Hong Kong tenta unir estética local e ambição internacional na disputa por espaço no calendário global de moda (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 06h22.
A terceira edição do Hong Kong Fashion Fest, encerrada há pouco, reuniu oito programas oficiais organizados por seis entidades do setor e recebeu 12 mil visitantes internacionais ligados ao comércio, além de profissionais de imprensa e da indústria. O evento nasceu de uma diretriz anunciada pelo governo local em 2023, que definiu transformar Hong Kong em um polo de design de moda na Ásia. Nesta edição, sob o tema Rhythm of the Heart, a cidade tentou equilibrar dois públicos que até então caminhavam separados: compradores profissionais e consumidores comuns.
A abertura ficou por conta do desfile Virtuose: The Artistry of Couture 2026, realizado no Hong Kong Palace Museum e assinado por quatro nomes, o espanhol Guillermo Décimo, o vietnamita Phan Huy e os locais Vivian Luk e Tigerstrolling. A passarela reuniu 39 looks e teve abertura da modelo Christina Chung, embaixadora da Chanel na região, sob supervisão da secretária de Cultura, Esportes e Turismo de Hong Kong, Rosanna Law.
Look do desfile "Virtuose: The Artistry of Couture 2026", que abriu a terceira edição do Hong Kong Fashion Fest (Divulgação)
A novidade desta edição ficou por conta do Wear's HK, projeto da Clothing Industry Training Authority que levou vinte marcas de designers locais para pontos de venda temporários em seis shoppings da cidade. No Harbour City, as peças dividiram vitrine com a Balenciaga; no Pacific Place, ficaram ao lado da Harvey Nichols. Drew Lai, comissária de indústrias culturais e criativas nomeada pelo governo, contou em entrevista à revista americana Business of Fashion que a intenção era aproximar consumidores comuns de marcas que, até então, dependiam quase exclusivamente de ateliês e mostras fechadas ao público.
O festival aconteceu em paralelo à Centrestage, feira de negócios já consolidada entre compradores internacionais, mas pouco conhecida do público geral. Segundo Lai, em entrevista ao Business of Fashion, a junção dos dois eventos permitiu que uma mesma marca apresentasse sua identidade criativa ao público, negociasse com compradores profissionais e ainda coletasse feedback direto de consumidores em um único período, prática pouco comum no calendário tradicional de moda da região.
O pano de fundo dessas mudanças é um movimento de consumo que vem ganhando força no mercado chinês nos últimos anos. Batizado de Guochao, termo que significa "onda nacional", o fenômeno reflete a preferência crescente de jovens consumidores por marcas com identidade cultural chinesa explícita, em detrimento de grifes estrangeiras.
Segundo levantamento da consultoria iiMedia Research, o mercado ligado ao Guochao deve ultrapassar 3 trilhões de yuans até 2028, equivalente a cerca de R$ 2,3 trilhões na cotação atual. O avanço já aparece em categorias distintas, do vestuário a brinquedos colecionáveis, cujo varejo doméstico somou 67,7 bilhões de yuans em 2025, alta de 45,4% frente ao ano anterior, conforme dados do China Toy and Juvenile Products Industry Development Report.
Hong Kong tenta se posicionar dentro dessa reconfiguração regional sem abrir mão do papel que exerce há décadas como entreposto comercial. A cidade recebeu 23,2 milhões de visitantes estrangeiros em 2025, o segundo maior volume do mundo em chegadas internacionais, atrás apenas de um destino, segundo a Euromonitor International. No primeiro semestre de 2026, o fluxo turístico cresceu 13%, de acordo com o Hong Kong Tourism Board.
Parte da estratégia de Hong Kong se apoia na proximidade geográfica com cidades do Delta do Rio das Pérolas, como Shenzhen e Dongguan, tradicionais centros de manufatura têxtil no sul da China. Lai afirmou à Business of Fashion que, em uma única viagem, compradores e investidores conseguem se reunir com designers locais, negociar em Hong Kong e ainda visitar fábricas no continente, o que reduz a distância entre decisão de compra e produção.
Para as próximas edições, o governo pretende medir o sucesso do festival não apenas pelo volume de vendas registrado nos pontos Wear's HK, mas também por indicadores como engajamento nas redes sociais, taxa de conversão em loja física e volume de novos pedidos gerados junto a compradores estrangeiros. A expectativa da comissária é ampliar o alcance do projeto de vendas diretas nas próximas edições, incluindo designers que ainda não participaram da iniciativa.