Perna Cabeluda: captura de tela dos arquivos do Diário de Pernambuco mostra primeira edição do 'Romance Policial' (Diário de Pernambuco/Arquivos)
Repórter
Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 06h00.
Quase 50 anos depois da primeira reportagem, a lenda da Perna Cabeluda volta ao centro das conversas no Recife — agora impulsionada pela estreia de O Agente Secreto, novo filme de Kléber Mendonça Filho que resgata a criatura fantasmagórica nas telas e a leva de volta ao cenário da ditadura militar.
Antes de ser personagem de cinema, no entanto, a perna sem tronco nem cabeça nasceu oficialmente nas páginas do Diário de Pernambuco, nos anos 1970. A EXAME conversou com a redação do Diário alguns meses atrás para reportar a celebração dos 200 anos do jornal — o mais antigo em circulação na América Latina —, e aproveitou o contato para questionar: afinal, como começou essa história de perna cabeluda?
O ano era 1975, exatamente no meio da ditadura militar brasileira, e o contexto era de censura explícita. Numa redação superlotada no Recife, um censor circulava entre as mesas encarregado de checar, linha a linha, o que seria publicado.
Lá, quando não estava correndo atrás de uma história, também ficava o repórter policial Raimundo Carrero. Um dia recebera um personagem improvável na redação: um homem de São Lourenço da Mata, “com hematomas nos olhos, escoriações pelo corpo e semblante desesperado”, invadiu o jornal para contar que havia sido espancado por uma perna.
“Cheguei em casa e encontrei uma perna cabeluda do lado da minha mulher. Foi o momento mais triste da minha vida”, relatou, segundo texto resgatado pelo Diário de Pernambuco. Ao jornal, o repórter lembra de ter reagido com ironia: “E tua mulher se realiza só com uma perna?”.
Segundo Carrero em entrevista ao Diário, a orientação da ditadura era clara: estavam vetadas críticas ao regime e notícias sobre violência contra a mulher, defloramento e qualquer assunto considerado moralmente sensível.
Foi da irritação com essa mordaça que nasceu a seção “Romance policial”, proposta pelo então editor de Justiça, Og Fernandes, hoje ministro do STJ. A ideia era reservar um espaço dominical para “casos fantásticos”: histórias que podiam ser lidas como ficção, mas dialogavam diretamente com o cotidiano do Recife.
Dentro dessa fresta criativa, a Perna Cabeluda deu o primeiro chute no imaginário popular.Segundo reportagens do Diário de Pernambuco, a primeira matéria sobre a assombração foi publicada em 10 de dezembro de 1975, com o título “Perna fantasma surge em moradia em Tiúma”.
Primeira menção da Perna Cabeluda foi feita em 1975 no Diário de Pernambuco (Diário de Pernambuco/Arquivos)
O texto narrava as aparições de uma perna em uma casa na Rua da Amendoim, em Tiúma, observadas por um garoto identificado como Wanderley, e descrevia a movimentação de pastor, padre e grupo de espíritas em torno do fenômeno. “Deste ou de outro mundo, o fato é que a imagem da perna aparece”, registrou o jornal.
Pouco depois, em 1º de fevereiro de 1976, Carrero assinou o “romance policial” que consolidaria a criatura.
“A perna cabeluda está em Olinda (...) uma pessoa fora agredida, levara três pernadas no pescoço, uma na barriga, sangrando fora socorrida por populares e estava, agora, no Hospital da Restauração”, diz o trecho.
Em outro momento, a matéria descreve uma mulher jogada na rua após apanhar do marido, enquanto a perna “morria de rir” ao lado da cama.
Mistério da Perna Cabeluda foi história de estreia no "Romance policial" do Diário de Pernambuco, onde realidade e magia se misturavam (Diário de Pernambuco/Arquivos)
Ao revisitar a lenda quase meio século depois, a jornalista Marília Parente ouviu de Carrero que, no subsolo do Hospital da Restauração, funcionava um pequeno posto da polícia. Ali, mulheres agredidas que não podiam admitir que tinham apanhado do marido recorriam à mesma desculpa: diziam que a agressora era a Perna Cabeluda.
“A maioria das histórias que começaram a circular na cidade sobre a perna cabeluda envolviam casos de violência contra a mulher”, afirmou o repórter ao Diário.Para Parente, que recontou a origem da lenda no especial de 200 anos do jornal, a criatura é uma síntese do período. “Era proibido noticiar casos de violência contra a mulher. Então o fantástico serviu como saída para falar de uma realidade que estava ali, mas não podia ser escrita com todas as letras”, disse a jornalista.
No filme, Kleber Mendonça parece recuperar a versão de Perna Cabeluda que ouviu na infância: menos ligada a denúncias de violência e mais tratada como assombração. A primeira aparição da criatura é justamente quando ela é retirada de dentro da barriga de um tubarão.
Quando começamos a investigar a origem dessa lenda, porém, ninguém sabia explicar de onde vinha a ligação com o animal marinho. “É tudo 90% lenda, 10% verdade, e às vezes não dá para saber qual é qual”, resumiu, em tom de brincadeira, um dos jornalistas do Diário.
A pista mais concreta só aparece depois, nos próprios arquivos do jornal. Em uma reportagem de fevereiro de 1976 sobre carros alegóricos, a EXAME encontrou a foto de um enorme tubarão montado sobre um automóvel, com a “Perna Cabeluda” presa entre os dentes. O carro era uma homenagem ao filme Tubarão, recém-lançado nos cinemas — o mesmo clássico que volta a ser referenciado em O Agente Secreto.
Tubarão da Perna Cabeluda: conexão entre animal e mistério apresentado em filme nasceu das misturas da cultura popular na época (Diário de Pernambuco/Arquivos)
Ali, carnaval e imprensa faziam o cruzamento que o cinema agora leva ao extremo: a perna fantasmagórica engolida por um tubarão já tinha sido imaginada, pelo menos, na passarela.
A essa altura, a criatura já tinha saído das páginas do jornal para o imaginário coletivo. Se nas páginas do Diário a assombração rendia literatura, nas ruas do Recife ela virava cultura popular. Em 1976, o jornal noticiava blocos de carnaval, cordéis e músicas dedicadas à Perna Cabeluda; a figura batizava troças inteiras e estampava estandartes e fantasias.
“Ninguém queria estar no centro da cidade à noite. Tinha gente que jurava de pé junto que tinha visto a tal Perna Cabeluda”, lembra um recifense que era criança na época. O medo e a brincadeira andavam juntos — e, nesse caso, sem tubarão à vista.
Desenho da Perna Cabeluda no Diário de Pernambuco: 'assombração' assustava as crianças pernambucanas da época (Diário de Pernambuco/Arquivos)
Nos mesmos cadernos antigos, um desenho enviado por um menino de 7 anos, Franklin Costa Cordouro, traz a legenda “A Perna Cabeluda” em uma cena de barco, com personagens à deriva.
Hoje, adulto, ele conta que o pai lhe disse que a criatura teria sido encontrada morta por um pescador e capturada pelo Exército — versão que, para as crianças do bairro, encerrava a ameaça de uma vez por todas.
Entre o carro alegórico, o desenho do garoto e as memórias fragmentadas de quem viveu aquela época, o que sobra é um mosaico de versões. O filme de Kleber Mendonça apenas empurra essa colagem um pouco mais longe, transformando em cena aquilo que, por décadas, existiu misturado em manchetes, blocos de carnaval e conversas de quintal.