltou atrás. Declarou que quer vencer a "guerra das bilheterias" também.

Peters, na conversa da qual a EXAME fez parte, seguiu essa última visão. Também reconheceu, entretanto, que as salas de cinema vivem um momento difícil.

"O cinema não vai desaparecer. Sabemos disso. Estamos animados para participar da disputa pela bilheteria agora que temos essa equipe experiente e consolidada, e podemos afirmar é que ele é uma parte significativa do ecossistema de conteúdo", salientou ele. "Mas os hábitos e comportamentos dos consumidores estão mudando com o tempo, e provavelmente isso significa que a distribuição de onde as pessoas assistem aos filmes também mudará um pouco.

Hoje, os filmes da Netflix chegam aos cinemas são excessões e em lançamentos de até três semanas, mais para atender às exigências da Academia que define as regras do Oscar do que pelo evento em si. A Warner, por outro lado, costuma manter os títulos em cartaz por no mínimo 45 dias antes de migrá-los para as plataformas de streaming.

(Montagem EXAME)

HBO 'de vermelho'

A Netflix colocou um bilhão a mais do que a casa do Mickey em 2017 para fechar a compra da Warner — que inclui as premiadas séries da HBO Max — por US$ 72 bilhões. Para vencer a aquisição, que também foi perseguida à exaustão pela Paramount, a plataforma de streaming ofereceu todo o valor em dinheiro. Agora, aguarda a votação dos acionistas e a aprovação regulatória, que deve ser concluída até o final de 2026.

"Temos um acordo assinado que o conselho da Warner acetou por unanimidade. Posso dizer que estamos muito perto de fechar o negócio", comentou Peters.

A compra chega em um momento de ascensão da Netflix diante do mercado, e permite um olhar mais estratégico para reposicionar a marca. À frente do mercado, com mais de 325 milhões de assinantes e receita de US$ 42 bilhões em 2025, o acesso ao catálogo da Warner acompanha o movimento da gigante do entretenimento em investir em títulos de alta qualidade — de Adolescência e Bebê Rena para cima. A mira, é claro, vai para grandes premiações da TV (e suas já reconhecidas conversões de audiência), das quais a HBO quase sempre sai como a maior campeã.

"Uma das coisas mais empolgantes sobre comprar a Warner é a própria HBO. É uma marca incrível porque oferece TV de prestígio e alta qualidade há muito, muito tempo, e os consumidores sabem o que esperar da HBO e de uma série da HBO", explicou o co-CEO à Casual EXME. "Apoiar essas equipes e dar continuidade à narrativa nesses universos gigantes vai ser o nosso trabalho, e uma das maneiras mais importantes de fazermos isso é dando a essas séries um público global maior."

Hoje, a Netflix e a HBO têm estratégias de lançamento diferentes. Enquanto a gigante do streaming em geral divulga os títulos todos de uma vez — no formato de maratona —, salvo uma exceção ou outra que acaba tendo mais de uma estreia, a plataforma da Warner aposta estreias semanais do mesmo título. É uma maneira de prolongar o assunto e oferecer ao público tempo para digerir episódio por episódio.

Peters disse à EXAME que ainda não há uma resposta clara sobre como serão as estreias da HBO assim que ela for, devidamente, parte da Netflix. Mas ressaltou que o modelo tem suas questões.

"Observamos que os lançamentos semanais, com base no que vemos, podem inibir o crescimento das séries, especialmente quando são novas e você não sabe o que esperar. É algo para se pensar. Em parte também vimos que, às vezes, quando uma série é muito aguardada, isso pode gerar mais expectativa. É uma oportunidade para aprendermos e entendermos um pouco melhor o que está acontecendo."

De olho no Brasil

O executivo desembarcou na capital paulista para conferir o mais novo escritório da empresa, na Avenida Rebouças, cuja construção custou R$ 140 milhões. A obra veio acompanhada de um crescimento de equipe de 20% no último ano, contratada para administrar uma operação que já trabalhou com mais de 40 produtoras nacionais e teve crescimento de 60% de audiência no segundo semestre de 2025.

Ainda que os Estados Unidos sejam o maior mercado atual da plataforma, o Brasil não está assim tão atrás quando o assunto é audiência e criação de novos títulos. Produções locais como Caramelo e Os Donos do Jogo alcançaram o top 10 em mais de 90 países. E parcerias com o governo e instituições como a Cinemateca Brasileira, onde a empresa investiu R$ 5 milhões, têm sido parte da máquina de crescimento da empresa no país. 

"Parte desse sucesso veio do desenvolvimento de talentos e investimento em treinamento e coisas do tipo. Outra parte vem da conversa ativa com o governo local — e nós temos boas conversas com o governo brasileiro", disse Peters. "E acho que o governo se sente à vontade para nos consultar. Parece estranho, mas às vezes somos os únicos entre nossos pares com quem há uma conversa ativa, sabe? Eles não estão falando, por algum motivo, com a Disney ou a Amazon. Talvez porque a Disney não queira muito ter esse diálogo".

Na mira no modelo de sucesso dos Estados Unidos, que crescem em audiência, assinaturas e publicidade a partir do vivo, Peters também declarou que a Netflix já tem planos para investir em transmissões esportivas no Brasil. "Não é se vamos fazer, e sim quando. Precisamos ainda estruturar essa viabilidade, ainda há direitos a serem resolvidos, mas é o caminho que esperamos trilhar.

A era dos anúncios

Nesse motor acelerado de crescimento, além dos títulos do streaming, do cinema e de todo ecossistema de conteúdo criado pela Netflix, chega a publicidade.

Antes vista com desconfiança pelos puristas do streaming, a parte de anúncios se tornou, em 2025, em uma máquina de caixa. A receita publicitária da Netflix mais que dobrou, ultrapassando a marca de US$ 1,5 bilhão. Para Greg Peters, essa frente é o trunfo para manter a escala global enquanto o mercado de assinaturas tradicionais atinge a maturidade.

"Uma das coisas que mais nos empolga nos anúncios é que eles nos dão outra maneira de estruturar uma oferta para os clientes", explicou o executivo. No Brasil, o modelo já representa uma fatia considerável: quase 30 milhões de usuários ativos consumem anúncios mensalmente. "A TV tradicional já trabalhava com isso, mas faltava segmentação e personalização, além de claro, como mensurar tudo isso. No digital, isso tudo é superado. Estamos aprendendo que podemos fazer uma segmentação cada vez melhor com base nos dados que temos disponíveis."

Esse fôlego financeiro é o que permite à Netflix entrar em campos caros e complexos, como os esportes ao vivo. Sem o suporte dos anúncios, competições de massa como o futebol americano ou o beisebol não fariam sentido econômico dentro da plataforma. Para 2026, a projeção é agressiva: dobrar novamente as vendas de anúncios para atingir US$ 3 bilhões.

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