Fim das bets: , o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou a Medida Provisória (MP) 1.394 de 2026, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 05h00.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva publicou, na sexta-feira, 25, a MP 1.394/2026, que proibiu as bets no Brasil e determinou o bloqueio de sites e aplicativos a partir de 6 de outubro. Analistas e bancos veem possível benefício para varejistas da bolsa brasileira, a B3, e bancos voltados à baixa renda.
A proibição das bets no Brasil pode produzir efeitos que vão muito além das empresas diretamente ligadas ao mercado de apostas. Entre as companhias listadas na Bolsa de Valores do Brasil, a B3, analistas veem espaço para uma eventual recuperação do consumo entre famílias de menor renda, o que poderia beneficiar varejistas e bancos.
Na última sexta-feira, 25, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou a Medida Provisória (MP) 1.394 de 2026, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. A regra alcança tanto apostas esportivas quanto jogos on-line e entrou em vigor na data de sua publicação.
A medida chega menos de três anos depois da regulamentação do setor pela Lei 14.790/2023, que estabeleceu regras para as apostas de quota fixa no país. Agora, além da interrupção da operação das plataformas, a MP também restringe publicidade, patrocínios e novos aportes.
O governo estabeleceu que os apostadores poderão retirar os saldos remanescentes até 5 de outubro. A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos deverão ser bloqueados no país.
Para Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, o principal efeito sobre as companhias listadas pode aparecer no consumo.
Segundo ele, varejistas de alimentos como Assaí (ASAI3) e Grupo Mateus (GMAT3) podem estar entre as empresas mais diretamente beneficiadas caso parte da renda que hoje é direcionada às apostas volte para o orçamento das famílias.
"A expectativa das varejistas era que teria uma rentabilidade muito maior por loja. Mas, no primeiro momento, houve uma redução das compras e piora na qualidade da cesta básica, e depois uma diminuição no consumo", afirma Cima.
Na avaliação do analista, esses movimentos ocorreram ao mesmo tempo em que as bets se expandiram no Brasil e afetaram principalmente as empresas de alimentos listadas na Bolsa. "Assaí e Grupo Mateus talvez sejam as empresas que mais podem se beneficiar no curto prazo se essa renda começar a sobrar um pouquinho no bolso do brasileiro", diz.
Cima também cita Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3) entre as varejistas que poderiam se beneficiar de uma eventual recuperação do consumo. A Hapvida (HAPV3) também aparece na análise, em um movimento mais amplo de recomposição do consumo das famílias de menor renda."Não falamos em melhora de margem, nem algo tão absurdo, mas pelo menos uma tendência de retomada aqui", afirma.
Na visão do analista, a questão central é justamente o contraste entre a massa salarial elevada e o desempenho operacional de parte das empresas voltadas ao consumo. Cima avalia que dois fatores ajudam a explicar essa diferença: a parcela da renda direcionada às apostas e o endividamento das famílias.
"Essa massa salarial vem acompanhada primeiro pela drenagem de recursos que mudou os hábitos de consumo do brasileiro e, segundo, pelo endividamento. E essas duas verticais estão sendo atacadas agora pelo governo", afirma.
O analista também vê possíveis efeitos, ainda que secundários, sobre empresas ligadas a outros tipos de consumo. Entre os exemplos estão Localiza (RENT3) e Movida (MOVI3), no aluguel de carros; CVC (CVCB3), em viagens; e Marfrig (MRFG3) e JBS (JBSS3), no consumo de alimentos. "Nesse caso, o ciclo da commodity seja mais importante do que sobrar um pouco mais de renda para os consumidores", afirma.
A possibilidade de recuperação das vendas, porém, não significa que todo o dinheiro que deixará de ser apostado será automaticamente direcionado ao varejo, segundo André Bobek, consultor financeiro e CEO da Mhydas Planejamento Financeiro, que destaca que o efeito precisa ser analisado com cautela.
Para Bobek, os potenciais beneficiados estão principalmente no varejo e no crédito às famílias, enquanto a pressão negativa mais direta recai sobre empresas que dependem comercialmente das operadoras.
"Eu separaria essa análise em dois horizontes. No curto prazo, empresas que atendem diretamente às bets podem enfrentar interrupção de receitas e despesas de adaptação. Para o varejo e o crédito, o eventual benefício depende de mudanças no comportamento financeiro das famílias e exige mais tempo para ser comprovado nos resultados", afirma.
Bobek cita Assaí, Magazine Luiza (MGLU3), Casas Bahia (BHIA3), Lojas Renner e C&A como empresas que podem se beneficiar indiretamente, embora por mecanismos diferentes.No Assaí, segundo ele, o potencial efeito estaria na recomposição do orçamento destinado à alimentação. Em Renner e C&A, na retomada de compras de vestuário eventualmente adiadas. Já Magazine Luiza e Casas Bahia poderiam se beneficiar de uma recuperação das compras de bens duráveis, embora dependam da capacidade das famílias de assumir parcelas e das condições de crédito.
Segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas citados pelo BTG Pactual em relatório de varejo e consumo, as plataformas reguladas registraram aproximadamente R$ 36,9 bilhões em Receita Bruta de Jogos, ou GGR, em 2025.
O indicador corresponde ao valor apostado descontados os prêmios pagos aos jogadores e é considerado uma medida mais adequada do gasto efetivo do consumidor do que o volume total de apostas ou as transferências realizadas.
O BTG também aponta que 25,2 milhões de brasileiros fizeram ao menos uma aposta em plataformas reguladas ao longo de 2025, o equivalente a cerca de 15% da população adulta. O gasto líquido médio foi de aproximadamente R$ 122 por apostador por mês.
Apesar do tamanho do mercado, Bobek ressalta que não seria correto tratar o GGR como uma quantia que será integralmente redirecionada ao consumo. "Também não significa que esse valor será integralmente redirecionado ao varejo", afirma. Segundo o analista,a uma família que deixa de gastar com apostas pode primeiro priorizar o pagamento de dívidas ou a formação de uma reserva financeira.
O efeito sobre os bancos também pode vir por essa mesma via, com uma eventual melhora na renda disponível das famílias pode reduzir a pressão sobre o crédito e melhorar a qualidade dos ativos.
Relatório do UBS BB classifica a proibição das apostas como "ligeiramente positiva" para os bancos brasileiros. Segundo o banco, a restrição pode aumentar a renda disponível e a capacidade de pagamento das dívidas, especialmente entre consumidores de baixa renda.
O Nubank (ROXO34) é apontado pelo UBS BB como um dos potenciais beneficiários, em razão da maior exposição ao crédito sem garantia e aos cartões de crédito e de sua atuação junto ao público de menor renda.
A MP 1.394/2026 proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas esportivas e jogos on-line de quota fixa no Brasil. A medida também restringe patrocínios e novos aportes no setor.
Os sites e aplicativos de apostas deverão ser bloqueados no Brasil a partir de 6 de outubro. O governo permitiu que os apostadores retirem os saldos remanescentes até 5 de outubro.
Felipe Cima, da Manchester Investimentos, cita Assaí, Grupo Mateus, Lojas Renner, C&A e Riachuelo entre as possíveis beneficiárias de uma recuperação do consumo. André Bobek, CEO da Mhydas Planejamento Financeiro, também menciona Magazine Luiza e Casas Bahia, mas ressalta que o efeito depende do comportamento financeiro das famílias e das condições de crédito.
As plataformas reguladas registraram cerca de R$ 36,9 bilhões em Receita Bruta de Jogos em 2025, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas citados pelo BTG Pactual. De acordo com o relatório, 25,2 milhões de brasileiros apostaram e o gasto líquido médio chegou a aproximadamente R$ 122 por apostador ao mês.
Não necessariamente, segundo André Bobek. O consultor financeiro afirma que as famílias podem priorizar o pagamento de dívidas ou a formação de uma reserva financeira antes de ampliar o consumo.
A proibição pode elevar a renda disponível e a capacidade de pagamento das famílias, o que tende a reduzir a pressão sobre o crédito, segundo o UBS BB. O banco classifica a medida como ligeiramente positiva e aponta o banco digital Nubank como possível beneficiário por sua exposição ao crédito sem garantia, aos cartões e ao público de menor renda.