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A máquina da folia: no Rio, um bloco de rua pode custar até R$ 400 mil

Por trás dessa festa popular e gratuita há muitas mãos, contratos e leis de incentivo envolvidos

Carnaval carioca: bloco A Rocha é um dos nomes na Liga dos Amigos do Zé Pereira, responsável por grandes e tradicionais blocos de rua da cidade (Mixed Comunicação/Liga dos Amigos do Zé Pereira/Divulgação)

Carnaval carioca: bloco A Rocha é um dos nomes na Liga dos Amigos do Zé Pereira, responsável por grandes e tradicionais blocos de rua da cidade (Mixed Comunicação/Liga dos Amigos do Zé Pereira/Divulgação)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 06h00.

Para o folião no Rio de Janeiro, um bloco de rua surge, aparentemente, de maneira instantânea. Por trás dessa festa popular e gratuita, porém, há muitas mãos, contratos e leis de incentivo envolvidos. Além do esforço, há um investimento pesado: para colocar um bloco na rua, é necessário gastar de R$ 10 mil a R$ 400 mil.

"Nesses valores estão inclusos: aquisição de equipamento de som e de direitos autorais das músicas via ECAD; cachê dos músicos e do mestre de bateria; aluguéis do trio, de caminhões e de geradores de energia elétrica; pagamento para seguranças, aderecistas, costureiras, brigadistas e produtores; custo de legalização", afirma Renata Moema à EXAME.

Renata é especialista em captação de recursos da Mixed - Comunicação e Marketing, empresa parceira de uma das maiores ligas carnavalescas cariocas, a Liga Amigos do Zé Pereira, desde 1995.

Este ano a pressão é ainda maior. O Carnaval de rua do Rio promete bater recordes novamente, com um público estimado pela Prefeitura de 6 milhões de pessoas. De acordo com o presidente da Riotur, Bernardo Fellows, esse número provavelmente será maior.

De fato, ao que tudo indica o influxo de turistas poderá bater recordes. Um levantamento da Booking.com sobre estadias 14 e 17 de fevereiro de 2026 mostrou que o Rio de Janeiro foi o destino brasileiro mais procurado por todos os grupos de viajantes para o Carnaval. Essa demanda intensa se reflete na taxa de ocupação da rede hoteleira da capital fluminense, que chegou à metade de janeiro com esse número em 73,19% para o período de Carnaval, de acordo com pesquisa do HotéisRIO, o sindicato patronal do setor no município

O número de inscrições de blocos na Prefeitura foi recordista: 803. Foram confirmados 462 deles, com 35 desfiles inéditos e 10 megablocos, que integram o Circuito Preta Gil e terão um público somado de 1,98 milhão. A maioria dos desfiles se concentra no Centro e na Zona Sul da capital fluminense.

Para abarcar as comemorações na rua, foi traçado um plano amplo e integrado pelo poder público. "É o momento da cidade de maior esforço operacional para a Prefeitura", diz Marcus Belchior, Secretário Municipal da Ordem Pública, em coletiva de imprensa sobre os preparativos para a festa.

(Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro) (Carmen Fukunari/Exame)

Assim como uma boa bailarina tem movimentos leves que parecem naturais, possíveis apenas com a contração forte de uma musculatura bem desenvolvida, um bom bloco de rua parece orgânico e diverte o público, mas exige planejamento exaustivo, dinheiro no caixa e fomento estratégico.

"A cada ano, a organização melhora", diz Rodrigo Rezende, presidente da Liga Amigos do Zé Pereira. A Liga é responsável por grandes blocos de rua tradicionais cariocas como o centenário Cordão da Bola Preta, que atinge um público de mais de 700 mil de pessoas há mais de dez anos, a Banda de Ipanema, a Orquestra Voadora, o Toca Rauul e o Quizomba.

Cordão da Bola Preta: bloco de rua existe há 107 anos e é visto como fundador do carnaval de rua carioca (Mixed Comunicação/Liga dos Amigos do Zé Pereira/Divulgação)

"A gente passou muitos anos com uma dificuldade muito grande em conseguir recursos para o Carnaval, era uma grande área cinza. Não sabíamos o que fazer para conseguir patrocínio ou fomento", afirma.

Os patrocínios

Festejos nas ruas não têm bilheteria, o que, comparado a outros  tipos de eventos, muda a lógica de financiamento.

Boa parte do capital disponível a um bloco de carnaval vem de patrocínios de empresas, de acordo com Renata Moema.

"O bloco é totalmente dependente de patrocínio. Senão, ele não consegue estar na rua, ele não se sustenta", diz Moema. Alguns blocos oferecem merchandise, mas, afirma ela, "o folião não vai comprar uma camiseta de R$ 40, ele está indo de bloco em bloco, ele não se importa com camiseta."

Bloco Quizomba: tradicional no Rio de Janeiro, o bloco de rua chegou a realizar oficinas de percussão em São Paulo na década passada (Mixed Comunicação/Liga dos Amigos do Zé Pereira/Divulgação)

Para viabilizar o patrocínio corporativo, são usados alguns mecanismos, como a Lei Rouanet, a nível nacional, e a Lei de ICMS do estado do Rio de Janeiro, além da Portaria RIOTUR Nº 314 DE 05/02/2025, específica ao município.

Captação por Lei Rouanet

"A Rouanet só precisa de um comunicado da empresa dizendo que ela quer usar aquele recurso ali. Ela está pagando de imposto, a lei permite que um aquele percentual desse tributo seja direcionado a um determinado projeto", explica Moema.

Nessa modalidade, o processo é direto: a empresa patrocinadora deve declarar o IR por lucro real e pode destinar até 4% do valor devido ao projeto. O valor deve ser depositado até o último dia do ano ou do período fiscal, e o patrocinador recebe um recibo de Mecenato emitido pelo proponente do projeto no modelo do Ministério da Cultura. Esse recibo deve ser guardado por seis anos e serve para abater a doação na declaração do IR.

Entre janeiro e outubro de 2025, o Ministério da Cultura recebeu 22,5 mil novas propostas via Lei Rouanet, com R$ 1,59 bilhão já captado, um aumento de 37,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Jason Prado, produtor cultural com mais de 30 anos de experiência em captação via Lei Rouanet, diz que o mecanismo depende de empresas com grande imposto de renda.

Lei de ICMS do estado do Rio de Janeiro

No caso da Lei de ICMS do Rio de Janeiro, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa implementou um sistema mais complexo. Desde a Resolução nº89 de 10 de agosto de 2020, a inscrição do patrocinador é feita via Sistema Desenvolve Cultura.

Esse processo envolve seis etapas: dados do patrocinador, dados do dirigente, dados do responsável pelo cadastro, histórico do patrocinador, políticas de patrocínio e anexos da documentação exigida.

Ambas as leis oferecem às empresas benefício fiscal de 100% do valor aportado.

Entre os principais patrocinadores do carnaval de rua carioca está a Ambev, que apoia diversos blocos da Liga dos Amigos do Zé Pereira, o Monobloco e outros. Rodrigo Rezende diz que há outros patrocinadores, mas que eles têm uma taxa de rotatividade alta e mantém o patrocínio, em geral, por até dois anos.

"O que o bloco oferece é visibilidade e interatividade. Quando o bloco coloca 1 milhão ou 2 milhões de pessoas na rua, você tem efetivamente uma visibilidade enorme pro patrocinador", afirma Jason Prado.

Novas regras na cidade do Rio de Janeiro

Além do aporte federal e estadual, novas regulamentações municipais podem ajudar a atrair patrocinadores. Pelo segundo ano, estão liberadas nos blocos a distribuição de brindes e outras atividades publicitárias pelas marcas patrocinadoras, algo que já era comum em São Paulo.

A mudança veio com a Portaria RIOTUR nº 314, de 05 de fevereiro de 2025, que estabeleceu condições claras para veiculação de patrocínios aos blocos de rua durante o carnaval.

A regulamentação permite cinco formas de ativação de marca: plotagem integral de veículos (envelopamento completo de carros de som, trios elétricos ou caminhões), estandartes distribuídos ao longo do cortejo, blimps (balões infláveis de até 2 metros de diâmetro, limitados a duas unidades por bloco), camisas para organizadores e equipe de apoio, e distribuição de brindes e itens promocionais.

"Essa prefeitura tem uma simpatia pelo carnaval, e, após muito diálogo, conseguimos trazer o fomento e uma portaria que permite patrocínios diretos. Esse é o segundo ano de um formato mais organizado e favorável para os blocos", diz Rodrigo Rezende.

Há, porém, regras rígidas. Os itens promocionais devem ser produzidos em material biodegradável e não poluente, conforme a Lei Complementar nº 269/2023. Eles somente podem ser distribuídos durante o cortejo, na área aprovada e em quantidade previamente autorizada pela RIOTUR. Fica proibido condicionar acesso a áreas restritas à compra de camisas ou produtos.

Os organizadores devem submeter os projetos de patrocínio à RIOTUR para aprovação prévia, que pode vetar parcial ou totalmente caso "o conteúdo seja incompatível com manifestações culturais públicas ou atente contra o interesse público".

A portaria também combate práticas oportunistas: fica terminantemente proibida a veiculação de marcas não autorizadas dentro do perímetro dos blocos, inclusive dos patrocinadores oficiais do Carnaval Rio 2025 que não sejam patrocinadores específicos daquele bloco. A caracterização como "marketing de emboscada" pode resultar em sanções previstas na legislação municipal..

Fomento público direto

Além dos patrocínios, outra maneira de um bloco de rua captar recursos é pelo fomento direto, tanto municipal, quanto estadual.

Céu na Terra: desfile de blocos no bairro Santa Teresa são uma tradição na cidade (Mixed Comunicação/Liga dos Amigos do Zé Pereira/Divulgação)

O planejamento anual para 2026 do ISS de cultura do Rio de Janeiro chega a um valor de R$ 85 milhões, de acordo com o Secretário Municipal da Cultura, Lucas Padilha. O repasse para o Carnaval de rua já é institucionalizado há um tempo e, de acordo com Rezende, os valores recebidos por um bloco podem ser 5 mil, 25 mil ou 50 mil, a depender do tamanho do público.

"Na Sapucaí já havia fomento, mas os blocos de rua não. Foram alguns anos de luta, tentando conscientizar o poder público", afirma Rezende.

Apesar desse avanço, o fomento público representa apenas uma parcela pequena do orçamento necessário. "Com 25 mil reais, como é que se paga um carro de som? A infraestrutura é cara, então depende de um financiamento misto", diz Jason Prado.

Ele relata ainda dificuldades com editais estaduais. Seu bloco, o Bloco do Heitor Vila-Lobos, vinculado à escola de música técnica do Estado, conquistou nota 9,7 em um edital, mas após recursos de outros participantes, foi rebaixado para suplente. "A gente vai decidir não sair com o bloco esse ano", afirma.

Infraestrutura

Para um bloco de rua funcionar adequadamente, diversos itens de infraestrutura são essenciais e onerosos. Renata Moema diz que hoje existem exigências rigorosas: "Você precisa ter licenciamento para colocar as cercas, garantir a segurança, providenciar banheiros químicos, licença dos bombeiro."

Parte dessa infraestrutura já é disponibilizada pela Prefeitura, sobretudo em transporte público, limpeza urbana, credenciamento de vendedores ambulantes e operações especiais de trânsito.

No entanto, o próprio funcionamento do bloco de rua é da responsabilidade dele, como organizar os patrocínios e a documentação necessária para o desfile. Além disso, "os músicos são todos pagos. Eles recebem o cachê deles para estar ali", diz Rodrigo Rezende. Os gastos com a equipe também podem envolver o uso de agências de publicidade, empresários, contadores e outros profissionais.

Um grande desafio de planejamento é a questão dos trios elétricos. Além de custosos, é "difícil encontrar bons trios elétricos no Rio de Janeiro, a qualidade é baixa. O Cordão do Bola Preta, por exemplo, usa o sistema de som trazido do nordeste pelo Bloco da Lud", afirma Rezende. "Com fomento e a nova portaria organizando patrocínios nos fornecerão mais dinheiro para termos melhores equipamentos, a tendência é melhorar."

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