hantavírus: Brasil tem mais de 2.500 casos desde 1993 (Getty Images)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 8 de maio de 2026 às 17h36.
Última atualização em 8 de maio de 2026 às 17h56.
A confirmação de dois casos de hantavírus no Paraná e a investigação de um surto associado ao cruzeiro MV Hondius, monitorado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), acenderam o alerta sobre a doença viral transmitida por roedores silvestres.
Apesar da repercussão internacional após três mortes registradas entre passageiros da embarcação, especialistas e autoridades de saúde afirmam que não há risco de epidemia ou pandemia no Brasil.
Segundo a Secretaria de Saúde do Paraná, um dos casos foi registrado em Pérola d’Oeste, na fronteira com a Argentina, e outro em Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais. Outros 11 casos seguem em investigação e 21 já foram descartados. Os exames são realizados pela Fiocruz.
“O hantavírus é uma doença monitorada rigorosamente. Tivemos apenas dois casos neste ano e nenhum óbito. Não há motivo para pânico”, afirmou o secretário estadual de Saúde, César Neves.
Para a infectologista Elba Lemos, pesquisadora titular do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e uma das principais especialistas brasileiras em hantaviroses, o contexto brasileiro é completamente diferente do episódio registrado no navio internacional.
Segundo a médica, os hantavírus em circulação no Brasil são mantidos por roedores silvestres nativos e têm transmissão predominantemente ambiental, sem propagação sustentada entre humanos.
“Nenhum outro hantavírus, com exceção do Andes, tem transmissão de pessoa para pessoa. Isso não existe. É algo exclusivo do vírus Andes, mantido por um roedor nativo do bioma argentino”, afirmou a pesquisadora.
A especialista explica que o vírus predominante no Paraná é o Juquitiba, associado ao roedor Rato do Arroz (Oligoryzomys nigripes). Já no Cerrado brasileiro, o principal é o vírus Araraquara, mantido pelo rato do Cerrado (Necromys lasiurus).
O chamado vírus Andes, identificado nos casos monitorados pela OMS, possui comportamento distinto. Ele é encontrado principalmente na Argentina e tem histórico raro de transmissão entre pessoas.
Segundo Elba Lemos, a espécie de roedor que mantém o vírus Andes na natureza, o Oligoryzomys longicaudatus, não existe no Brasil.
“Não há registro da circulação do vírus Andes no Paraná”, informou a Secretaria de Saúde do estado em nota enviada à EXAME. “Os casos identificados são da cepa silvestre, transmitida por animais silvestres.”
A Organização Mundial da Saúde também descartou risco de disseminação global. A diretora de preparação para epidemias e pandemias da entidade, Maria Van Kerkhove, afirmou que “a situação não representa o início de uma epidemia”.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, informou que cinco casos foram confirmados no cruzeiro MV Hondius e outros três seguem sob investigação. Três pessoas morreram.
O navio saiu de Ushuaia, no sul da Argentina, em abril, percorreu o Atlântico até Cabo Verde e atualmente navega em direção às Ilhas Canárias, na Espanha.
Segundo Lemos, episódios de transmissão entre humanos relacionados ao vírus Andes são considerados extremamente raros.
A pesquisadora cita um surto ocorrido entre 2018 e 2019 na Patagônia argentina, quando dezenas de pessoas foram contaminadas após um evento social.
“Foi uma situação inusitada. Houve contenção rápida e a propagação foi interrompida”, disse.
Em nota enviada à EXAME, o Ministério da Saúde afirmou que o risco global de disseminação do hantavírus permanece baixo, segundo avaliação mais recente da Organização Mundial da Saúde.
"O surto com casos confirmados e suspeitos em passageiros de um navio com histórico de circulação na América do Sul está sendo investigado, sem impacto direto para o Brasil até o momento", afirmou.
A pasta afirmou que, no ano passado, o Brasil registrou 35 casos da doença e, neste ano, nove casos, já contando com os confirmados esta semana.
"No país, a hantavirose é uma doença de notificação compulsória há mais de duas décadas, permitindo o monitoramento contínuo dos casos humanos e dos genótipos virais circulantes", disse.
O hantavírus é um grupo de vírus transmitidos principalmente por roedores infectados, que eliminam partículas virais na urina, fezes e saliva. A infecção humana ocorre principalmente pela inalação desses aerossóis contaminados.
Segundo o Ministério da Saúde, a hantavirose é uma zoonose viral aguda que, no Brasil, se manifesta principalmente na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), doença que pode comprometer pulmões e coração.
Os primeiros sintomas costumam incluir febre, dores musculares e dor de cabeça. Em alguns casos, a doença evolui para quadros graves, com comprometimento respiratório, cardíaco ou renal.
Não existe vacina nem antiviral específico contra o hantavírus. O tratamento é baseado em suporte clínico e monitoramento intensivo.
No Brasil, os casos permanecem raros. Segundo a pesquisadora da Fiocruz, o país registrou menos de 2.500 casos desde 1993, quando o vírus foi identificado pela primeira vez.
A especialista reforça que o principal caminho para prevenção continua sendo evitar contato com roedores silvestres e ambientes contaminados.
Entre as recomendações estão manter alimentos armazenados em recipientes fechados, evitar acúmulo de entulho, roçar áreas próximas a residências rurais e utilizar equipamentos de proteção durante limpezas de galpões, paióis e silos.
Elba Lemos também defende maior atenção sanitária em viagens internacionais e cruzeiros marítimos.
“Turismo exige informação. As pessoas precisam saber quais doenças circulam nos locais para poder se proteger”, afirmou.