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Debate sobre nicotina e tabagismo ganha força entre especialistas

Em encontro inédito no país, especialistas internacionais discutem a dissociação entre nicotina e combustão para modernizar políticas de saúde pública e reduzir danos do tabagismo

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Publicado em 13 de abril de 2026 às 13h26.

Última atualização em 7 de maio de 2026 às 16h10.

Em um momento em que o debate internacional sobre nicotina passa por uma revisão baseada em evidências científicas, o Brasil ainda opera sob premissas que começam a ser questionadas fora do país. Esse foi o principal ponto discutido por especialistas internacionais reunidos nesta sexta-feira (10), durante o simpósio Nicotina em Foco: Molécula, Evidências e Oportunidades em Pesquisa.

Primeiro encontro no país dedicado exclusivamente ao estudo da nicotina como molécula, o evento reuniu pesquisadores da Áustria, Grécia e Índia com uma proposta direta: deslocar o foco do debate dos meios de consumo, como o cigarro, para a análise científica da substância e seu real perfil de risco.

Participaram do encontro o farmacologista austríaco Bernhard Michael Mayer, o cardiologista grego Constantinos Farsalinos e o médico indiano Rohan Sequeira. A convergência entre suas especialidades reforça uma distinção central na literatura científica: nicotina e combustão não são a mesma coisa.

“A nicotina é associada aos danos do tabagismo porque, historicamente, foi consumida por meio da combustão”, afirmou Farsalinos. Segundo ele, o equívoco persiste inclusive entre médicos: entre 75% e 80% ainda associam a substância ao câncer, enquanto mais de 80% a relacionam a doenças cardiovasculares, uma percepção não sustentada pelas evidências mais recentes.

Estudos apresentados no simpósio indicam que produtos sem combustão não reproduzem o padrão de doenças do cigarro. Dados científicos sobre o uso de snus (sachês de nicotina) indicam ausência de aumento relevante de risco para câncer ou doenças cardiovasculares. “Se a nicotina fosse a principal causa, veríamos o mesmo padrão, e isso não acontece”, disse. “As pessoas fumam por causa da nicotina, mas morrem por causa do alcatrão.”

Para Sequeira, a discussão exige mudança de abordagem. “O desafio não é classificar a nicotina como boa ou ruim, mas entender seu perfil de risco de forma proporcional.” Dados do projeto canadense International Tobacco Control (ITC) mostram que 53,8% dos consumidores de alternativas tentaram parar de fumar, contra 36,3% entre não usuários, com até três vezes mais chance de cessação.

Além disso, análises toxicológicas indicam reduções de 80% a 99,9% na exposição a compostos nocivos quando a combustão é eliminada, base do conceito de redução de danos.

Mayer reforçou a distinção central: “O dano do tabagismo está ligado à combustão. A nicotina mantém o comportamento, mas não é o principal vetor das doenças.”

Na contramão do mundo

O Brasil, historicamente bem-sucedido no controle do tabagismo, vive um ponto de inflexão. A prevalência caiu de 34,8% no fim dos anos 1980 para cerca de 12,6% em 2019 (Vigitel), mas a queda desacelerou. Hoje, cerca de 20 milhões de brasileiros ainda fumam.

Ao mesmo tempo, o padrão de consumo mudou. Dados da PeNSE (IBGE) mostram que 16,8% dos estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram cigarros eletrônicos, mesmo com a proibição. Na prática, o consumo ocorre fora de qualquer estrutura regulatória, sem controle de qualidade, rastreabilidade ou fiscalização.

Estudos citados pelos especialistas indicam ainda que entre 40% e 50% dos pacientes com doenças cardiovasculares continuam fumando, evidenciando os limites da abordagem atual. “Quando você proíbe, não elimina o uso — apenas perde a capacidade de controlar”, afirmou Farsalinos.

Enquanto países como Reino Unido e Suécia adotam estratégias baseadas em redução de danos e aceleram a queda do tabagismo, o Brasil mantém uma lógica uniforme de regulação. “A pergunta não é se o uso vai existir, mas em que condições ele acontece”, resumiu Sequeira.

O simpósio deixou um recado claro: o debate global sobre nicotina já mudou. No Brasil, essa transformação ainda não se refletiu plenamente em políticas públicas. “Hoje, o maior risco não é apenas o produto, mas o descompasso entre ciência e regulação”, concluiu Mayer.

 

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