A governança de dados é essencial para a segurança e inovação no transporte público moderno (Divulgação/Governo de São Paulo)
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Publicado em 1 de abril de 2026 às 13h00.
Por Bruno Berezin*
A digitalização transformou profundamente a forma como as pessoas se deslocam nas grandes cidades. Pagamentos por aproximação, carteiras digitais e a integração entre diferentes modais tornaram o transporte público mais simples e acessível para milhões de passageiros.
Esse avanço, porém, trouxe um novo desafio para o setor de mobilidade urbana: a governança de dados. Durante muito tempo, a discussão sobre proteção de dados no Brasil ficou restrita ao campo jurídico e regulatório.
Com a consolidação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), muitas empresas passaram a estruturar áreas de compliance e privacidade principalmente para atender às exigências legais.
Em setores que operam infraestruturas críticas e altamente digitalizadas, como o transporte público, essa visão é insuficiente.
A governança de dados deixou de ser apenas uma obrigação regulatória e passou a ser um elemento estratégico para garantir confiança, eficiência e continuidade de serviços essenciais.
Nos sistemas de bilhetagem eletrônica, por exemplo, são processadas diariamente milhões de transações relacionadas a deslocamentos, meios de pagamento e comportamento de mobilidade. Ao longo de um ano, esse volume pode chegar à casa do bilhão de operações.
Mais do que um desafio tecnológico, trata-se de uma enorme responsabilidade na proteção das informações do cidadão.
Por isso, a governança de dados precisa ser tratada como um pilar institucional.
Na prática, isso significa ir além de políticas formais e envolver a liderança executiva, estruturas dedicadas de privacidade, Data Protection Officers (DPOs) atuantes e comitês estratégicos capazes de acompanhar riscos e decisões relacionadas ao tema.
Também implica adotar padrões internacionais de segurança da informação. Um dos principais referenciais globais é a ISO/IEC 27001, que estabelece requisitos para sistemas de gestão de segurança da informação.
No caso das transações financeiras, o ecossistema opera sob o padrão PCI DSS, utilizado mundialmente para proteger operações com cartões e meios de pagamento.
Certificações e normas, no entanto, são apenas parte da equação. A proteção efetiva acontece no desenho da arquitetura tecnológica e dos processos operacionais.
Uma estratégia moderna de segurança trabalha com múltiplas camadas de proteção, incluindo criptografia de ponta a ponta, tokenização de dados sensíveis, controle rigoroso de acessos e monitoramento contínuo por centros especializados capazes de identificar comportamentos anômalos em tempo real.
Esse modelo se tornou ainda mais necessário com a expansão da mobilidade digital. Hoje, o transporte opera em um ambiente conectado que envolve dispositivos móveis, instituições financeiras, bandeiras de pagamento, aplicativos, APIs, parceiros tecnológicos e infraestrutura em nuvem.
Cada nova integração amplia o potencial de inovação, mas também exige uma gestão cada vez mais sofisticada de riscos.
É justamente nesse ponto que a governança de dados passa a gerar valor não apenas para as empresas, mas também para as cidades.
Organizações que demonstram maturidade em compliance, gestão de riscos e proteção de dados tendem a ser percebidas como mais confiáveis para operar infraestruturas críticas.
E confiança é um ativo essencial quando se trata de serviços que impactam milhões de pessoas todos os dias. Uma governança sólida também melhora a qualidade das informações disponíveis para o planejamento urbano.
Dados bem tratados ajudam a compreender padrões de deslocamento, identificar gargalos de mobilidade e apoiar políticas públicas mais eficientes.
Em outras palavras, proteger dados não significa limitar seu uso. Significa garantir que eles possam ser utilizados com responsabilidade, transparência e segurança.
Além disso, uma base de dados bem governada abre espaço para inovação. Novos serviços digitais, integração tarifária mais inteligente, experiências de pagamento por aproximação mais fluidas e soluções de mobilidade como serviço dependem de um ambiente em que os dados possam circular com segurança jurídica e tecnológica.
O transporte público está no centro da agenda de transformação das cidades. Sistemas mais inteligentes, conectados e integrados fazem parte da resposta para desafios como congestionamento, sustentabilidade e inclusão social.
Mas nenhuma transformação digital se sustenta sem confiança. No setor de mobilidade, essa confiança é construída diariamente por meio de governança, transparência e responsabilidade no tratamento das informações.
Por isso, mais do que uma exigência regulatória, a governança de dados se tornou um dos pilares da mobilidade urbana do futuro.
* Bruno Berezin é CEO da Autopass, e lidera iniciativas voltadas à democratização da mobilidade urbana, com foco em eficiência, inovação e na experiência do passageiro.