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Hantavírus: EUA rastreiam 16 novos casos e debate científico cresce

A OMS confirmou 11 casos ligados ao surto no cruzeiro MV Hondius enquanto especialistas divergem sobre o potencial de transmissão do hantavírus Andes entre humanos sem contato

Hantavírus: navio onde ocorreu surto da doença já tem 11 casos confirmados (Jorge Guerrero/AFP)

Hantavírus: navio onde ocorreu surto da doença já tem 11 casos confirmados (Jorge Guerrero/AFP)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 15 de maio de 2026 às 16h44.

O cruzeiro MV Hondius, da empresa holandesa Oceanwide Expeditions, chegou às Ilhas Canárias no dia 10 de maio, encerrando sua travessia com um surto de hantavírus que deixou três mortos e mobilizou autoridades sanitárias de ao menos quatro continentes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) contabilizou, até 13 de maio, 11 casos vinculados ao foco, com taxa de letalidade de 27%. Oito foram confirmados laboratorialmente, dois são prováveis e um é inconclusivo.

Os Estados Unidos, por sua vez, anunciaram que monitoram ao todo 41 pessoas potencialmente expostas ao vírus, número que inclui 16 novos casos suspeitos não relacionados diretamente ao navio.

Situação do surto ligado ao cruzeiro

A embarcação partiu de Ushuaia, no sul da Argentina, em 1º de abril, transportando mais de 140 passageiros e tripulantes. Exames laboratoriais identificaram a cepa Andes do hantavírus, endêmica na América do Sul, em diversos passageiros.

Após atracar nas Canárias no último domingo, o navio iniciou o desembarque dos passageiros, que foram repatriados em voos fretados especialmente para esse fim, com apoio da OMS.

O cruzeiro deixou Tenerife em 11 de maio em direção à Holanda, com 25 membros da tripulação a bordo, acompanhados de profissionais de saúde holandeses.

Em Cingapura, dois homens que desembarcaram em Santa Helena permanecem isolados e em testagem. Na África do Sul, autoridades concentram esforços no rastreamento de passageiros de um voo de 25 de abril entre Santa Helena e Joanesburgo.

O Ministério da Saúde espanhol definiu que casos ativos seriam evacuados por via aérea médica diretamente de Cabo Verde para unidades hospitalares de alto isolamento. Em 8 de maio, o órgão aprovou protocolo estabelecendo quarentena obrigatória no Hospital Central de Defesa Gómez Ulla, em Madri, para todos considerados contatos — passageiros que estiveram no navio entre 1º de abril e 10 de maio ou que tiveram contato com um caso confirmado.

Os Estados Unidos e o Reino Unido também fretaram aeronaves para repatriar seus cidadãos a bordo.

16 novos casos suspeitos nos EUA

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) anunciaram, nesta quinta-feira, 14, que monitoram 16 pessoas adicionais em todo o país, não listadas anteriormente, por possível exposição ao hantavírus.

Segundo o Dr. David Fitter, responsável pela resposta do CDC ao surto, esses indivíduos não estavam no cruzeiro. Eles eram passageiros de um voo de 25 de abril para Joanesburgo que teve contato com uma pessoa posteriormente confirmada como infectada.

A passageira em questão era uma holandesa de 69 anos, cujo marido foi a primeira vítima fatal do surto.

Ela desembarcou em Santa Helena em 24 de abril, voou no dia seguinte para a África do Sul, onde desmaiou logo após a chegada e morreu em 26 de abril. Sua infecção foi confirmada em 4 de maio, informou o New York Times.

O CDC não divulgou outras informações sobre os 16 novos monitorados, incluindo seus destinos após chegarem aos EUA.

Com isso, o total de pessoas sob monitoramento no país passou para 41.

Desse montante, 18 são passageiros do MV Hondius repatriados na segunda-feira, 12, que estão em quarentena em instalações especiais em Omaha e Atlanta.

Outros sete passageiros haviam desembarcado em Santa Helena em 24 de abril, retornado aos EUA em voos comerciais e são acompanhados por departamentos de saúde estaduais. Até o momento, não há casos confirmados no território americano, disse o CDC.

A quarentena, por ora, tem caráter essencialmente voluntário.

O CDC orienta os expostos a permanecerem em casa e evitarem contato com outras pessoas durante o período de monitoramento de 42 dias. A OMS também recomenda quarentena ativa para contatos de alto risco pelo mesmo período após a última exposição.

Há casos de hantavírus no Brasil?

Os casos de hantavírus registrados no Brasil em 2026 não têm qualquer relação com o surto do MV Hondius.

O Ministério da Saúde confirmou que a cepa Andes não circula no país. A variante é associada ao episódio raro de transmissão interpessoal documentada no navio e em surtos anteriores na Argentina e no Chile.

Segundo a pasta do órgão, os casos humanos brasileiros não apresentam transmissão entre pessoas. Até o momento, foram identificados nove genótipos de Orthohantavírus em roedores silvestres no território nacional, e nenhum deles possibilita esse tipo de contágio.

Até o momento, o país registrou um óbito e sete casos de contaminação em 2026, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

O óbito ocorreu em Minas Gerais: um homem de 46 anos, morador de Carmo do Paranaíba, com histórico de contato com roedores silvestres em lavoura.

No Paraná, segundo a Secretaria de Estado da Saúde, dois casos foram confirmados em maio durante o surto no navio holandês, mas sem relação com ele. Outros 21 casos foram descartados e 11 seguem em investigação.

As secretarias estaduais de saúde de ambos os estados reforçaram que a doença está controlada e que não há qualquer surto registrado.

Desde a identificação da doença no Brasil, em 1993, até dezembro de 2025, foram confirmados 2.412 casos e 926 óbitos, segundo o Ministério da Saúde. A taxa de letalidade média no Brasil é de 46,5%.

Os dados apontam tendência de redução em nos últimos anos. O país registrou 35 casos e 15 mortes em 2025, o menor número desde o início da série histórica recente.

Especialistas divergem quanto às medidas necessárias para impedir uma pandemia

Autoridades sanitárias têm repetido que a única forma de transmissão interpessoal do hantavírus Andes é o contato próximo e prolongado com alguém sintomático.

O diretor interino do CDC, Dr. Jay Bhattacharya, afirmou em entrevista à Fox News que "é preciso estar em contato próximo com alguém que apresente muitos sintomas" para que haja risco de contágio.

A OMS avalia o risco global do surto como baixo. O diretor-geral da organização, Dr. Tedros Ghebreyesus, destacou que, após semanas confinados no navio, apenas 11 dos cerca de 150 passageiros foram infectados, evidência de que o vírus "não é tão eficiente quanto a Covid".

Cientistas que estudam hantavírus há décadas, no entanto, alertam que essa visão pode estar simplificando uma realidade mais complexa, segundo reportagem do New York Times.

Os especialistas concordam que o vírus Andes não é particularmente contagioso e dificilmente provocaria um surto de maior escala, mas apontam que pesquisas mostram que, em determinadas circunstâncias, a transmissão pode ocorrer sem contato físico direto.

"É importante ser honesto cientificamente e comunicar isso, pois do contrário se perde credibilidade", disse ao jornal Steven Bradfute, imunologista viral e especialista em hantavírus da Universidade do Novo México.

Em entrevista ao New York Times, o próprio Dr. Tedros reconheceu que a ênfase no contato próximo como única via de transmissão serve também para evitar pânico desnecessário.

"É muito difícil explicar às pessoas dizendo 'isso é a exceção, isso é a norma'", afirmou. "Quando você menciona a exceção, elas podem pensar que ela também ocorre com frequência."

O ponto de tensão central diz respeito ao surto de Epuyén, na Argentina, entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, o maior já caracterizado com transmissão interpessoal documentada. Valeria Martinez, virologista do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas de Buenos Aires, e colegas rastrearam 34 casos e 11 mortes.

No total, seis dos 34 casos não tiveram contato direto com doentes, e um deles parece ter sido infectado em uma interação casual de poucos segundos.

"Isso não é contato próximo, e tampouco é contato prolongado", disse ao New York Times Joseph G. Allen, diretor do programa Healthy Buildings da Harvard T.H. Chan School of Public Health.

Tedros afirmou que a OMS não incluiu os achados do surto de Epuyén em suas orientações públicas por não terem sido replicados por outros estudos.

Gustavo Palacios, virologista da Icahn School of Medicine do Mount Sinai e um dos autores do artigo sobre aquele surto, discordou da postura. Segundo ele, o estudo "ajuda a definir o limite externo do que o vírus Andes pode fazer em condições favoráveis de transmissão", e as diretrizes de saúde pública precisam contemplar essa possibilidade, mesmo que a maioria dos eventos não se assemelhe ao caso argentino.

A OMS não inclui critério de distância em metros em suas orientações. Já o CDC adota a medida de menos de 1,80 metro por mais de 15 minutos como indicativo de risco, embora reconheça que esse limiar "não é absoluto".

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