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Eliana Alves Cruz acredita que 'O direito de sonhar é um privilégio'

Em conversa com a EXAME, Eliana Alves Cruz fala sobre 'Escreviventes', projeto criado ao lado de Conceição Evaristo, e a iniciativa de preservar diálogos entre diferentes gerações da literatura brasileira

Eliana Alves Cruz: autora lança "Escreviventes" ao lado de Conceição Evaristo (Reprodução/Instagram/@elialvescruz)

Eliana Alves Cruz: autora lança "Escreviventes" ao lado de Conceição Evaristo (Reprodução/Instagram/@elialvescruz)

Giulia Polizeli
Giulia Polizeli

Estagiária de jornalismo

Publicado em 9 de setembro de 2026 às 15h16.

Última atualização em 11 de setembro de 2026 às 15h20.

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Eliana Alves Cruz chega à 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo direto de um avião que veio de terras cariocas. Vestida de roupas brancas e acessórios marcantes, está pronta para abrir o evento com a primeira palestra da Arena Cultural, principal palco do lugar.

Aos 60 anos, Eliana é vencedora do "Prêmio Jabuti de Contos 2022" com "A Vestida" e do "Romance do Ano 2025", sendo este "Meridiana", pela Academia Brasileira de Letras. Agora, ela lança o projeto "Escreviventes", um projeto de conversa e celebração com Conceição Evaristo, um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Celebração de quê? Dos 80 anos de Conceição Evaristo, dos 60 de Eliana, de uma conversa entre diferentes gerações da literatura negra, do direito de sonhar literatura.

'Escreviventes'

"Escreviventes" é o primeiro título da Coleção Memórias Brasileiras e é descrito como um presente das amigas e autoras, fruto de uma conversa íntima sobre suas infâncias, criações literárias e afetos.

Para Eliana, o livro revela a conversa entre duas mulheres que trilharam um longo caminho até chegarem aonde estão e "que são fruto de uma coletividade que luta por um lugar na escrita e na publicação, por ter as histórias valorizadas há muitos séculos".

"São mulheres que, finalmente, conseguem galgar alguns lugares na literatura nacional e que estão ali num diálogo intergeracional, porque eu poderia ser filha da Conceição", diz Eliana em conversa com a EXAME. "Mas também é um diálogo que aproxima demais e pretende estabelecer uma aliança ainda mais forte, não só entre nós duas, mas com toda a coletividade que admira nosso trabalho."

Esse registro vai além da escrita e da literatura, e pode chegar ao audiovisual. Dirigida por Estevão Ribeiro, a gravação traz imagens históricas da vida de Conceição e de quem veio antes. A versão em vídeo da conversa, apesar de pronta, aguarda financiamento para chegar ao público.

O projeto foi berço para o Memórias Brasileiras, que busca o encontro de mais autores e autoras para travar esse diálogo e deixar isso como legado.

"Poxa, como seria bonito se a gente hoje tivesse esse registro entre, por exemplo, Lélia González e Beatriz Nascimento ou Caetano de Maria de Jesus e alguém contemporâneo. Como seria valioso, e elas não deixaram isso. Não tiveram tempo de deixar esse material. Então, vamos nós, aqui, fazer esse movimento", afirma.

Um sonho na literatura

Esses registros dos antepassados da literatura são um sonho de todo apreciador da literatura negra brasileira, assim como de Eliana, que acredita que "o direito de sonhar é um privilégio".

"A gente tem um país com uma população tão vulnerada; se não está na linha da pobreza, está quase lá ou está numa classe média muito massacrada, que precisa muito brigar pela sobrevivência", relata a autora. "E quando a gente precisa muito brigar pela sobrevivência, a gente não tem tempo de sonhar. Porque você precisa saber de coisas muito urgentes; você tem que saber se vai conseguir pagar o seu aluguel ou a escola do seu filho. Essa urgência poda o sonho."

Eliana se reinventou aos 50 anos, idade em que publicou seu romance de estreia, "Água de Barrela", assim como Conceição Evaristo, que veio antes dela e começou a publicar aos 44 anos, com os recursos próprios.

"Eu publiquei em outra condição porque ela veio antes, assim como as pessoas da geração dela, que abriram portas", Eliana explica, "Então, eu fico felicíssima de ver pessoas muito mais jovens já conseguindo algumas coisas que eu só consegui aos 50 anos."

É o caminho das coisas. Cada geração vai conquistando um pouquinho mais para que a próxima tenha mais uma, duas, três portas abertas. Mas "o direito de sonhar precisa ser alimentado, porque ele não sobrevive sozinho", como diz a autora à EXAME.

O legado de gerações

Quando questionada sobre como é ser vista como um legado direto de Conceição Evaristo, Eliana ri, nervosa, mas feliz. "Eu me vejo com alguma responsabilidade. Não é fácil carregar isso, né? Legado da Conceição. Pelo amor de Deus. Ela é muito pioneira em muita coisa, muito visionária em muitas coisas. Então, eu vejo com alegria, com responsabilidade, e também vejo que não sou só eu."

Entre Conceição e Eliana, muita gente caminhou essa trilha, travou batalhas e abriu portas invisíveis, mas que fazem toda a diferença. A nova geração também começa a ocupar espaço na literatura e em eventos como a Bienal do Livro.

Mas o caminho ainda é longo, o mercado literário brasileiro é enxuto e competitivo, o que torna mais difícil ser publicado. Para a autora, é necessário lutar para que a literatura nacional tenha o tamanho do nosso país, que é "gigantesco", nas suas próprias palavras.

"É um movimento que funciona como um caminho sem volta", afirma. "Durante muito tempo, o Brasil se contentou com apenas uma voz falando e narrando. A luta favorece todas nós, porque são mais mulheres, negras, indígenas, pessoas LGBTQIAPN+ e periféricas, além de outros centros do país".

Cada presença no movimento e na literatura faz eco em algum outro lugar, inspira uma nova voz, reverbera pela comunidade. "É um efeito borboleta do bem", conclui Eliana.

A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo acontece entre os dias 3 e 14 de setembro, no Distrito Anhembi, em São Paulo, com a presença de grandes e pequenas editoras. É esperado que o evento atinja a meta de 1 milhão de pessoas. Os ingressos ainda estão disponíveis.

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