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Como Ray Tavares transforma a 'garota comum' em protagonista da Netflix

Em entrevista à EXAME, a autora e roteirista celebra o avanço das adaptações literárias e fala sobre a adaptação de "Os 12 Signos de Valentina" para o serviço de streaming

Ray Tavares: adaptação do primeiro romance da autora chega à Netflix em 2026 (Reprodução/Instagram/@rayctjay)

Ray Tavares: adaptação do primeiro romance da autora chega à Netflix em 2026 (Reprodução/Instagram/@rayctjay)

Giulia Polizeli
Giulia Polizeli

Estagiária de jornalismo

Publicado em 22 de setembro de 2026 às 06h10.

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Se você já assistiu a algum dos maiores sucessos brasileiros no audiovisual e no streaming recentemente, você provavelmente conhece o trabalho de Ray Tavares. Com apenas 33 anos, a escritora e roteirista assinou séries e filmes de sucesso que conquistaram o público jovem.

Afinal, quem não torceu por Anita e Fabrício em "De Volta aos 15" da Netflix? Ou suspirou por Felipe e Caio em "Quinze Dias" no cinema? Ray parece ter um toque mágico que transforma tudo o que toca em um sucesso apaixonante.

Não é surpresa, então, que ela chegue à 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026 com notícias sobre mais uma história irresistível. E, dessa vez, mais sua do que nunca. A adaptação de "Os 12 Signos de Valentina", seu primeiro romance lançado em 2017, estreia na Netflix ainda em 2026.

Para Ray, a grande sequência de adaptações literárias brasileiras — de sucesso — é reflexo de um mercado que começa a ganhar tração e espaço no audiovisual: a literatura de entretenimento.

"A gente sempre teve adaptações de livros clássicos, mas a literatura de entretenimento, que é algo que Hollywood faz muito, de adaptar livros que estão em alta, é algo que ainda não tinha pego no tranco", explica Ray em entrevista à EXAME.

A autora acredita que a chegada dos streamings mudou o cenário audiovisual brasileiro. O público sempre consumiu produtos muito particulares, como novelas, filmes pastelão ou clássicos de ação como "Tropa de Elite", porque são "linguagens que a gente já conhece".

"Com a chegada do streaming, a gente consegue entender e misturar a indústria de Hollywood com o melhor do Brasil", afirma. "E as adaptações que estão saindo são uma prova disso. A gente consegue colocar a nossa linguagem e a brasilidade dentro de uma estrutura de streaming e contar uma história maneira, como estamos acostumados."

Uma nova fase para o audiovisual brasileiro

O "boom" de produções brasileiras pode parecer algo repentino para quem acompanha as produções, mas a verdade é que esse é um trabalho de anos, com inúmeras tentativas e erros, até encontrar um formato que o público abrace.

"As pessoas brincam comigo: 'Nossa, você adapta todos os livros' e eu respondo que sim, me chamem para adaptar. Eu quero adaptar, entende? Quero que mais autores brasileiros possam adaptar suas obras", relata. "Eu fico muito feliz com esse crescimento e acho que a gente vai crescer cada vez mais."

Esse sucesso audiovisual também se traduz na entrada de centenas de pessoas na literatura, que passam a se identificar com os personagens e procurar mais detalhes sobre eles.

"Eu comecei escrevendo fanfic e, quando você começa, você replica o que você tá consumindo, e eu lia muito produtos norte-americanos, então minhas histórias eram a Ashley e o Harry se beijando nos armários, até que eu decidi ir na contramão disso e escrever uma história na cidade que eu conheço", conta Ray. "A Valentina nasceu disso."

A decisão criou uma identificação entre os leitores e a personagem, que passaram a se ver nas mesmas situações que a protagonista, como uma simples baldeação de metrô, que nas páginas significou muito. "Eu fiquei muito feliz com a recepção e, desde então, uma parte muito profunda do meu trabalho é procurar passar as histórias em lugares diferentes no Brasil."

Para Ray, a principal parte da identificação é ler o livro e pensar: "Eu posso viver essa história", o que é mais difícil no modelo americanizado. "É muito mais fácil eu achar o amor da minha vida na feira do morango. Eu gosto muito dessa identificação e acho que, cada vez mais, os produtos nacionais vão incentivar as pessoas a consumirem mais produtos nacionais. Ah, quem vem antes: a galinha ou o ovo? Tanto faz, uma coisa valoriza a outra".

Os desafios de trabalhar com escrita no Brasil

A popularização da literatura de entretenimento não apenas se traduz em mais leitores, mas também em um número maior de escritores nacionais, que sonham em publicar livros no Brasil. Apesar disso, pontua Ray, a escrita ainda não é vista como uma profissão no Brasil e falta o incentivo às artes nas escolas.

"A gente está em um país que, apesar de todos os pesares, ainda é um país com uma insegurança de estabilidade financeira. Então é claro que os pais vão sonhar que seus filhos tenham uma estabilidade", diz a escritora.

Todos os anos, Ray é convidada por um antigo professor para voltar ao colégio e conversar com os alunos. Em suas visitas, a autora vê como as crianças podem parecer desinteressadas no começo, mas a perspectiva de viver de um sonho é impossível de ignorar.

"Eles perguntam: 'Ah, mas se eu quiser desenhar, eu consigo? Se eu quiser atuar, eu consigo? E cantar?' A gente vive em um país onde as pessoas vivem e respiram arte, mas não é dada essa possibilidade para elas", relata. "É triste que a gente não incentive os sonhos dos nossos filhos, mas eu entendo de onde vem a preocupação."

O conselho de Ray para quem sonha com esse caminho é amar muito o que está fazendo. "É muito difícil e precisa ser muito racional, mas, mais importante, é preciso ser um pouco obcecado", brinca.

'Os 12 Signos de Valentina'

Em um país onde a carreira de escritor não é valorizada, muitas vezes, a literatura e o audiovisual andam lado a lado. A EXAME perguntou a Ray se, no meio dessa paixão por adaptar, existem conflitos entre a "escritora" e a "roteirista".

"Para mim, foi quase uma possibilidade de reescrever a história como uma escritora melhor, mas quando se adapta uma obra, seja a sua, seja a de outras pessoas, você vai ter que fazer concessões. Às vezes pelo bem da história e às vezes, coisas de fora", respondeu.

Ray diz entender a chateação dos leitores quando algumas mudanças acontecem, mas acredita que, às vezes, é necessário criar algo que interesse o grande público e que faça sentido para as telas. "Você só tem que preservar o que fez a obra ser amada. O que fez as pessoas se atraírem por esse livro e se conectarem", diz a autora.

Na adaptação de "Os 12 Signos de Valentina", por exemplo, ela conta que precisou fazer alguns ajustes temporais.

O livro acompanha Isadora, uma estudante de jornalismo que cria um blog sobre astrologia para testar combinações do zodíaco após um término doloroso. Em 2026, esse contexto não funcionaria para o streaming.  "Ninguém lê blog hoje em dia. É Substack, YouTube, podcast, TikTok", afirma Ray.

A série, que será lançada pela Netflix ainda neste ano, é estrelada pela atriz Giovana Grigio. Durante a participação de Ray na Bienal do Livro, um pequeno trecho do primeiro episódio foi mostrado ao público.

O lado fã da autora

Veterana das adaptações literárias brasileiras, Ray Tavares contou à EXAME qual seria sua adaptação dos sonhos. "Mirando alto", em suas palavras, a roteirista tem a resposta na ponta da língua.

"Internacionalmente, eu amo "Lugar Feliz", da Emily Henry. É o meu sonho de princesa e, para mim, o melhor livro dela. Eu ficaria muito feliz de adaptar essa história", revela.

Já a escolha para o mercado nacional não é tão simples. "Tem tantas opções. Eu queria muito fazer um filme de "Conectadas" da Clara Alves, ou algum livro de Vinícius Grossos. Também tem "Viralizou" do Juan Jullian e "Bala no Alvo e Dente de Leão" da Ju Domingues, que poderia ser uma minissérie de faroeste da Globo", diz a autora.

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