Mapa da Inadimplência: estudo mostra que perfil dos inadimplentes mudou em uma década (Rebecca Crepaldi/Exame)
Repórter de finanças
Publicado em 24 de março de 2026 às 15h02.
Última atualização em 24 de março de 2026 às 15h43.
A inadimplência só cresce no Brasil e, ao longo de uma década, houve uma mudança gradual no perfil dos inadimplentes – é o que mostra o estudo ‘Mapa da Inadimplência’ da Serasa. Atualmente, mulheres lideram a inadimplência no país. Há 10 anos, em fevereiro de 2016, a porcentagem entre mulheres e homens era de 49,76% e 50,24%, respectivamente. Em fevereiro de 2026, esse número se inverteu para 50,51% e 49,49%.
O papel da mulher como principal responsável do sustento das famílias contribui com essa estatística. O próprio Serasa, em uma outra pesquisa realizada este ano, constatou que 34% das entrevistadas eram as únicas provedoras financeiras de seus lares. As mulheres lideram os acordos fechados no Feirão Serasa Limpa Nome, representando 56,2% do volume total.
O perfil etário da inadimplência também mudou ao longo da última década, com redução entre os mais jovens e avanço nas faixas mais altas. Entre pessoas de 18 a 25 anos, a participação caiu de 15,93% em 2016 para 11,45% em 2026, enquanto no grupo de 26 a 40 anos houve recuo de 40,13% para 34,15%.
Em contrapartida, a inadimplência cresceu entre os mais velhos: na faixa de 41 a 60 anos, subiu de 31,71% para 34,99%, e, acima de 60 anos, avançou de 12,23% para 19,41%. Isso porque esse grupo está mais inserido no ambiente digital, mas também mais exposto a riscos como fraudes. Em pesquisas recentes, quatro em cada 10 idosos relataram ter sofrido golpes com prejuízo financeiro, muitas vezes associados ao avanço de tecnologias como inteligência artificial.
E quem são os que estão mais inadimplentes? Os que ganham menos. A inadimplência se concentra na base: 48% ganham até um salário mínimo, enquanto 30% ganham até dois salários mínimos.
O cenário é desafiador: o número de inadimplentes atingiu um recorde em fevereiro de 2026: 81,7 milhões de brasileiros. Comparado com fevereiro de 2016, esse montante cresceu 38%, saltando de 59 milhões naquele ano. O valor médio por pessoa subiu de R$ R$ 5.880,02 em 2016 para R$ 6.598,13, um aumento de 12,2%.
E mesmo em um cenário de juros em queda, com o Comitê de Política Monetário (Copom), cortando a taxa de juros para 14,75% pela primeira vez em quase dois anos, as projeções apontam que o cenário de inadimplência não deve melhorar nos próximos meses – ele está batendo recorde atrás de recorde desde 2021.
Isso porque a correlação entre taxa de juros e inadimplência existe, mas não é o único fator que justifica. A exemplo, em 2020, quando a taxa estava em 4,5%, a inadimplência crescia para 63,9 milhões. O que explica é a soma de outros fatores. “Inadimplência não é exclusivamente sobre o efeito da taxa de juros, mas como está o nível da atividade econômica naquele momento”, diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa.
A premissa é verdadeira para agora, mesmo com a taxa de desemprego nas mínimas históricas, os juros ainda estão em níveis muito restrititvos, o que pesa na redução da inadimplência. A Serasa está menos otimista que os demais players do mercado: antes mesmo das revisões para cima da Selic, ela já projetava que 2026 terminasse com os juros em 13%. “Vamos navegar um bastante incerteza o cenário por conta do contexto político”, afirma Abdelmalack.
O reflexo de tudo isso é no comprometimento da renda. O estudo aponta que o brasileiro tem, em média, 70,5% da sua renda comprometida com contas básicas, como água, luz e telecomunicação, e dívidas a pagar, como fatura de cartão de crédito. O restante, de forma subjetiva, deve ser utilizado para alimentação. Nesse sentido, as dívidas inadimplentes ficam para escanteio.
“É preocupante quando olhamos o quanto o custo de vida do brasileiro está pesando no bolso”, afirma Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa, que ainda destaca outro estudo da Serasa. De acordo com a pesquisa, 70% dos brasileiros percebem aumento no custo de vida nos últimos 12 meses, com destaque para gastos com supermercado (31%), contas recorrentes (23%) e moradia (13%).
Os gastos básicos — como supermercado, água, luz e gás — passaram a pesar mais no orçamento. Contas essenciais, que antes tinham menor relevância, hoje ocupam a segunda posição entre os principais tipos de dívida, com avanço de 7 pontos percentuais. O cartão de crédito também ganhou participação, enquanto dívidas com telefonia perderam espaço, reflexo de iniciativas de renegociação com forte adesão do setor.
O grande vilão de tudo ainda é o sistema financeiro (bancos, cartões e financeiras). A participação do setor financeiro na inadimplência do consumidor subiu de cerca de 38% no pré-pandemia para aproximadamente 45% no período recente. O resultado é que as instituições estão desacelerando o ritmo de concessão de juros mais baratos. Ou seja, a população está se endividando em dívidas mais caras.
“Não devemos ter tão cedo essa reversão do cenário de inadimplência, por conta dessa concessão do crédito rotativo”, destaca Vieira.