Dinheiro saudita: a aliança entre Donald Trump e Mohammed Bin Salman já potencializou a entrada do monarca no mercado de mídia norte-americano por meio da Paramount Skydance
Estagiária de jornalismo
Publicado em 15 de maio de 2026 às 14h49.
Em 2018, a Arábia Saudita deu um passo histórico ao revogar a proibição religiosa que vetava exibições cinematográficas no país.
Junto com a medida, o governo do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman sinalizou uma ambição mais ampla: transformar o reino, historicamente dependente do petróleo, em um polo global de entretenimento. Oito anos depois, o projeto avançou, apesar de alguns desafios.
Os sauditas mostraram que estão dispostos a conquistar Hollywood e seus artistas com aquisições multibilionárias, um festival de comédia polêmico e participação na compra da Warner pela Paramount. Além disso, o reino anunciou nesta sexta-feira, 15, esforços em atrair filmagens ao país com reembolsos de até 60% para produções rodadas em seu território.
A Arábia Saudita tem apostado em uma estratégia de investimentos massivos para ganhar espaço em Hollywood.
O Fundo de Investimento Público (PIF), o fundo soberano saudita, lidera um grupo de investidores que adquiriu a Electronic Arts, produtora de games como "Madden NFL" e "The Sims", em um negócio avaliado em US$ 55 bilhões, segundo a Variety.
Em outubro de 2025, a Arábia Saudita sediou o Festival de Comédia de Riade, evento inédito que reuniu cerca de 50 comediantes internacionais ao longo de duas semanas no Boulevard Riyadh City. O lineup incluiu nomes grandes da comédia anglófona como Jimmy Carr, Louis CK, Jack Whitehall, Kevin Hart, Dave Chappelle e Pete Davidson. Alguns desses comediantes receberam cachês que, segundo relatos, chegaram a sete dígitos.
Davidson foi direto sobre o porquê de ter participado do evento: "Vi o número e digo: 'Eu vou'." O festival foi parte da estratégia estatal de abertura cultural do reino, mas gerou críticas contundentes de outros artistas, que acusaram os participantes de emprestar reputações a um regime autoritário em troca de dinheiro. O festival também foi acusado pela Human Rights Watch de utilizar trabalho análogo à escravidão na produção.
A presença de dinheiro e influência saudita nos bastidores de Hollywood ganhou contornos ainda mais explícitos no ano passado. O presidente Donald Trump recebeu o príncipe Mohammed bin Salman em Washington em novembro de 2025. O jantar de gala foi organizado em homenagem ao líder saudita e reuniu, entre outros convidados, o CEO da Paramount Skydance, David Ellison.
O encontro não ocorreu por acaso. O PIF também integra um pacote de financiamento de US$ 24 bilhões que sustenta a aquisição da Warner Bros. Discovery pela empresa de Ellison. Agora, com a compra finalizada, a monarquia saudita terá uma participação acionária de 15,1% nas empresas, avaliada em aproximadamente US$ 10 bilhões, de acordo com documento protocolado pela Paramount na Comissão Federal de Comunicação (FCC) americana.
Para a saudita Rasha AlEmam, que atuou como produtora executiva no filme Desert Warrior e atualmente comanda o Yellow Camel Studios, o acordo Paramount-Warner Bros. posicionará a Arábia Saudita como parte interessada na criação e distribuição de conteúdo em Hollywood. Segundo ela, os estúdios americanos agora serão "menos relutantes" em filmar na Arábia Saudita.
"Pode ajudar a fechar a lacuna", disse à Variety.
No lado da produção, a Arábia Saudita anunciou nesta sexta-feira, 15, no Festival de Cannes, um aumento expressivo no reembolso em dinheiro oferecido a produções internacionais que filmem no reino. O novo teto chegou a 60% dos gastos locais elegíveis, o que posiciona o país no topo do ranking mundial de incentivos cinematográficos, bem acima dos programas europeus, que costumam ficar entre 25% e 40%, segundo o Hollywood Reporter.
O programa revisado, apresentado pelo CEO da Comissão de Cinema Saudita, Abdullah bin Nasser Al-Qahtani, durante o Marché du Film em Cannes, também prevê processos de desembolso mais rápidos e um novo pacote de soluções de financiamento desenvolvido em parceria com o Fundo de Desenvolvimento Cultural, agência estatal que direciona capital para projetos culturais sauditas.
A iniciativa integra a Visão 2030 do príncipe Mohammed bin Salman, programa de diversificação econômica que tem o setor audiovisual como um de seus pilares criativos.
O maior símbolo das dificuldades sauditas até agora foi Desert Warrior, uma superprodução de US$ 150 milhões estrelada por Anthony Mackie e financiada pela emissora MBC como o veículo que colocaria o reino no mapa do cinema mundial. O filme estreou em 23 de abril e arrecadou apenas US$ 700 mil nos Estados Unidos e no mundo árabe nas duas primeiras semanas, um fracasso retumbante, segundo a Variety.
O caso levanta questões sobre a alocação de capital no mercado saudita.
Outro exemplo da política de gastos elevados é 7 Dogs, thriller de ação dirigido pela dupla belga-marroquina Adil El Arbi e Bilall Fallah, rodado no deserto próximo a Riade com orçamento oficial de US$ 40 milhões, mas que pode ter chegado a US$ 70 milhões.
O filme detém o recorde mundial da maior explosão em um set cinematográfico, superando 007: Sem Tempo Para Morrer (2021) e Spectre (2015), mas ainda não está claro se a pirotecnia se converterá em bilheteria expressiva quando o longa estrear no Oriente Médio, no dia 27 de maio.
"Há claramente ambição, o que é positivo, mas o modelo atual é de alto risco e não necessariamente alinhado com como indústrias sustentáveis são tipicamente construídas", disse à Variety um especialista da indústria árabe que preferiu não ser identificado.
Paradoxalmente, os maiores sucessos cinematográficos sauditas recentes são produções menores e mais autorais.
O thriller satírico Mandoob (2023), sobre um homem que se torna contrabandista de bebidas alcoólicas após perder o emprego, bateu recordes de bilheteria na Arábia Saudita. O longa superou lançamentos como Wonka, com Timothée Chalamet, e chamou a atenção de executivos americanos no Festival de Toronto, segundo a Variety. Já Alzarfa: Escape from Hanhounia Hell, comédia de assalto com três amigos presos, superou F1: O Filme nas bilheterias sauditas no ano passado.
"São filmes inovadores, feitos por artistas locais que realmente amam representar sua cultura", disse ao veículo Alaa Faden, CEO do Telfaz11 Studios.
Para o analista egípcio Alaa Karkouti, que coordena o Centro de Cinema Árabe em Cannes, há sinais positivos e uma lição aprendida. "Eles estão começando a perceber que não se trata de gastar dinheiro loucamente", disse ele à Variety.