Na Ásia, geração Z aposta em peças com significado simbólico, parte do movimento que transforma sorte em símbolo de status (Reprodução/Instagram)
Jonalista colaborador
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 09h22.
Entre 2020 e 2021, tarô, numerologia, mapas astrais e testes de personalidade tomaram as redes sociais da geração Z ao redor do mundo. A pandemia funcionou como acelerador: rituais de lua cheia, memes sobre signos e explicações astrológicas para problemas amorosos viraram parte do algoritmo em praticamente todos os países. Alguns anos depois, esse interesse não desapareceu. Na Ásia, ele se transformou num mercado capaz de influenciar viagens, hábitos de consumo e compras de luxo entre os mais jovens.
A mudança aparece com clareza na China, onde consumidores da geração Z enfrentam anos de incerteza econômica num momento de desaceleração do mercado de luxo tradicional. Enquanto grifes internacionais registram queda nas vendas no país, joias inspiradas em feng shui, cristais, amuletos e acessórios carregados de significado simbólico vivem um momento de expansão entre o público jovem chinês.
Pulseira T, da Tiffany & Co., associada por consumidoras chinesas a sorte no crescimento profissional (Divulgação)
No Xiaohongshu, a hashtag #玄学, referência a estudos metafísicos e místicos da tradição chinesa, já ultrapassou 5 bilhões de usos. A pulseira Juste un Clou, da Cartier, é descrita com frequência como um talismã capaz de afastar azar e pessoas negativas. A pulseira T, da Tiffany & Co., aparece associada a crescimento profissional e novas oportunidades de carreira.
A coleção Alhambra, da Van Cleef & Arpels, inspirada no trevo de quatro folhas, se consolidou como o amuleto da vez entre consumidoras chinesas. O material da peça, madrepérola, malaquita ou ônix, define o poder atribuído a ela, do amor às finanças e às relações pessoais. Os pingentes em formato de cabaça da Qeelin, símbolo tradicional de prosperidade na cultura chinesa, seguem o mesmo caminho, assim como as pulseiras de cristais, cujas vendas online cresceram no país.
Na Coreia do Sul, um movimento parecido ganha contornos próprios. Segundo o Jing Daily, o avanço da inteligência artificial e a instabilidade profissional têm levado jovens coreanos a buscar respostas em práticas tradicionais como o saju, leitura do destino baseada em data e hora de nascimento e comparável à astrologia ocidental, além do tarô, da fisiognomia e até do xamanismo.
O que até poucos anos atrás era associado sobretudo a gerações mais velhas se popularizou nas redes sociais coreanas. Leituras de saju viraram conteúdo recorrente em plataformas digitais, passaram a ser oferecidas em festivais e eventos culturais e hoje fazem parte do processo de decisão antes de mudanças de emprego, início de relacionamentos ou lançamento de novos projetos.
Para o Jing Daily, o fenômeno vai além de um resgate da tradição. Ele reflete um comportamento de consumo em que tecnologia, espiritualidade e estilo de vida passam a conviver lado a lado. A cultura do lucky-maxxing já influencia setores como turismo, bem-estar, varejo, decoração de interiores e serviços digitais, abrindo espaço para marcas que buscam se conectar com um público mais jovem.
A combinação de incerteza econômica, crise no mercado de trabalho e avanço acelerado da inteligência artificial ajuda a explicar a adesão da geração Z ao movimento. O padrão se repete em outros momentos de instabilidade, como aconteceu durante a pandemia, quando a busca por controle sobre o próprio futuro ganhou valor de consumo entre os mais jovens. Hoje, o comportamento aparece descrito por analistas de tendência como um dos mais relevantes do consumo jovem asiático.