BC: inadimplência no Brasil bate recorde (fotopoly/Getty Images)
Repórter de finanças
Publicado em 30 de março de 2026 às 12h02.
A taxa média de juros de todo o crédito no país — considerando recursos livres e direcionados — alcançou 33% ao ano em fevereiro, o maior patamar da série histórica, iniciada em março de 2011. O dado foi divulgado pelo Banco Central no relatório ‘Estatísticas monetárias e de crédito’.
O vilão dessa alta foi o aumento expressivo das operações de cartão de crédito rotativo às famílias, que subiram expressivos 11,4 pontos percentuais. Ou seja, quem deixa dívidas rolarem no cartão acabou pagando muito mais caro.
O resultado é que, na média, famílias e empresas estão pagando quase o dobro da Selic atual, que estava em 15% na época. tornando o crédito mais caro e impactando diretamente o bolso dos brasileiros.
“Tínhamos a Selic estável e, mesmo assim, crescimento nas taxas das modalidades mais caras de crédito, como o rotativo, o que indica um certo descompasso", explica Fernando Rocha, chefe de estatísticas do Banco Central.
Quando observado o crédito livre, os números ficam ainda mais evidente: às famílias, a taxa atingiu 62% ao ano, pressionando fortemente o orçamento doméstico. Já no crédito livre às empresas, a taxa recuou ligeiramente, 0,1 ponto percentual, para 24,9% ao ano, mostrando mais cautela das empresas ao buscar empréstimos.
A inadimplência de todo o crédito também atingiu valores recordes da série histórica do BC em fevereiro.
No Sistema Financeiro Nacional (SFN), a inadimplência subiu 0,2 ponto percentual em janeiro, chegando a 4,3%. Tanto as empresas quanto as famílias tiveram aumento semelhante: a inadimplência das empresas passou para 2,6% e a das famílias para 5,2%.
Quando olhamos apenas para o crédito com recursos livres — como empréstimos e cartões em que o banco define livremente as condições — a inadimplência também cresceu 0,2 ponto percentual, chegando a 5,5%, com altas tanto para empresas quanto para pessoas físicas.
Já o endividamento das famílias ficou em 49,7%, praticamente estável em relação a dezembro, mas 1,1 ponto percentual acima do registrado há um ano. O comprometimento da renda — quanto do salário das famílias está sendo usado para pagar dívidas — subiu levemente, chegando a 29,3%, um aumento de 1,6 ponto percentual em doze meses.
“Aqui é importante destacar uma questão metodológica”, explica o Rocha.
“Houve uma mudança nos critérios usados pelas instituições financeiras para apuração dos saldos inadimplentes. Antes, a entrada na inadimplência ocorria a partir de 90 dias de atraso e a saída seguia uma regra fixa", diz.
Ele complementa: "Agora, os bancos definem a classificação de inadimplência com base na própria avaliação e na perspectiva de recuperação do crédito, o que pode fazer com que esses créditos permaneçam mais tempo nas carteiras. Assim, parte do aumento da taxa de inadimplência se deve a essa nova metodologia”, comenta.
Segundo ele, metade do aumento reflete a mudança de regra, e a outra metade, o crescimento real da inadimplência. “A trajetória de inadimplência existe, mas seria menor se não houvesse a alteração metodológica.'
O estoque das operações de crédito do SFN, que mostra todo o crédito que já foi concedido e ainda não foi pago, subiu 0,4% em fevereiro, alcançando R$ 7,1 trilhões, impulsionado principalmente pelo crescimento do crédito às famílias, que avançou 0,6% no mês, totalizando R$ 4,5 trilhões.
Quando observado o crédito com recursos livres entre as pessoas físicas, o aumento foi disseminado em várias modalidades, com destaque para crédito consignado privado, financiamento de veículos e crédito pessoal não consignado, enquanto o cartão de crédito à vista recuou ligeiramente, afetado por menos dias úteis no mês. Nesse contexto, o estoque do crédito às pessoas físicas cresceu 12,6% em 12 meses.
Já o estoque de crédito direcionado chegou a R$ 3,1 trilhões em fevereiro, com alta de 0,8% no mês e avanço de 12,2% em 12 meses, puxado principalmente pelas empresas, cujo crédito direcionado atingiu R$ 1,1 trilhão, registrando crescimento de 0,6% no mês e 17,7% em 12 meses.
As famílias também tiveram aumento, embora menor, com o crédito direcionado chegando a R$ 2 trilhões, alta de 0,9% no mês e 9,5% em 12 meses, impulsionado sobretudo pelo financiamento imobiliário com taxas reguladas (+0,8%).