Lula durante discurso na ONU (Ricardo Stuckert / PR/Divulgação)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 11h03.
Última atualização em 22 de setembro de 2026 às 12h22.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um discurso repleto de contrapontos à política externa dos Estados Unidos e de recados ao governo do presidente americano Donald Trump na abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Lula defendeu o sistema eleitoral brasileiro e o Pix e pediu a regulamentação internacional de big techs. Também afirmou que o povo venezuelano merece decidir sobre seu destino, em alusão à permanência de Delcy Rodríguez na presidência da Venezuela após a derrocada do ditador Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, e criticou a decisão do regime de Daniel Ortega, na Nicarágua, de não realizar eleições.
A fala ocorre em meio à aplicação, pelos Estados Unidos, de novos tarifaços sobre as exportações brasileiras para o país. O discurso de Lula é realizado a 12 dias do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, mas sem citar nominalmente o presidente americano Donald Trump.
Como já era esperado, no entanto, o presidente brasileiro fez contrapontos ao americano ao defender o multilateralismo, uma reforma do Conselho de Segurança da ONU e a não intervenção estrangeira nos países.
Lula iniciou sua fala afirmando que as Nações Unidas vivem seu "momento mais crítico" e que sofrem com a falta de credibilidade ao falharem em evitar conflitos armados. "A guerra não é a continuação da política por outros meios; é a falência total da política", disse.
"Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um estadista."
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2026 (Lia Rizzo/Exame)
"A divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem visões anacrônicas", afirmou.
E enumerou alguns casos:
"O povo venezuelano merece definir o seu próprio destino. Na Nicarágua, a força não vai resolver os seus problemas, impedindo a oposição de disputar eleições. A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional. Em Cuba, o mundo assiste à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais."
O presidente brasileiro falou após o secretário-geral da ONU, o português António Guterres, que falou por pouco mais de meia hora e foi aplaudido de pé. A assembleia é a última de Guterres no cargo. Em seguida, também antes de Lula, falou o presidente da 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU e ministro das Relações Exteriores de Bangladesh, Khalilur Rahman.
Lula voltou a criticar publicamente o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, único líder no cargo citado em seu discurso nominalmente. "Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza", disse. Ele também condenou os atos terroristas do grupo palestino Hamas.
"Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes. A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade", afirmou Lula. A fala foi aplaudida pelos diplomatas e políticos presentes no local.
Lula fazia referência à decisão do Tribunal de emitir um mandado de prisão contra Netanyahu, em novembro de 2024, pela prática de crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante o conflito em Gaza, incluindo o "uso da fome como método de guerra" e ataques direcionados contra civis palestinos.
Quanto a Albanese, que é Relatora Especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, Lula faz alusão à pressão do governo de Israel por sua renúncia e acusações de antissemitismo. A diplomata, crítica das ações militares de Israel contra civis palestinos, já relatou ter sido ameaçada de morte.