Dex Hunter-Torricke, à direita, ao lado da organizadora do Horizons 2026, Mônica Kruglianskas (Horizons 2026/Divulgação)
Repórter Bússola
Publicado em 13 de maio de 2026 às 08h00.
Última atualização em 13 de maio de 2026 às 10h49.
Eles agiam na calada da noite. Empunhando marretas, os Ludidas invadiam fábricas para destruir as máquinas da Revolução Industrial. 200 anos depois o mesmo termo está sendo usado de forma pejorativa para nomear os detratores da IA. Do outro lado, os entusiastas desta tecnologia recebem apelidos que fariam torcidas de futebol rivais se espantarem. Na contramão dessa polarização, há pessoas como Dex Hunter-Torricke.
Ex-diretor de comunicação da SpaceX, com passagens semelhantes pela Google e a Meta, Dex conhece os bastidores da inteligência artificial e, por meio da sua OSC, a Center of Tomorrow, trabalha a favor de um futuro onde essa tecnologia não é extinta nem maximizada, mas evolui conosco como aliada humana. Para ele, essa abordagem de IA sustentável seria a solução para os atuais problemas socioeconômicos e ambientais – e também para a taxa de 95% de iniciativas de IA que falham.
“Em IA, companhias podem fazer tudo de forma 100% correta e ainda assim falhar se não existir uma transformação sistêmica maior de nossas economias”, disse em entrevista durante o Horizons 2026 – evento realizado nos últimos dias 6 e 7 em São Paulo e que juntou mais de 700 líderes para falar sobre “inovabilidade” (inovação + sustentabilidade).
Durante nossa conversa, ficou claro que garantir o retorno do investimento em iniciativas de IA e parar consequências ambientais e socioeconômicas são objetivos diferentes que requerem a mesma abordagem. “Temos tudo que é preciso e não é uma questão técnica, mas de escolha”. Dex deixou claro que tudo é possível, mas antes de falar do futuro, nos concentramos em resolver um dilema:
“É preciso que os líderes sejam mais intelectualmente curiosos quanto à IA. Hoje, a maioria está muito distante dessa tecnologia. Eles contratam níveis e mais níveis de profissionais, mas não saberiam dizer: quanto a IA está sendo utilizada? Quanto ela melhorou a colaboração entre times e otimizou fluxos de trabalho? Essas são coisas importantes que eu gostaria de saber se fosse CEO”, explicou.
A participação ativa dos líderes serviria para contrapor a raíz do problema: a tecnologia é muito nova enquanto os processos são arcaicos. Em um dos exemplos retirado de sua trajetória, ele citou uma organização onde a implementação da IA apenas aumentou a quantidade de relatórios que já eram gerados. “Em vez de tornar seus funcionários mais produtivos, criaram uma quantidade enorme de trabalho novo sem valor para a organização”.
Dex, que trabalhou diretamente com Elon Musk, também utilizou o CEO da Tesla como exemplo: “ Você pode desacelerar um pouco e entender melhor a IA na operação. Eu discordo imensamente do Elon em uma série de coisas, mas ele é um exemplo disso. A pessoa mais rica do mundo passou muito tempo exigindo que suas empresas reconhecessem como mudanças operacionais muito pequenas podem, em última análise, moldar radicalmente o seu sucesso”.
Uma das regras famosas de Musk que discutimos foi a de que qualquer colaborador, se não tivesse com o que colaborar, poderia levantar-se e deixar uma reunião. Em suma, o empreendedor, executivo ou CEO que deseja sucesso na implementação de IA precisa colocar a mão na massa.
“Se eu fosse um CEO, exigiria atualizações diárias sobre o que está acontecendo com nossa estratégia de IA. Pediria exemplos concretos do que está mudando como resultado da IA e o que meus outros líderes fizeram para remodelar processos, trabalho e cultura para maximizar a utilidade dessas ferramentas. E se as pessoas não pudessem me dar exemplos precisos e me dizer como mediram esses efeitos e como os estão medindo continuamente, eu diria: 'vão fazer o dever de casa'."
O sucesso e a competitividade das empresas dentro do campo da IA é importante, pois também é delas a responsabilidade pelo futuro sustentável. Como cita a organizadora do Horizons 2026, Mônica Kruglianskas, Professora e Coordenadora Adjunta da FIA, “o que a gente chama de tríplice hélice é o que faz as coisas acontecerem: uma união entre o setor privado, o setor público e a academia”.
A combinação das forças é uma das principais estratégias por trás do evento e do trabalho que Dex tem realizado desde a fundação do Center of Tomorrow. É a partir deste ponto que se desenvolve a estratégia que visa colocar a questão da IA sustentável no centro do debate público.
No começo deste ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou a projeção do PIB global de 3,3%, potencializada principalmente pelos investimentos em inteligência artificial. No entanto, também foi ressaltado o risco a cerca de 33% dos empregos em países emergentes. Segundo a diretora-geral Kristalina Georgieva, em Davos, estes estados estão “para trás” nas categorias infraestrutura, habilidades no mercado de trabalho, regulamentação e ética, e difusão.
Dex ressalta uma frase que foi dita, também em Davos, por Mark Carney: “ou você tem um lugar à mesa, ou você está no menu”. No Brasil já existe uma agenda voltada para a soberania em IA, que inclui movimentos como a criação da Nuvem de Governo, com servidores em território nacional. Para Dex, no entanto, nossa agenda, assim como a de outros países, falha ao excluir a solução verdadeira: cooperação global massiva.
"Existe uma agenda em torno da soberania da IA sobre a qual muitos governos têm falado ultimamente. Essas agendas vão falhar. Isso porque a maior parte delas trata a soberania como autossuficiência. Tentar construir os próprios modelos, construir a própria infraestrutura de IA... Mas não existem países com os recursos para competir com as empresas dos EUA e da China. A solução real é a cooperação global massiva entre os países que enfrentam os mesmos problemas.
Atualmente, o Brasil discute intensamente a redução da escala de trabalho de seis dias semanais para cinco. O uso da inteligência artificial, feito de forma sustentável, possibilitaria esta mudança, gerando maior qualidade de vida para a população. Utilizando este assunto como ponto de partida, e explorando as discussões europeias quanto à escala 4x3, Dex encontrou uma forma eficaz de explicar como funcionaria a cooperação entre países:
“Esse é um exemplo perfeito de algo que, por meio da cooperação internacional, você poderia chegar a um modelo muito melhor de nossa economia. Se você reunisse um clube de nações, se o Brasil viesse à mesa com a Índia, a Europa e o Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, e todos disséssemos: 'Vamos concordar, trabalharemos apenas quatro dias por semana'. As coisas mudariam. O mesmo poderíamos fazer com a IA".
A cooperação global que Dex discute incluiria a negociação com os países que lideram o fornecimento da inteligência artificial. No caso, EUA e China. Neste cenário, o Brasil se destaca. Há pouco recebemos as demais nações em Belém, durante a COP30, onde o país demonstrou novamente o protagonismo na agenda de proteção ambiental. Este seria nosso maior “trunfo”.
“O Brasil é obviamente o lar de enormes quantidades de recursos que são críticos para nações em todo o mundo e, como o lar da Amazônia também, tem um papel central a desempenhar no combate às mudanças climáticas. A liderança que o Brasil demonstra nas mudanças climáticas se tornará absolutamente uma parte crítica para iluminar as soluções que o resto do mundo também precisa abraçar em relação a essas coisas."
Quase 50% dos jovens da geração z já temem a substituição causada pela IA, e o entusiasmo reduz um pouco mais a cada nova pesquisa. A percepção quanto à tecnologia em si é muito dificilmente separada da percepção quanto à forma que ela está sendo utilizada, mas parte do trabalho de Dex, da Center of Tomorrow e do Horizons 2026 é justamente este: desmistificar, informar e avançar o debate.
“Eventos como o Horizons, onde se encontram muitos líderes que passaram muito tempo desenvolvendo soluções em IA, são onde conseguimos compartilhar nossas visões e preencher as lacunas. Reunir as pessoas é genuinamente, eu acho, a única maneira pela qual você pode criar uma versão compartilhada da realidade, onde chegamos a soluções muito melhores”, disse o fundador da Center of Tomorrow.
"É tudo cooperação. O setor público traz a regulação necessária, a academia traz o estudo sobre o impacto ambiental dessas ferramentas, e o setor privado coloca isso em prática. Essa união é o que garante que a IA não seja apenas produtiva, mas responsável", completa Mônica Kruglianskas.
Dex ressaltou que a tecnologia é incrível e, para os comunicadores como ele, resta mostrar os efeitos positivos e histórias positivas sobre ela como forma de ultrapassar a barreira criada pela experiências negativas. O avanço da discussão sobre IA sustentável na esfera pública é uma questão de planejamento do futuro.
"Estamos construindo uma tecnologia que pode, potencialmente, nos ajudar a curar todas as doenças, que pode resolver as mudanças climáticas, que pode tirar todos da pobreza. Todo este conjunto de desafios é, na verdade, sobre que tipo de vida queremos dar aos nossos filhos. Eles terão vidas boas, mas isso exigirá que façamos agora uma série de coisas que são extremamente inconvenientes como sociedades, e teremos que ter coragem", conclui.